Por André Sollitto

Assim que a caminhonete entra na terra, é necessário ligar a tração nas quatro rodas. Os buracos na via indicam que, em alguns momentos, os pneus podem perder o contato com o solo. Mais adiante, é preciso passar por uma parede inclinada em quase 30 graus, suficientes para que o solo fique assustadoramente perto da janela do motorista. Outro trecho está alagado, e a picape mergulha com água na altura da porta. No fim do trajeto, uma subida tão íngreme que, lá do alto, é impossível ver o que está diante do capô. É preciso recorrer às câmeras do veículo para ter certeza sobre o terreno adiante.
O cenário é uma pista de testes feita para avaliar as capacidades de novos lançamentos, mas poderia fazer parte do dia a dia de qualquer produtor rural. Hoje, quem visita as principais feiras do agronegócio espalhadas pelo País percebe uma importante mudança. Em meio aos grandes maquinários agrícolas, é comum encontrar novos estandes de fabricantes de automóveis, com obstáculos montados para comprovar as capacidades de seus veículos. E também para mostrar o conforto a bordo. Se antes as picapes eram escolhidas puramente por sua funcionalidade, agora viraram objeto de desejo no campo e fora dele. E as montadoras estão atentas a essas demandas crescentes.
Nem sempre foi assim. Por muito tempo, as picapes não tinham tanto prestígio no mercado automotivo. Eram carros utilitários, sem grandes pretensões. O segmento era tímido. Havia os modelos compactos, voltados para o trabalho diário no campo ou na cidade, como a Strada, da Fiat; a Montana, da Chevrolet; e a Saveiro, da Volkswagen. Quem queria mais robustez podia optar pelos modelos médios, como a popular Hilux, da Toyota; a S10, da Chevrolet; e a Ranger, da Ford – esta última já mostrando sinais da durabilidade que a consagraria no mercado brasileiro.


Com o tempo, outros rivais apareceram. É o caso da L200 Triton, da Mitsubishi; a Amarok, da Volks; e a Frontier, da Nissan. Mas ainda eram veículos mais rústicos, sem algumas das funcionalidades e confortos oferecidos em carros de passeio. Ainda assim, cativaram quem trabalhava no campo pela robustez incomparável. A Ford, especialmente com a Ranger, conquistou uma reputação sólida nesse período, tornando-se referência em resistência e confiabilidade.
Hoje, a situação é completamente diferente. O segmento das picapes está mais aquecido do que nunca, a começar pela quantidade de ofertas disponíveis. Há as compactas e as médias, já conhecidas pelo consumidor brasileiro. Mas há um segmento mais recente, o das intermediárias, criado pela Toro, da Fiat, e que hoje conta com outros modelos, como a Rampage, da Ram; e a Maverick, da Ford, que trouxe inovação ao unir praticidade urbana e capacidade off-road.
O mercado ganhou também um reforço no topo, com as caminhonetes grandes, ou full size, como são chamadas nos Estados Unidos. Por alguns anos, a Ram (que se separou da Dodge em 2009) dominava o segmento, com suas 1500, 2500 e 3500. Mas a GM trouxe a Silverado e a Ford chegou com a F-150, o modelo mais vendido nos Estados Unidos em toda a história. São veículos enormes, com mais de 6 metros de comprimento, e preços na casa de meio milhão de reais. São capazes de encarar a lida no campo, mas tornaram-se também um indicativo de status e poder.
Na lista com os 50 modelos mais vendidos no ano passado, realizada pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), há oito picapes, duas delas, Strada e Saveiro, no top 10. No total, as caminhonetes representam impressionantes 19% de todo o mercado automotivo brasileiro – e esse número não para de crescer.
Prova dessa transformação é a quantidade de lançamentos que devem chegar ao mercado nos próximos meses. Alguns já haviam sido antecipados no retorno do Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, realizado no final de 2025, após um hiato de oito anos. Outros começam a despontar como grandes promessas do calendário das montadoras para 2026.
Uma das novidades é a chegada da Dakota, picape média da norte-americana Ram. Ela vem para preencher uma lacuna no portfólio da empresa, que tinha versões grandes e a intermediária Rampage. “Sempre quisemos ter uma picape média no portfólio, não apenas porque o setor é importante em volume e rentabilidade, mas porque é um consumidor muito fiel”, afirma Juliano Machado, head da marca Ram na América Latina. Ao resgatar o nome de um antigo modelo, Dodge Dakota – do tempo em que Dodge e Ram eram uma única marca –, a empresa espera cativar o público de um setor dominado pela Toyota Hilux.


Mas há muitas outras apostas das marcas para capturar o potencial do mercado agro. A Volkswagen já anunciou a chegada da nova geração da Amarok, baseada na Maxus T90 da chinesa SAIC, e a Hilux também deve chegar em nova versão, inspirada na Tacoma, caminhonete da marca japonesa vendida nos Estados Unidos. A Renault apresentou a Niagara no Salão do Automóvel, e a Kia mostrou a Tasman, dois modelos que foram confirmados para o mercado brasileiro ainda em 2026. A Toro, da Fiat, líder no segmento das caminhonetes intermediárias, deve ganhar uma versão híbrida leve (em que há um pequeno motor elétrico que auxilia na condução, mas não move o carro sozinho, reduzindo as emissões e melhorando o consumo de combustível). O sistema já equipa outros carros do grupo Stellantis.
Isso sem falar nas montadoras chinesas, que devem avançar com força no setor das caminhonetes. O começo foi pouco auspicioso. A chegada da híbrida Shark, da BYD, foi recebida com pouco entusiasmo pelo mercado, e o modelo acabou encalhando. Foram apenas 921 unidades emplacadas entre janeiro e outubro de 2025, segundo dados da Fenabrave. Mas a GWM colocou no mercado a Poer P30, com motorização a diesel, que é hoje montada na fábrica da empresa em Iracemápolis, no interior de São Paulo. A Foton, mais conhecida por vender caminhões, trouxe duas picapes a diesel, Tunland, V7 e V9, ambas com motor a diesel e um sistema híbrido leve. A Chery, por meio da sócia Caoa, deve trazer a média Himla. E a própria BYD já anunciou que vai oferecer uma caminhonete baseada no Song Pro, e quer oferecer também uma versão compacta para rivalizar com Strada e Saveiro.

O interesse de fabricantes pelo mercado de caminhonetes e, consequentemente, do cliente do agronegócio não é à toa. “Aproveitando a força do agro, as montadoras entenderam que esse grupo compra a despeito do momento econômico, de taxas elevadas de juros, da restrição de crédito e da alta na inadimplência, pois estão comprando ferramentas de trabalho”, afirma o consultor automotivo Milad Kalume Neto, da K.Lume. “Além disso, as empresas estão atuando com uma comunicação ativa e estratégica junto a esse público, indicando elementos essenciais de aftermarket”, complementa.
O cliente do campo é ótimo consumidor, ligado à tecnologia e preocupado com sustentabilidade. O grande desafio é cativar esse público, que precisa confiar que o produto em questão será capaz de encarar as operações do campo. É por isso que marcas como Toyota, com sua Hilux, e Ford, com a Ranger, estão mais estabelecidas. São modelos que estão no mercado há muito tempo e já provaram ser robustas para superar o pesado trabalho no campo. “Em primeiro lugar, o consumidor quer confiança, e isso se conquista com tempo”, afirma o consultor Cássio Pagliarini, da Bright Consulting. “O conforto e a capacidade de uso urbano e rural são características importantes nesse segmento, principalmente para os que se movimentam entre os dois ambientes”, acrescenta Kalume Neto.


Na disputa pelo bolso do consumidor, as fabricantes passaram a oferecer um pacote cada vez mais robusto de tecnologias. São assistências ao motorista e soluções de conectividade que antes eram restritas aos SUVs, os utilitários que dominaram o mercado como sinal de sofisticação. A maior parte dos lançamentos já chega ao mercado com câmeras 360º (ou 540º, como os fabricantes se referem à capacidades de mostrar o veículo de cima, em uma imagem 3D aérea), sensores de ponto cego, assistentes de permanência em faixa e outras comodidades que se tornaram quase obrigatórias nos novos utilitários, mas nem sempre faziam parte da realidade das caminhonetes.
Em um cenário em que tração nas quatro rodas e capacidade de carga são praticamente obrigatórias, esse pacote de tecnologias, incluindo grandes centrais multimídia totalmente digitais, acaba fazendo a diferença. O acabamento das cabines também mudou significativamente – e a influência dos chineses nessa transformação foi fundamental. A popularização dos modelos vindos da China mostrou que os clientes querem mais atenção aos detalhes, e não só nos modelos mais caros. Dessa forma, o plástico duro tem dado lugar a superfícies macias ao toque e o couro se torna sinônimo de sofisticação. Nos modelos mais caros, especialmente entre as picapes full-size, que representam apenas 1% do mercado, mas têm um valor médio muito superior ao do restante da categoria, há até detalhes em madeira e outros materiais nobres.
O que deve ganhar tração nos próximos meses é o apelo pela sustentabilidade, algo caro ao agronegócio e que ainda é pouco explorado no mercado das caminhonetes. “Está na hora das picapes híbridas”, diz Cássio Pagliarini. “O cliente ainda prefere o diesel, mas ninguém reclamaria de ter uma picape que fosse mais econômica e menos poluente.” A popularização dos carros híbridos nos ambientes urbanos tem ajudado a mudar a percepção sobre esses veículos. São mais econômicos, oferecem autonomia maior e, no caso dos híbridos plug-in, podem rodar tanto com a bateria carregada na tomada quanto com o combustível no tanque.
O dilema está em conciliar a praticidade exigida no campo com a complexidade desses sistemas. Híbridos completos – e, sobretudo, os plug-in – tendem a demandar manutenção mais especializada, muitas vezes concentrada na rede de concessionárias, o que pode ser um entrave em regiões mais afastadas. “Mas vejo como maduro o mercado para híbridos leves ou, dependendo da complexidade do motor, híbridos plenos”, completa Pagliarini.
Já existem lançamentos programados – e a Ford está na linha de frente dessa virada. A montadora acaba de colocar no mercado a nova geração da Maverick, a picape intermediária que foi pioneira entre as híbridas convencionais. Na primeira versão, quem optava pela motorização eletrificada precisava abrir mão da tração nas quatro rodas. Agora, toda a linha – e inclusive a Tremor, mais voltada ao off-road – passa a oferecer tração integral, sinalizando que a eletrificação começa a chegar ao segmento sem comprometer a aptidão para a terra.



Mas o grande trunfo da Ford no horizonte próximo está marcado para 2027, com o lançamento da Ranger híbrida plug-in, que será fabricada em Pacheco, na Argentina. Para produzir o novo modelo, a empresa fará investimentos adicionais de US$ 170 milhões. A planta já havia recebido US$ 700 milhões e passou por uma ampla reformulação entre 2021 e 2025. Hoje, fabrica os novos motores e monta tanto versões de cabine simples, voltadas ao trabalho, quanto de cabine dupla. “A Ranger Híbrida Plug-in será a melhor Ranger já fabricada na região”, disse Martín Galdeano, presidente da Ford América do Sul, em comunicado divulgado no fim de 2025. A expectativa é de que a combinação entre motor a combustão e propulsão elétrica amplie a eficiência sem abrir mão da robustez que transformou a Ranger em uma das referências no mercado brasileiro.
O cruzamento de tecnologias vindas dos carros de passeio urbanos e a influência do agronegócio têm criado um novo fenômeno: a popularização das picapes também como um veículo para uso diário em cidades. Ou seja, a estética do agro ganhou a cidade. Os modelos intermediários, como Toro, Rampage e Maverick, encontraram nesse nicho um mercado fértil. “As picapes sempre representaram a liberdade por atuarem em segmentos que permitem ao usuário trafegar em diferentes ambientes, alterando estilos de vida urbanos e aventureiros ou mesmo trabalho e lazer”, diz Kalume Neto. “A capacidade de ampliar os horizontes de atuação do cliente é cada vez melhor comunicada no segmento.” Para boa parte dos consumidores, o espaço extra da caçamba, como um enorme porta-malas, e a tração nas quatro rodas para aventuras aos finais de semana representam um ideal aspiracional. “Há clientes que podem começar com uma Rampage e subir no nosso portfólio até uma Dakota ou uma 1500, se essa for sua vontade ou necessidade”, afirma Vitor Bohnenberger, diretor de Marketing de Produto da Ram.


O mercado automotivo é dinâmico e muda constantemente. Algumas tendências chegam para ficar – como é o caso dos SUVs, que hoje dominam o mercado e representam mais da metade dos emplacamentos atuais. Outras vêm e vão. Hoje, hatches e sedãs perderam força e estão sendo descontinuados pelas montadoras. As picapes sempre tiveram um espaço importante no mercado, e o público do campo tem se mantido fiel às caminhonetes. A diferença é que hoje elas funcionam cada vez mais como símbolos de força e status.

