A cura pela inovação

Por trás de boa parte das novidades tecnológicas que chegam ao campo estão desafios enfrentados diariamente pelos produtores. Compreender essas dores é o ponto de partida para criar respostas eficientes para o setor
Edição: 55
8 de setembro de 2026

Por Romualdo Venâncio

No ano passado, foram identificadas no Brasil 2.075 agtechs ativas. A informação é do Radar Agtech Brasil, levantamento realizado pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens. Esse número supera em 84% as 1.125 agtechs registradas na primeira edição do estudo, realizada em 2019. Já na comparação entre 2025 e 2024, o avanço foi de 5%, índice menos expressivo do que nos anos anteriores. Para os autores da pesquisa, a desaceleração reflete a maior maturidade do ecossistema e a consolidação dos modelos de negócio. Ou seja, o próprio ambiente de inovação no campo se renova.

O ponto de partida dessa efervescência tecnológica é a pressão das “dores” das cadeias agropecuárias, ou seja, as demandas do setor, especialmente dos produtores. A inovação que elimina ou ameniza essas dores pode surgir na forma de produtos, serviços, métodos ou conceitos. Tudo depende da necessidade, da abrangência e da urgência. Embora esse cenário seja anterior ao surgimento das agtechs, é inegável que essas empresas trouxeram mais agilidade ao desenvolvimento de novas soluções, tanto que muitas delas acabaram incorporadas por grandes agroindústrias.

De acordo com a especialista em inovação para o agro Juliana Chini, as dores do setor se enquadram basicamente em quatro segmentos: crédito, que impacta todos os elos das cadeias produtivas; gestão de riscos, que envolve os efeitos do xadrez geopolítico na definição de novas rotas de exportação, no abastecimento de fertilizantes e até na abertura de espaço para o avanço dos bioinsumos; eficiência operacional, que exige mais assertividade para reduzir custos; e resiliência climática. “Este último enfrenta maior resistência do mercado, porque o retorno demora um pouco mais”, afirma Juliana.

A especialista avalia que o medo das novidades, ou neofobia, continua sendo um obstáculo. “Muita gente ainda resiste às inovações com base na teoria de que sempre foi assim, de que sempre fez assim”, diz Juliana, que reforça a importância da educação para romper essa barreira. A modernização também passa pela comunicação, já que o perfil dos produtores é muito diverso, assim como as culturas e as características regionais que as cercam.

Outra frente a ser explorada é a escala. “Você pode lançar um aplicativo financeiro hoje e amanhã ter milhões de clientes. No agro, é diferente, por se tratar de uma indústria a céu aberto”, diz Juliana. Tudo depende de cada safra, de quem está à frente da operação no campo, da infraestrutura disponível e das ferramentas utilizadas, como conectividade e softwares adequados. São muitas variáveis que dificultam o planejamento. “Ao pensar que agro eu quero em 2040, preciso saber como envolver todos os agentes para elaborar um plano que inclua todas as dores”, acrescenta a especialista. A maior integração entre a iniciativa pública e a privada é um bom começo.

A necessidade de olhar anos à frente é reforçada pelo diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação para a América Latina da Basf, Marcelo Maniero Ismael. Segundo o executivo, a empresa investe cerca de 300 milhões de euros para desenvolver uma nova molécula química, processo que pode levar até dez anos de pesquisa. “Será que a praga que estamos em questão hoje será tão relevante quando a solução ficar pronta?”, questiona. Em uma agricultura tropical, a luminosidade e as condições de calor e umidade favorecem tanto as plantas quanto as pragas. “É bonito falar de inovação, é inspirador, mas também há muito suor por trás disso.”

As dores do agro estão em quatro áreas: crédito, gestão de riscos, eficiência operacional e resposta aos desafios do clima

O tempo é determinante no processo de evolução tecnológica, sobretudo pela frequente diferença entre o prazo necessário para desenvolver soluções e a urgência do produtor. Por isso, Ismael destaca a distinção entre inovação e invenção. Segundo o diretor da Basf, a primeira é uma novidade com benefício prático para a cadeia produtiva. “Já a invenção não precisa necessariamente ter esse resultado”, diz. Compreender essa diferença evita apostas precipitadas em supostas soluções que não garantem o resultado esperado.

Muita coisa fica pelo caminho entre a ideia e a inovação. Segundo Ismael, cada produto comercial que chega ao mercado partiu de um universo de aproximadamente 100 mil candidatos. “Acaba tendo mais erro do que acerto. Porém, quanto mais eu testar, maior a chance de chegar ao resultado”, diz o executivo, acrescentando que não é fácil tomar a decisão de interromper uma pesquisa. “O que não saiu como esperado torna-se uma informação importante para mudar o caminho e direcionar novas pesquisas.”

O diretor de Marketing Estratégico e Tecnologia da Cargill Nutrição e Saúde Animal, Marcelo Dalmagro, reforça essa ideia. “O princípio básico da inovação é que você vai errar, pois parte da incerteza. Está criando algo que não existe”, afirma. A inovação é um posicionamento estratégico e uma meta de negócio da empresa, a ponto de terem criado o Innovation EBITDA, resultado financeiro proveniente das novidades tecnológicas que corresponde a pelo menos um terço do desempenho total da companhia.

O planejamento sempre contempla os quatro anos seguintes, com revisões anuais para verificar se a direção está correta. A segurança nessa trajetória também vem da sólida base de inteligência de mercado, que dá origem às análises de tendências, e da equipe de profissionais especializados. “As áreas de inovação, marketing e estratégia seguem o mesmo objetivo, dessa forma há engajamento de todos tanto em desenvolver quanto em comunicar, vender e realizar o pós-venda”, diz o executivo.

A inovação contribui ainda para a sustentabilidade. No caso da pecuária de corte, um dos principais mercados de atuação da Cargill Nutrição e Saúde Animal, melhorias no manejo das pastagens e do rebanho, de forma geral, reduzem, em alguns casos, até pela metade o ciclo produtivo dos bovinos. “Isso significa menos tempo no campo, menos emissões e redução no uso da terra. Automaticamente, agrega sustentabilidade ambiental para a atividade”, diz Dalmagro.

O espaço para evolução tecnológica no agro é enorme. A Belgo Arames, por exemplo, desenvolve produtos específicos para diferentes segmentos agropecuários. Há opções de arames mais resistentes à umidade, voltados para regiões com alto risco de alagamento, e apropriados para a contenção de javaporcos e até onças. A inovação também passa pela orientação técnica. A empresa desenvolveu um e-book sobre cercas, um guia prático e gratuito para transmitir informações que costumavam ser passadas de pai para filho. “A função de cerqueiro era ensinada de uma geração para outra, mas essa história mudou e o e-book foi uma iniciativa para continuar a transmissão desse conhecimento”, diz o gerente de Negócios Agro da Belgo Arames, Bruno Nolasco.

Segundo especialistas, em poucos setores o espaço para a evolução tecnológica é tão grande quanto no agronegócio

Por mais condições e recursos que uma empresa tenha para inovar, em muitos casos vale a pena contar com companhia nessa trajetória. A própria Belgo Arames tornou-se sócia- investidora da Instabov para ampliar sua atuação no manejo da pecuária de corte. Essa parceria foi essencial para promover melhorias na tecnologia de controle do gado por meio de um sistema de monitoramento composto por uma antena com GPS e brincos eletrônicos capazes de armazenar diversas informações. Os dispositivos contam até com um acelerômetro que acompanha a movimentação do animal e indica qualquer mudança de padrão em suas atividades.

A antena é um dispositivo plug and play de fácil instalação, alimentado por energia solar. Seu alcance é de 1.000 hectares. O sistema oferece praticidade, otimiza o tempo de manejo dentro da propriedade e facilita a prova de vida dos animais exigida nos trâmites para obtenção de crédito rural. Outro ponto favorável é a segurança do rebanho e da propriedade, dor que deu origem à inovação. “Eu sofria com perda de animais. Hoje, a identificação na propriedade sobre esse monitoramento afasta quem pretende roubar animais. Já conseguimos até mesmo pegar um roubo em tempo real”, afirma o CEO e fundador da Instabov, Fernando Moraes.

A facilidade de uso é outra característica importante nas inovações tecnológicas. Mesmo quando a função é resolver dores complexas, a solução não deve dificultar a rotina de trabalho. Essa é uma das preocupações da PTx Trimble, empresa especializada em agricultura de precisão. “Apesar de a solução ser extremamente inovadora, tecnológica, tem de ser simples”, diz a responsável por Marketing de Produto da companhia, Rosieli Mika. Também precisa ser acessível. “O produtor brasileiro já trabalha estrangulado quanto ao rendimento financeiro.”

A inovação funciona como um antídoto contra crises, oferecendo novos caminhos e oportunidades para as empresas do setor

A executiva acrescenta que é essencial considerar as características do setor e o perfil do cliente ao desenvolver soluções para o campo. Nesse caso, Rosieli refere-se à novidade apresentada na Agrishow 2026, em Ribeirão Preto (SP): um kit tecnológico para transformar um trator convencional em autônomo. A solução está disponível para a Fendt, marca “irmã” da PTx Trimble, e para um modelo específico da John Deere. “Às vezes o produtor tem preferência pelo trator de um determinado fabricante, mas opta pela colheitadeira de outro”, afirma Rosieli, reforçando a preocupação com soluções multimarcas. As pesquisas para atender modelos e marcas diferentes começam pela demanda do cliente final. Em seguida, entram as relações com as montadoras.

Na prática, o sistema de autonomia é instalado na máquina e operado por meio de um aplicativo em um tablet, no qual é definida toda a programação da operação do veículo. Ali são inseridas informações como percurso, manobras e velocidade máxima da máquina. Toda a inteligência do aparato visa à otimização e à segurança de cada ação. A conectividade já faz parte do pacote, o que evita outro importante desafio da expansão tecnológica no agro: a disponibilidade e o alcance do sinal de internet.

Rosieli avalia que a inovação é fundamental para que os agricultores continuem encontrando oportunidades de aumentar a eficiência de suas operações no campo, apesar do cenário desafiador enfrentado atualmente pelo agronegócio. Em sua opinião, é justamente a tecnologia que pode suavizar a travessia de crises econômicas e de abastecimento de insumos. “Costumo perguntar aos agricultores se pretendem deixar de plantar no ano seguinte ou até abandonar a atividade. A resposta é sempre negativa. Então, se é um negócio contínuo, quanto antes investir em tecnologia, mais cedo vai usufruir de seus benefícios”, conclui.

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