A reinvenção da proteína

Depois do boom e da correção de rota nos Estados Unidos e na Europa, o mercado de plant-based busca um novo fôlego, com avanços em sabor e textura
Edição: 53
20 de março de 2026

Por Romualdo Venâncio

Mudanças nos hábitos de consumo funcionam como bússola para a indústria de alimentos. Por isso, qualquer sinal de arrefecimento na demanda por produtos plant-based e por proteínas cultivadas em laboratório passou a ser acompanhado de perto pelo complexo agroindustrial de proteína animal – e não por acaso. Trata-se de um movimento com potencial para influenciar tendências no mercado global. Nesse cenário, a pergunta central é entender o que explica essa oscilação, qual é o seu tamanho real e se ela representa apenas um ajuste de rota ou uma virada mais duradoura.

Segundo a empresa de inteligência de mercado Spins, as vendas no varejo de alimentos à base de plantas cresceram de forma contínua nos Estados Unidos entre 2014 e 2022: o mercado saiu de US$ 2 bilhões para US$ 8,3 bilhões no período. A partir daí, a curva virou. Em 2023, o faturamento recuou 2,4%, para US$ 8,1 bilhões. E a projeção para 2024 apontava uma queda ainda mais acentuada, de cerca de 5%, levando o total para US$ 7,7 bilhões.

Para Camila Lupetti, especialista de Dados do Good Food Institute (GFI) Brasil, é legítimo afirmar que o hype em torno desse mercado perdeu força. O boom de 2018, marcado pela entrada de muitas empresas, pela proliferação de startups, por projeções otimistas e por ampla exposição na mídia, deu lugar, de algum tempo para cá, a um período mais sóbrio. “Isso é normal, é o que chamamos de momento de acomodação”, diz Lupetti. “Quando olhamos de perto, dá a impressão de que as pessoas perderam o interesse, mas é uma adequação natural do mercado.”

Essa visão é compartilhada pela líder de Marketing Estratégico para Food Manufacturing da Cargill, Ludmila Roseiro, que vê o mercado de alimentos plant-based em uma fase de correção de rota. “Existem vários sinais de tendências nesse sentido, e a Cargill lê esse cenário como a normalização de um mercado que saiu do momento hype”, afirma. Segundo Roseiro, a companhia olha para esse segmento com visão de longo prazo e enxerga que a demanda global de proteína como um todo, animal e alternativa, continuará crescendo “e exigirá múltiplas fontes”.

A Cargill atua no mercado de plant-based fornecendo ingredientes texturizados, emulsificantes, acidulantes, óleos e gorduras para a formulação de diversos alimentos alternativos a carnes, queijos e bebidas vegetais. A produção nacional é concentrada em Sorocaba, no interior de São Paulo, e voltada para ingredientes como pectina. Nos Estados Unidos e países da Europa e da Ásia, o foco está nas parcerias inovadoras com startups.
Na Europa, o segmento também perdeu fôlego em parte do continente. Segundo o Good Food

Camila Lupetti, especialista de Dados do GFI: “O que existe é uma adequação natural do mercado”
No Brasil, a perspectiva é de expansão, porque há espaço para a convivência entre diferentes fontes de proteína

Institute (GFI) Europe, na comparação entre 2023 e 2024, a Holanda registrou queda de 5,9% no valor das vendas e de 4,4% em volume. No Reino Unido, as vendas recuaram 4,1% em valor e 3,2% em volume. Esse movimento, porém, não é homogêneo: em países como França, Alemanha, Itália e Espanha, os alimentos plant-based seguem em alta. Um dos motores do avanço tem sido o crescimento das marcas próprias das grandes redes varejistas, geralmente mais acessíveis, com destaque para as bebidas, sobretudo as alternativas ao leite.

Segundo a consultoria Mordor Intelligence, a perspectiva para o mercado europeu de alimentos e bebidas à base de vegetais segue positiva. A estimativa é que o setor some US$ 5,77 bilhões em 2025 e alcance US$ 6,28 bilhões em 2026 – alta de 8,8%. No horizonte mais longo, a projeção é de chegar a US$ 9,56 bilhões em 2031. Para a consultoria, esse avanço é impulsionado pela expansão de dietas flexitarianas e veganas, e pela adoção, na União Europeia, de políticas de sustentabilidade mais rígidas.

O avanço do segmento também é puxado por investimentos de multinacionais para enfrentar dois gargalos clássicos dos alimentos à base de vegetais: sabor e textura, uma barreira que se repete em qualquer mercado. “Nem todo mundo consegue se adequar ao paladar, gostar da experiência sensorial”, afirma Lupetti, do GFI. Ela aponta ainda outros entraves relevantes para a indústria plant-based: “Muita gente não encontra o produto no ponto de venda, já que a distribuição não chega em todo lugar”.

No Brasil, a perspectiva também é de expansão, sobretudo porque há espaço para a convivência entre diferentes fontes de proteína. Lupetti observa que uma parcela relevante dos consumidores quer reduzir a presença de carne vermelha na dieta, e os produtos plant-based podem preencher parte desse movimento. “Mas não dá para falar em uma substituição”, ressalta. Roseiro concorda e amplia o diagnóstico: no Brasil e em outros países emergentes, o mercado de alimentos à base de vegetais cresce ao mesmo tempo em que o consumo de proteína animal segue elevado. “Vemos espaço para crescimento nas duas frentes”, afirma.

O mercado plant-based abre oportunidades para o agronegócio brasileiro, porque as matérias-primas têm origem nas lavouras
Ludmila Roseiro, da Cargill: “A demanda de proteína animal e alternativa continuará em alta”

A executiva da Cargill assegura que a expectativa da empresa em relação à demanda por produtos plant-based é de crescimento estrutural, mas com o consumidor bem mais exigente em relação a saudabilidade, naturalidade, funcionalidade e preço acessível. Segundo ela, esse movimento faz parte de uma mudança mais ampla, sob o conceito de comer menos por impulso e mais para viver bem por mais tempo. Nesse cenário, a proteína, incluindo a vegetal, tem uma importância maior dentro de dietas cada vez mais personalizadas.

Embora essas linhas ainda representem um volume pequeno em comparação com outras categorias, a Cargill vem fazendo investimentos globais em parcerias e startups. “O desenvolvimento comercial ganhou tração com produtos como gorduras inovadoras, impulsionado pela demanda flexitariana e por sustentabilidade, com crescimento da comercialização de ingredientes B2B para soluções para hambúrgueres, queijos veganos e bebidas UHT”, diz Roseiro.

O avanço das proteínas alternativas abre espaço também para setores que orbitam a indústria de alimentos. A JBT Marel, fornecedora de soluções para diferentes segmentos industriais, tem ampliado sua aposta nesse mercado. A lógica é direta: a expertise acumulada no processamento de proteína animal pode ser aplicada na produção de alimentos à base de plantas para aproximar sabor, textura e aparência do produto convencional.

Para William Neiva, gerente de Vendas da Indústria da companhia, o segmento de bebidas tem avançado mais rapidamente do que os análogos de carne. “Mas ainda vejo o mercado de carne de maneira bem positiva. Temos grandes projetos no Brasil, só não posso falar a respeito ainda, por uma questão de confidencialidade”, diz. Na visão do executivo, a consolidação deve ficar mais nítida no médio prazo. “Nos próximos cinco ou dez anos, esse mercado deve se consolidar melhor. A questão da sustentabilidade estará muito na pauta, assim como vem acontecendo em relação aos carros elétricos, que estão ganhando espaço. Neiva é adepto do conceito de complementariedade entre os setores de proteína, colocando como prioridade o propósito de poder alimentar muito mais gente. “Não se trata de uma disputa entre as proteínas”, diz.

William Neiva, da JBT: “A questão da sustentabilidade seguirá na pauta ainda por muitos anos”

“Precisamos nos unir para alimentar mais pessoas.”
Esse cenário também abre oportunidades para o agronegócio brasileiro. A maior parte das matérias-primas usadas nos plant-based vem das lavouras – e poucos países têm a escala do Brasil. “O Brasil é um gigante agrícola, principal produtor global de soja, há grandes oportunidades”, afirma Lupetti. Ela ressalta que, desde a criação do GFI, a abordagem nunca foi de substituição. “Não é uma coisa ou outra. Vemos o agro como parceiro, porque é o fornecedor de matéria-prima e ingredientes. Quanto mais cedo entrar nesse mercado, mais tem a ganhar.”
Paralelamente ao crescimento dos alimentos à base de vegetais e de outras proteínas alternativas, ganha força uma disputa menos tecnológica e mais simbólica: a da nomenclatura.

A utilização de termos como “carne” e “leite” em produtos vegetais é alvo de questionamentos, sob o argumento de proteger as cadeias de proteína animal e evitar que o consumidor seja induzido ao erro. Já para os produtores de plant-based, restringir esses nomes pode criar um obstáculo desnecessário na comunicação – e, na prática, dificultar a compra. “É difícil explicar um hambúrguer sem falar que é hambúrguer”, afirma Lupetti.

Desde que o Ministério da Agricultura e Pecuária abriu uma consulta pública sobre o tema, o termo “análogo” passou a ganhar força como alternativa para rotular os alimentos à base de plantas, como “bebida vegetal análoga ao leite” ou “produto análogo à carne bovina”. Independentemente de como a regulamentação venha a evoluir, há um ponto de convergência: a indústria de alimentos, como um todo, precisa ser transparente e informar com clareza o que o consumidor está comprando, incluindo composição nutricional, origem e processo de fabricação. Isso exige também cuidado com a apresentação e com as embalagens, para evitar confusão no ponto de venda, seja quando uma bebida de castanhas adota visual muito semelhante ao do leite de vaca, seja quando um produto lácteo fermentado se aproxima demais, no formato, do iogurte tradicional.

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