Por Lucas Bresser

Nunca o Brasil produziu tanto etanol. Na safra 2024/25, a produção brasileira do biocombustível atingiu 37,3 bilhões de litros, o maior volume já registrado, segundo a União da Indústria de Cana de Açúcar e Bioenergia (Unica). Mais do que um novo recorde, o ciclo consolidou uma mudança estrutural na matriz produtiva: o etanol de milho respondeu por 22% da oferta nacional, deixando definitivamente o papel de coadjuvante. No total, foram 8,2 bilhões de litros fabricados a partir do grão, volume 30,7% superior ao da safra anterior, com forte concentração no Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso (5,66 bilhões de litros), seguido por Mato Grosso do Sul (1,64 bilhão) e Goiás (855 milhões).
Ainda segundo a Unica, no acumulado da safra 2024/25, a produção de etanol no Centro-Sul somou 34,96 bilhões de litros, um crescimento de 4,06% em relação ao recorde anterior. Desse total, 22,59 bilhões de litros foram de etanol hidratado, alta de 10,27%, enquanto a produção de etanol anidro alcançou 12,37 bilhões de litros, com retração de 5,63%. O avanço expressivo do milho – 8,19 bilhões de litros no Centro-Sul, o equivalente a 23,4% da produção regional – evidencia a crescente complementaridade entre cana e grãos e reforça um novo patamar de oferta ao longo de todo o ano.
É uma transformação estrutural em tempo recorde. “Há dez anos, a produção de etanol de milho no Brasil era um nicho desacreditado”, disse Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), durante a Conferência Internacional Unem Datagro, em Cuiabá. “Passamos de 80 milhões de litros na safra 2014/15 para mais de 8 bilhões de litros na safra atual (2024/25). Hoje, o milho representa mais de 23% da produção total de etanol do País”, resumiu.
As projeções confirmam a trajetória ascendente. No primeiro levantamento da safra 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou uma produção total de etanol de 36,82 bilhões de litros, ligeiramente abaixo do ciclo anterior, mas com o milho avançando: de 7,84 para 8,70 bilhões de litros (avanço de 11%). Já a Unem, em estimativa para o ano-safra 2025/26 (abril/março), apontou 9,9 bilhões de litros de etanol de milho, alta de 20% sobre 2024/25, reforçando que o cereal já responde por mais de 22% do etanol brasileiro quando se fala em ciclo completo de safra.

Poucas vezes na história do agro uma transformação industrial caminhou tão rápido e com tantos vetores ao mesmo tempo. O primeiro deles está num fator óbvio: a oferta de milho. O segundo, na urgência climática e na pressão por descarbonização. E o terceiro, no pragmatismo: etanol é etanol, independentemente da matéria-prima, desde que entregue sustentabilidade, competitividade e segurança de abastecimento. O ponto central, repetem os especialistas, é que milho e cana não estão em guerra. “As duas cadeias são complementares”, diz Nolasco. “O etanol de milho trouxe mais previsibilidade ao abastecimento do biocombustível no mercado nacional, que ficou menos dependente da sazonalidade da produção da cana e da demanda do açúcar no mercado internacional.”
A própria dinâmica industrial ajuda a explicar esse movimento. A Unica tem destacado, nos boletins quinzenais, a presença de empresas “full milho” e, principalmente, de usinas flex (capazes de operar com milho e cana) durante a entressafra. A lógica faz sentido: a cana precisa ser colhida e processada rapidamente, sob pena de perda de qualidade. O milho, ao contrário, pode ser armazenado por longos períodos, o que dá previsibilidade operacional e permite que a indústria mantenha produção contínua ao longo do ano, ajustando o ritmo conforme preços, demanda e logística.
Outro fator importante é a escala. O Brasil não está apenas “testando” o etanol de milho, mas construindo um parque industrial completo, com investimento, tecnologia e integração com cadeias de proteína animal. Nos dados setoriais mais recentes da Unem, o País contabiliza 27 biorrefinarias em operação, com 16 projetos autorizados para construção pela ANP e outras 14 unidades programadas. Esse número indica como o etanol de milho passou a ser tratado como infraestrutura estratégica: não é uma fábrica isolada, mas um ecossistema que movimenta armazenagem, biomassa para energia, logística e coprodutos.

O etanol é a estrela, mas não anda sozinho. A indústria do álcool de milho produz coprodutos que, em muitas regiões, são parte do racional econômico, especialmente DDG/DDGS (farelos proteicos para nutrição animal), além de óleo e energia (dependendo da rota e do arranjo energético de cada planta). A Unem chama a atenção para a consolidação do DDG/DDGS como produto de nutrição animal, utilizado em dietas de bovinos, suínos, aves, peixes e pets. Esses produtos, inclusive, fazem parte de uma estratégia de internacionalização. Em 2023, a entidade assinou convênio com a ApexBrasil para promover o produto no mercado externo, sob a marca Brazilian Distillers Grains. Esse ponto é chave para entender por que o etanol de milho “encaixou” tão bem no Centro-Oeste. Em regiões com forte produção de grãos e expansão de gado confinamento e semiconfinamento, o DDG/DDGS ajuda a reduzir custo de dieta e a estimular intensificação pecuária, gerando um ganho que se soma à agregação de valor ao milho excedente.
Se a oferta cresceu, a demanda também ganhou um novo capítulo. Em 2025, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a adoção do E30 – mistura de 30% de etanol anidro à gasolina – com início em 1º de agosto. A Unica classificou a medida como “avanço histórico” e ressaltou que houve testes técnicos conduzidos pelo Instituto Mauá, acompanhados pelo setor automotivo, sem impacto negativo relevante ao desempenho dos veículos. O Ministério de Minas e Energia também reforçou a viabilidade do E30 do ponto de vista técnico e ambiental, descrevendo a bateria de testes com veículos leves e motocicletas. Na prática, é mais um elemento que sustenta a expansão industrial. Quando o País eleva a mistura obrigatória, ele aumenta a necessidade estrutural de etanol, e o milho entra como “seguro” de oferta, reduzindo a pressão sazonal sobre a cana.

Há ainda um front que não aparece no posto de combustível, mas pesa no mercado internacional: a comparação entre pegadas de carbono. No debate global, “etanol de milho” muitas vezes é lido pelo filtro norte-americano. Isso pode ser um problema de narrativa para o produto brasileiro, que tende a operar com matriz energética e práticas agrícolas diferentes. Segundo estudos recentes da consultoria Agroicone, o etanol de milho brasileiro (especialmente associado à segunda safra e ao uso de biomassa como fonte de energia) pode apresentar pegada de carbono entre 18,3 e 25,9 gCO?e/MJ, comparável à do etanol de cana e inferior ao padrão tradicional de produção em outros países.

inesperada para a logística
Do lado institucional, a Unica reforça que, na comparação com a gasolina, o etanol pode reduzir em até 90% as emissões de CO?, e lembra que, de 2003 (início dos veículos flex) a março de 2025, o uso do biocombustível evitou mais de 730 milhões de toneladas de CO?. Já no programa RenovaBio, a ANP explica que a certificação atribui notas inversamente proporcionais à intensidade de carbono do biocombustível, base para emissão dos CBios (créditos de descarbonização) negociados em bolsa. É nesse tabuleiro que o etanol de milho brasileiro tenta se diferenciar. Não basta produzir: é preciso provar que o produto entrega baixa intensidade de carbono. Também é necessário comunicar isso em fóruns internacionais, sobretudo em mercados que passam a exigir rastreabilidade.
“Podemos chegar ainda mais longe”, diz Daniel Lopes, vice-presidente de Sustentabilidade e Novos Negócios da FS, uma das maiores produtoras do Brasil. “A consolidação do etanol de milho já virou grande realidade, e tenho a convicção de que vamos chegar a 40% do mercado em três a quatro anos.” O executivo também destaca que a busca pela descarbonização será fundamental para que o etanol se torne um combustível com ampla aceitação global. “Isso não vamos fazer sozinhos, exportando, mas trabalhando em coalizão com outros países e outros setores”, diz.
O horizonte segue otimista, mas com novos desafios. Do lado da produção, a Unem já sinalizou que, para a próxima safra (2025/26), a projeção é de 10 bilhões de litros de etanol de milho e que esse volume pode demandar cerca de 20 milhões de toneladas de milho. Em paralelo, as projeções da Conab indicate o aumento de produção a partir do milho mesmo em um cenário de leve recuo do etanol total, o que reforça o papel do cereal para o equilíbrio da oferta.
Mas o crescimento rápido traz pressão sobre a logística. Quando a oferta sobe muito acima do consumo projetado, o setor precisa abrir novas frentes: ampliar a penetração do hidratado em regiões onde o etanol ainda não virou hábito, avançar na exportação e, principalmente, posicionar o biocombustível para usos industriais e rotas emergentes, como combustível sustentável de aviação (SAF) e outras cadeias de baixo carbono.
