Por André Sollitto
Nos refrigeradores de supermercados, açougues e butiques de carne, os rótulos agora mostram uma variedade de informações. Eles indicam o corte, claro, que pode ser tradicional, como picanha ou maminha, ou uma das classificações novas, vindas de outros países, como assado de tira, ojo de bife, ribeye ou t-bone. Mostram também a raça do boi, se é Angus ou o cobiçado Wagyu. Incluem ainda certificações, como Angus Gold, que atesta que ao menos 50% da genética do animal é proveniente dessa espécie, ou “Certified Humane”, que se destina a comprovar o bem-estar animal. Em alguns casos, indicam se o animal foi criado em pasto. Agora, um produtor do Mato Grosso tenta dar o próximo passo nessa evolução: transformar a sustentabilidade em informação no rótulo – e, mais do que isso, em critério de escolha na hora da compra.
Responsável pela marca de carne premium SouBeef, o pecuarista e produtor rural Caio Penido defende há anos a bandeira da produção sustentável. “Temos todas as condições para fazer isso”, afirma. “Possuímos a maior biodiversidade do planeta, um Código Florestal que garante a conservação, um clima tropical, uma produção com bastante carbono e um sistema produtivo a pasto para o gado. Ou seja, já largamos na frente dos competidores.”
A SouBeef surgiu depois que Penido comprou a Fazenda Água Viva, em Cocalinho, no Mato Grosso. A proposta é oferecer um alimento feito de acordo com as melhores práticas de bem-estar animal, mas que também tenha qualidade para competir com os cortes premium do mercado. Hoje, a marca já está presente em empórios e plataformas especializadas, como a Talho Carnes, com unidades em Pinheiros e na Vila Madalena, em São Paulo, na rede SuperVille, no e-commerce Raízs, voltado a orgânicos, e nas lojas da Korin, referência em produção natural. O próximo passo é ampliar a rede e também oferecer um e-commerce para venda direta, com previsão de estreia ainda no primeiro semestre de 2026.


Levar a carne às gôndolas de butiques e aos sites especializados é, no fundo, uma vitrine do que acontece da porteira para dentro. Penido é um dos herdeiros da Fazenda Roncador, uma das grandes referências da pecuária brasileira, que chegou a ocupar 150 mil hectares na Serra do Roncador, no Vale do Araguaia. Criada nos anos 1970, a propriedade foi posteriormente dividida entre os três irmãos, dando origem a áreas menores, de cerca de 50 mil hectares cada uma.
É na Fazenda Água Viva, em Cocalinho, que ele aplica esse aprendizado. Ali, mantém um rebanho de cerca de 3 mil cabeças criadas soltas no pasto, prática associada a menor impacto ambiental e melhor bem-estar animal. Ao longo dos anos, investiu no aprimoramento genético, com cruzamentos entre Nelore e Angus, e mais recentemente incorporou o Wagyu, raça japonesa conhecida pelo alto marmoreio. Esse trabalho deu origem ao portfólio da SouBeef, que terá uma linha tradicional e outra dedicada a cortes especiais, a partir do cruzamento com Wagyu. O resultado não veio de uma única safra, mas de ajustes sucessivos até atingir o padrão desejado. “É difícil para a gente conseguir provar a própria carne”, diz. “Temos que vender para a indústria e depois recomprar alguns cortes.” Com o padrão definido, criou a própria marca para vender a carne diretamente ao consumidor.
Além da qualidade, a carne carrega diferenciais ligados à forma de produção. A Fazenda Água Viva, por exemplo, é certificada pelo Instituto Onça-Pintada, que reconhece propriedades que contribuem para a conservação da espécie. Na prática, isso significa conviver com a presença dos felinos, frequentemente avistados na região. Eventuais perdas de gado fazem parte desse equilíbrio – trata-se de um custo assumido para preservar o ecossistema local.

O desafio é convencer o consumidor a pagar um pouco mais por uma carne produzida com critérios de sustentabilidade. “Falávamos de uma tendência em alta, mas o mundo mudou de rumo e ainda não está claro como o consumidor vai reagir”, diz, em referência às tensões geopolíticas que vêm redesenhando o comércio global. Em mercados mais maduros, como o europeu, essa lógica já está incorporada: há o hábito de ler rótulos e escolher produtos alinhados à preservação de recursos e à redução da pegada de carbono. No Brasil, o movimento ainda é mais restrito e concentrado no público que busca carnes premium, com origem e qualidade certificadas. Esse nicho existe – e cresce. Hoje, representa cerca de 3% do mercado, mas associações de produtores indicam avanço gradual dessa fatia.
O avanço mais lento da agenda sustentável ainda é um entrave para o produtor. Mudar o sistema produtivo exige certeza de retorno – sem isso, a conta não fecha. Em mercados como o europeu, a pressão vem pela regulação, com regras mais rígidas que empurram a adoção de práticas sustentáveis. Há também mecanismos de incentivo, como benefícios fiscais e prêmios pagos por quem atende a determinados critérios. No Brasil, um exemplo emblemático é o “Boi China”, protocolo sanitário, técnico e comercial que abriu as portas para exportações. A bonificação inicial estimulou uma rápida adaptação: produtores, sobretudo médios e grandes, passaram a investir em nutrição e manejo para atender às exigências. Com o tempo, o prêmio encolheu, mas o padrão ficou e hoje é praticamente obrigatório para acessar esse mercado. A redução da idade de abate, de cerca de 50 para 30 meses, também trouxe ganhos ambientais, ao diminuir as emissões ao longo do ciclo produtivo. Mais recentemente, o avanço de metodologias de mensuração de carbono tende a abrir outra frente de receita, com a possibilidade de geração de créditos no mercado internacional.
Por ora, outra forma de convencer o consumidor a pagar mais pela sustentabilidade é abrir a porteira – literalmente. Em breve, a Fazenda Água Viva passará a receber visitantes. A antiga sede, um mosteiro salesiano que serviu à catequização de indígenas na região, está sendo convertida no hotel-fazenda Santo Rei, agregando ao projeto um peso histórico. “Daqui a pouco, nossas carnes vão trazer no rótulo ‘conheça nossa fazenda’”, diz Penido.
A proposta é oferecer uma imersão no cotidiano do campo, com a chance de entender na prática o que é integração lavoura-pecuária (ILP), plantio direto, melhoramento genético e manejo do rebanho, do nascimento dos bezerros ao abate. “É um turismo de experiência, para que as pessoas entrem no ritmo da fazenda e tenham contato direto com os animais”, afirma o empresário. O projeto mira tanto o público brasileiro quanto estrangeiros. Entre os atrativos está um safári dentro da propriedade, com apoio do Projeto ASAS (Áreas de Soltura de Animais Silvestres), em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente, que permitirá observar araras, papagaios, tatus, tamanduás, antas e capivaras. Dessa forma, a conservação e a sustentabilidade passam a fazer parte da estratégia de negócios.

