Por André Sollitto
É quase meia-noite quando os barcos começam a sair. Os guias aceleram pelo Rio Paraguai, iluminado apenas pela luz da lua. Depois de algum tempo, a velocidade diminui. O barulho do motor arrefece e o barco é direcionado suavemente para as margens. O olhar treinado identifica de longe os pontos com maior probabilidade de encontrar jacarés. Com uma lanterna, o guia percorre rapidamente as folhas e a beira d’água em busca do reflexo dos olhos. É assim que encontra os animais, camuflados entre a água e a vegetação. Alguns submergem ao perceber a aproximação. Outros parecem indiferentes e deixam o barco chegar a poucos centímetros. Alguns passageiros sentem um frio na barriga, mas os répteis não querem confusão. Logo o barco se afasta em direção à outra margem. Quando termina o período de pesca no Pantanal, começa outro tipo de turismo de natureza – a focagem de jacarés, como é conhecida a prática de observar os répteis em seu habitat natural, é um dos principais atrativos. Em um cenário de crescente interesse pelo turismo no Brasil, o Pantanal desponta como uma região de enorme potencial.
O Brasil entrou de vez na rota dos turistas internacionais. Em 2025, o País registrou crescimento de 37% na entrada de visitantes estrangeiros em relação a 2024 – que já havia sido o melhor ano da história – e fechou o período com o recorde de 9,2 milhões de chegadas internacionais, segundo o Ministério do Turismo. Com esses números, as metas anuais do Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024-2027 têm sido superadas com folga. Os argentinos representam a maior fatia dos visitantes, seguidos pelos chilenos e pelos norte-americanos. Na sequência, aparecem turistas europeus de países como França, Portugal, Alemanha, Itália, Reino Unido e Espanha. Em 2026, a tendência de crescimento se mantém: mais de 2,6 milhões de estrangeiros desembarcaram no Brasil apenas entre janeiro e fevereiro, segundo a Embratur.


Publicações internacionais têm contribuído para estimular esse fluxo. Em 2023, a revista Time elegeu o Pantanal um dos 50 melhores destinos daquele ano. No ano passado, a região foi tema de reportagens em veículos especializados em viagem, incluindo uma recomendação na prestigiosa Condé Nast Traveler, que inseriu o Caiman Pantanal, localizado em Miranda, no Mato Grosso do Sul, em sua lista de Melhores Hotéis e Resorts do Mundo. A nova versão da novela Pantanal, exibida pela Globo em 2022, também ajudou a ampliar o interesse pela região no Brasil e no exterior.
Não faltam belezas naturais e atrações para quem se aventura pelo Pantanal, maior área úmida do planeta, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera. Segundo dados da WWF Brasil, o bioma ocupa 150,4 mil km² – cerca de 2% do território nacional, distribuídos entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul – e abriga 4.700 espécies de plantas e vertebrados.
A experiência começa já nas estradas. A MS-184, parte da Rodovia Parque Pantanal, liga Corumbá, na fronteira com a Bolívia, ao restante do estado. Com 116 quilômetros de extensão, não é asfaltada e ainda é cortada por 74 pontes de madeira, instaladas nos trechos mais críticos. Na época da cheia, elas são indispensáveis para transpor áreas alagadas. No período de seca, compõem um cenário singular.


Os principais atrativos estão ligados ao ecoturismo. Bonito, a cerca de 300 quilômetros de Campo Grande, é um dos destinos mais procurados por quem quer observar a fauna, contemplar as belezas naturais e explorar a transição entre o Pantanal e o Cerrado. A cidade tem boa infraestrutura hoteleira, com hotéis e pousadas para diferentes perfis, e bons restaurantes, como a Casa do João, que serve traíra sem espinhos e ceviche de jacaré, e o Restaurante Juanita, cujo carro-chefe é o pacu na brasa. As melhores atrações, porém, estão nos arredores. O Recanto Ecológico Rio da Prata oferece cozinha pantaneira com a assinatura do chef Paulo Monteiro, uma das principais referências no tema, e atividades como a flutuação no Rio da Prata.
Para desbravar o Rio da Prata, o turista veste roupa de Neoprene e faz um curso rápido sobre o funcionamento do snorkel. A microgoticula a partir de um trecho específico, o grupo segue o guia e desce flutuando, com a cabeça submersa. Os peixes passam ao lado e a água cristalina revela o fundo do rio em detalhes. A experiência é tão disputada que os grupos costumam esgotar com antecedência. Para os mais aventureiros, há safáris que percorrem áreas de grande atividade da fauna local. A bordo de veículos abertos, os turistas têm a chance de observar tamanduás, antas e, com sorte, uma onça-pintada, o maior predador da região. O Caiman, por exemplo, oferece esse tipo de passeio, além de hospedagem para quem não quer abrir mão do conforto. Segundo o lodge, já foram avistadas mais de 500 espécies no local, incluindo quase 350 tipos de pássaros.

Mesclar luxo e aventura é uma das tendências do turismo no Pantanal. Outra opção é o cruzeiro pelo Rio Paraguai a bordo do Kaymã, um barco-hotel com refeições e passeios para pesca ou observação de jacarés. Quem preferir algo mais urbano pode visitar o Bioparque, maior aquário de água doce do mundo, inaugurado em Campo Grande, em 2022. Com mais de 19 mil metros quadrados, o espaço reproduz ambientes do bioma pantaneiro e de outros biomas brasileiros, e conta ainda com espécies estrangeiras, como o axolote mexicano, um dos maiores sucessos de público.
Apesar do enorme potencial, a região enfrenta desafios. O principal está ligado à conservação. Um estudo do ICMBio divulgado em 2023 aponta que o Pantanal é o bioma que mais preserva espécies de animais silvestres, mas os incêndios provocados pela seca extrema, o desmatamento para expansão agropecuária e o assoreamento dos rios representam uma séria ameaça. Em 2020, o fogo consumiu grande parte da vegetação, e os efeitos ainda são sentidos. Há iniciativas para estimular a pecuária sustentável e projetos para coibir a pesca predatória, mas a falta de fiscalização dificulta o avanço dessas ações.
Para os turistas, os obstáculos são de outra ordem: falta de infraestrutura hoteleira em algumas cidades, grandes distâncias entre os atrativos e estradas sem duplicação, com intenso tráfego de caminhões. O alto fluxo de estrangeiros também pressiona os preços, o que penaliza especialmente o viajante brasileiro. Não por acaso, alguns dos principais destinos da região recebem mais americanos, europeus e chineses do que visitantes de outros estados do País, o que se reflete em tíquetes médios mais elevados para hospedagem, alimentação e guias. Ainda assim, visitar o Pantanal é encontrar um dos biomas mais belos e mais preservados do Brasil.
