Por André Sollitto
Para os uitotos, povo indígena que habita a região noroeste da Amazônia, com forte presença na Colômbia, no Peru e no Brasil, a coca e o tabaco são considerados sagrados. As folhas são usadas em rituais espirituais e medicinais para a comunicação com o divino e representam um dos mitos fundamentais de sua cosmogonia, em que a entidade Buinaima, que pode ser entendida como Deus, concede sabedoria ao povo por meio delas. As duas plantas também aparecem de forma contundente na obra do artista peruano Santiago Yahuarcani, que ganhou sua primeira mostra individual no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). Com curadoria de Amanda Carneiro, Santiago Yahuarcani: o Princípio do Conhecimento reúne 35 obras que propõem uma imersão nos saberes, mitos e traumas uitotos.
Yahuarcani trabalha diretamente com a natureza, de forma conectada às crenças de seu povo. A parte interna das cascas de árvores amazônicas é manuseada e transformada pelo artista em uma tela natural, chamada llanchama, mostrando que a floresta não é uma fonte de recursos ou uma paisagem, mas uma entidade viva, guardiã de conhecimento e história. Para os uitotos, não há fronteira entre o material e o invisível, entre o presente e a ancestralidade. A floresta, os rios e os seres humanos, assim como as existências espirituais e físicas, coexistem e não se separam da vida cotidiana. A cosmologia uitoto é um tema central de suas obras, mas não é o único. Por causa de sua conexão com a natureza, ele usa a arte como plataforma de denúncia, especialmente contra a violência sofrida pelos indígenas durante o ciclo da borracha. “Yahuarcani usa a pintura como um meio de honrar sua ancestralidade e denunciar injustiças históricas”, afirma a curadora, Amanda Carneiro. A exposição é organizada em cinco núcleos – Pintura de sons, Tempo do choro de sangue, Mundos espirituais, Plantas sagradas e Guardiões da Amazônia – e fica em cartaz no museu até agosto.



A discussão sobre arte, memória e território também está presente em outra exposição em cartaz no Masp. Trata-se de Claudia Alarcón & Silät: Viver Tecendo, que reúne 25 trabalhos artísticos da argentina Claudia Alarcón & Silät, coletivo formado por mais de cem tecedeiras do povo wichí, que habita o norte da Argentina e parte da Bolívia. As obras são feitas com fios de chaguar, uma bromélia de fibras resilientes nativa do clima semiárido do Gran Chaco, o maior bioma da América Latina depois da Amazônia. Os fios são entrelaçados manualmente, sem teares, e usados na fabricação de bolsas yicas, que tradicionalmente têm formato quadrado, com padrões geométricos que representam a flora e a fauna de seu território, remetendo a temas como orelhas de tatu, olhos de coruja e cascos de tartaruga. Alarcón e o grupo Silät inovaram essa produção ao incorporar novas cores ao processo e desenvolver técnicas que permitem que várias mulheres trabalhem simultaneamente. São peças que retratam a conexão entre o saber manual e artístico e o meio ambiente do Gran Chaco. A matéria-prima da região é transformada pela mão humana em objetos de valor estético e utilitário.
As duas exposições, além de outras que compõem a agenda da instituição, fazem parte do ciclo Histórias Latino-Americanas, que dita os rumos da curadoria do museu ao longo de todo o ano de 2026 e parte de 2027. “A referência à diversidade, à inclusão e à pluralidade é a base de toda a nossa programação, que sempre gira em torno de diferentes conjuntos históricos”, disse Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, ao autor András Szántó no livro O Futuro do Museu: 28 Diálogos. “Todo ano, dedicamos toda a nossa programação a um eixo temático, articulando todas as exposições, publicações e os programas públicos”, completou. Desde que Pedrosa assumiu a direção artística, já foram apresentadas as Histórias da Infância (2016), Histórias da Sexualidade (2017), Histórias Afro-Atlânticas (2018) e Histórias das Mulheres (2019). Em 2020, seria apresentado o ciclo Histórias da Dança, mas a pandemia prejudicou os planos. Em seguida, vieram Histórias Brasileiras (2022), Histórias Indígenas (2023), Histórias da Diversidade (2024) e Histórias da Ecologia (2025).
Outra mostra que ocupa parte do espaço expositivo do Masp é Matéria e Energia, do mexicano Damián Ortega, figura central da arte contemporânea mexicana. São 35 obras em que o artista desmonta objetos cotidianos para discutir questões como trabalho, consumo, tempo e linguagem. Pela primeira vez, é apresentado o trabalho Cosmic Thing (Coisa cósmica), de 2002, que consiste em um fusca completamente desmontado, suspenso como se suas peças flutuassem. Carro mais popular do Brasil e do México durante muitos anos, o fusca é usado como símbolo para refletir sobre as camadas de sentido que o automóvel carrega, como promessas de modernização, expectativas de ascensão social, memórias afetivas e até questões de mobilidade nas grandes metrópoles. Instalações, esculturas, fotografias e vídeos compõem o panorama do trabalho de Ortega.
Além dessas exposições já em cartaz, o ciclo Histórias Latino-Americanas continua até o primeiro semestre de 2027. Entre as mostras confirmadas estão Histórias Latino-Americanas, coletiva internacional que ocupará cinco andares do edifício Pietro Maria Bardi, novo espaço anexo ao Masp, e investigará como a ideia de América Latina foi criada e disputada ao longo do tempo; Casa Maria Lionza, um pavilhão projetado pela artista venezuelana Sol Calero para o vão livre do museu; e Crônicas de Comalapa, da guatemalteca Rosa Elena Curruchich (1958-2005), indígena de origem maya kaqchikel que foi pioneira entre uma geração de mulheres pintoras que retratou a vida cotidiana de seu povo. São diferentes maneiras de compreender as conexões entre os povos e a terra e de perceber como os saberes artísticos revelam tanto sobre a cultura.
