A Europa abre a porteira

Acordo entre Mercosul e União Europeia reduz barreiras comerciais, mas também eleva o padrão de exigência para o agronegócio brasileiro
Edição: 55
24 de agosto de 2026

Amauri Segalla e Rômulo Carneiro

Durante mais de duas décadas, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia parecia condenado a permanecer nas mesas de negociação. Desde que as conversas começaram, em 1999, passaram-se diferentes governos, crises financeiras, mudanças no cenário geopolítico, uma pandemia, uma guerra na Europa e até uma profunda transformação na agenda ambiental global. Ainda assim, o tratado permanecia travado, cercado por resistências políticas e econômicas dos dois lados do Atlântico. A situação mudou neste ano. Com o início da aplicação provisória do acordo, o agronegócio brasileiro passa a disputar espaço em um dos mercados mais sofisticados do mundo sob regras completamente diferentes das que moldaram seu crescimento nos últimos anos. O acesso preferencial à União Europeia representa, sem dúvida, uma oportunidade comercial relevante, mas seu principal efeito talvez seja outro: obrigar o setor a incorporar sustentabilidade, rastreabilidade e transparência como atributos econômicos capazes de agregar valor às exportações.

Em um cenário internacional marcado pelo avanço do protecionismo, pela reorganização das cadeias globais de suprimentos e pela crescente preocupação com segurança alimentar e transição energética, o tratado entre Mercosul e União Europeia surge como um dos maiores acordos comerciais já firmados no mundo. Juntos, os dois blocos representam um mercado de aproximadamente 780 milhões de consumidores e movimentam uma economia superior a US$ 20 trilhões. A própria Comissão Europeia estima que o acordo eliminará gradualmente tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral, reduzindo custos para exportadores e ampliando o fluxo de investimentos entre os dois continentes. Para a Europa, trata-se de diversificar fornecedores em um ambiente internacional cada vez mais instável. Para o Brasil, significa acessar consumidores dispostos a pagar mais por produtos que atendam aos mais elevados padrões sanitários e ambientais.

Franceses protestam contra o acordo: agricultores temem a concorrência com os alimentos produzidos na América do Sul

É justamente aí que reside a principal mudança. Durante décadas, o agronegócio brasileiro construiu sua competitividade sobre três pilares bastante conhecidos: disponibilidade de terra, ganhos extraordinários de produtividade e capacidade de produzir alimentos em larga escala a custos relativamente baixos. Esse modelo transformou o País em um dos maiores exportadores mundiais de soja, carnes, açúcar, café, celulose e milho. A União Europeia, porém, introduz uma variável que ganha importância crescente no comércio internacional: confiança. O consumidor europeu quer saber não apenas o que está comprando, mas também onde foi produzido, quais práticas ambientais foram adotadas, se houve respeito à legislação trabalhista, quais áreas foram preservadas e de que maneira toda aquela cadeia produtiva pode ser auditada. Em outras palavras: a mercadoria passa a incorporar informação.

Essa transformação explica por que diversos especialistas afirmam que o acordo não deve ser medido apenas pelo aumento das exportações. “O grande ganho está na qualidade do acesso ao mercado europeu, muito mais do que no aumento de volumes”, afirma Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global. Para ele, a União Europeia representa um destino estratégico justamente porque remunera melhor produtos de maior valor agregado e estimula investimentos em certificação, inovação e conformidade ambiental. Os números ajudam a dimensionar essa oportunidade. Em 2025, o intercâmbio comercial entre Mercosul e União Europeia movimentou cerca de 111 bilhões de euros. Apenas o agronegócio brasileiro respondeu por aproximadamente US$ 25 bilhões em exportações para o bloco europeu, consolidando a região como um dos principais destinos dos produtos nacionais. Boa parte dessas vendas, contudo, ainda enfrentava tarifas capazes de reduzir a competitividade brasileira. Com o acordo, 93% das exportações do Mercosul terão suas tarifas eliminadas ao longo do período de implementação, enquanto outros produtos passarão a operar dentro de cotas preferenciais negociadas entre os dois blocos. Trata-se da maior redução tarifária já obtida pelo Mercosul em um acordo comercial.

Os maiores beneficiados pertencem justamente aos segmentos em que o Brasil construiu liderança mundial. Na carne bovina, um dos temas mais sensíveis das negociações, o acordo estabelece uma cota anual de 99 mil toneladas, sujeita à tarifa reduzida de 7,5%. Para a carne de aves, foram negociadas 180 mil toneladas livres de imposto de importação. A carne suína passa a contar com uma cota de 25 mil toneladas, também em condições tarifárias favorecidas. No açúcar, o tratado elimina a tarifa incidente sobre a cota de 180 mil toneladas de açúcar bruto destinado ao refino, já existente nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Já o etanol terá acesso preferencial por meio de uma cota total de 650 mil toneladas, sendo 450 mil toneladas destinadas ao uso industrial, com tarifa zero, e 200 mil toneladas para outros usos, inclusive combustível, com tarifa reduzida. Embora esses volumes representem apenas uma parcela da produção brasileira, seu impacto econômico tende a ser expressivo porque ampliam o acesso a um mercado que remunera melhor produtos de maior valor agregado.

Oportunidade histórica: juntos, os dois mercados reúnem 780 milhões de consumidores e movimentam US$ 20 trilhões

Enquanto países asiáticos, especialmente a China, concentram grandes compras de commodities, a União Europeia tradicionalmente remunera melhor alimentos diferenciados, certificados e destinados a consumidores de alta renda. Um frigorífico capaz de oferecer carne integralmente rastreada, por exemplo, tende a receber um prêmio superior ao obtido em mercados menos exigentes. O mesmo raciocínio vale para açúcar certificado, café sustentável, etanol de baixa intensidade de carbono e diversos outros produtos agroindustriais. O acordo, portanto, não altera apenas a quantidade potencialmente exportada. Ele modifica a composição da receita das exportações brasileiras.

Essa mudança já começa a produzir reflexos dentro das propriedades rurais e das agroindústrias. Ferramentas como georreferenciamento, imagens de satélite, agricultura de precisão, monitoramento remoto, inteligência artificial e plataformas digitais de rastreabilidade deixam de representar apenas ganhos de eficiência operacional e passam a cumprir outra função: demonstrar conformidade ambiental. A informação passa a viajar junto com a carga. Cada embarque destinado à Europa tende a carregar não apenas soja, carne, açúcar ou café, mas também um conjunto crescente de dados capazes de comprovar sua origem e sua sustentabilidade. Esse movimento ganhou força com a legislação europeia, que proíbe a entrada de produtos associados ao desmatamento. A chamada EUDR (Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento) estabelece que mercadorias como carne bovina, soja, café, cacau, madeira e borracha só poderão ingressar no mercado europeu se houver comprovação de que não foram produzidas em áreas desmatadas. A exigência não recai apenas sobre produtores rurais. Ela envolve cooperativas, tradings, frigoríficos, processadores e importadores, criando uma cadeia de responsabilidade compartilhada que exige investimentos crescentes em tecnologia, governança e sistemas de monitoramento.

A União Europeia remunera melhor alimentos certificados, o que tende a impulsionar investimentos em sustentabilidade

Se o acordo abre novas portas, ele também aumenta a responsabilidade do agronegócio brasileiro. Ao contrário do que ocorreu em outras etapas da inserção internacional do País, quando bastava produzir mais para conquistar mercado, agora o desafio passa a ser produzir melhor e comprovar isso. A rastreabilidade deixa de ser um diferencial para se tornar requisito básico de acesso ao consumidor europeu. A tendência é que essa exigência extrapole as grandes empresas exportadoras e alcance cooperativas, médios produtores e até pequenas propriedades integradas às cadeias globais. O investimento em tecnologia, portanto, passa a ser visto menos como um custo e mais como uma condição para permanecer competitivo.

Na avaliação do conselheiro de Comércio da Delegação da União Europeia no Brasil, Damian Vicente Lluna, esse movimento representa uma oportunidade para reposicionar a imagem do agro brasileiro no exterior. “O consumidor europeu valoriza cada vez mais a origem e as condições de produção”, diz. “A capacidade de demonstrar esses atributos será fundamental para acessar e ampliar espaço nesse mercado.” Segundo ele, investimentos em rastreabilidade, transparência e certificações podem fortalecer a confiança nos produtos brasileiros e ampliar sua competitividade em um ambiente comercial cada vez mais orientado por critérios ambientais.

Essa talvez seja a maior mudança provocada pelo tratado. Durante muito tempo, a competitividade brasileira foi construída quase exclusivamente dentro da porteira, graças aos avanços da pesquisa agropecuária, da mecanização e da expansão da produtividade. A nova etapa desloca parte dessa disputa para fora da fazenda. A capacidade de documentar processos, integrar informações, atender protocolos internacionais e demonstrar conformidade passa a influenciar diretamente o preço recebido pelo produtor. Em um mercado de alta renda como o europeu, reputação tornou-se um ativo econômico.

Há ainda outro aspecto importante. O tratado pode funcionar como um estímulo para acelerar investimentos. Em vez de ampliar exclusivamente as exportações de commodities, cresce o espaço para produtos processados, alimentos premium, biocombustíveis, ingredientes industriais e especialidades agroalimentares. Esse movimento é relevante em cadeias como açúcar e etanol, nas quais o Brasil reúne vantagens competitivas tanto em escala quanto em eficiência ambiental. O avanço dos combustíveis renováveis, impulsionado pelas metas globais de descarbonização, reforça esse cenário e amplia o potencial de inserção internacional da indústria brasileira. Entre tarifas zeradas e cotas ampliadas, o verdadeiro produto exportado agora é confiança.

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