Por Lucas Bresser e Giovanna Arruda
Durante muito tempo, ESG foi tratado no agronegócio como um diferencial reputacional. Algo importante, desejável, mas ainda distante da rotina produtiva. Esse cenário mudou de forma definitiva. Hoje, práticas ambientais, sociais e de governança já fazem parte do “pacote mínimo” exigido para que o agro brasileiro continue acessando mercados estratégicos, especialmente no comércio internacional. Os números ajudam a dimensionar o peso dessa mudança. Em 2025, o agronegócio respondeu por 48,5% de todas as exportações brasileiras, com vendas externas de US$ 169,2 bilhões e superávit superior a US$ 149 bilhões. Em um setor tão dependente do mercado externo, qualquer restrição comercial deixa de ser abstrata e passa a ter impacto direto sobre receita, margem e sobrevivência do negócio. Não por acaso, as exigências ESG deixaram de ser voluntárias e passaram a integrar contratos, financiamentos e sistemas de rastreabilidade ao longo das cadeias produtivas.
Essa transformação não nasce no campo, mas chega rapidamente à porteira. Compradores globais – de tradings a grandes indústrias e redes varejistas – precisam comprovar conformidade ambiental e social diante de reguladores, investidores e consumidores. Para isso, transferem essa exigência para seus fornecedores. O resultado é que o produtor, mesmo sem negociar diretamente com o consumidor final, passa a ser cobrado por dados, documentos e evidências que antes não faziam parte do dia a dia da fazenda. O exemplo mais emblemático desse novo momento é o Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR. A norma estabelece que produtos como soja, carne bovina, café, cacau e madeira só poderão entrar no mercado europeu se houver comprovação de que não estão associados a desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020. Além disso, exige a adoção de um sistema formal de diligência devida, com rastreabilidade e geolocalização das áreas de produção. Ainda que o cronograma de aplicação tenha sido ajustado pela União Europeia, o sinal é claro: a exigência veio para ficar, e o tempo adicional serve para adaptação, não para postergação da agenda.


Isso significa que não basta produzir dentro da lei. É preciso provar. A documentação passou a ser tão relevante quanto a conformidade em si. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o acesso a mercados como o europeu exige informações detalhadas sobre a origem da produção, incluindo coordenadas geográficas das propriedades, comprovação de que não houve desmatamento após a data de corte definida pela regulação, evidências de cumprimento da legislação ambiental, fundiária e trabalhista e sistemas de rastreabilidade capazes de acompanhar o produto até o nível da propriedade ou do talhão. Todo esse conjunto precisa ser organizado e apresentado de forma padronizada, dentro dos sistemas exigidos pelos mercados compradores.
É nesse ponto que surge um risco ainda pouco visível no campo: produtores ambientalmente regulares, mas sem documentação adequada, podem enfrentar restrições comerciais ou perder competitividade simplesmente por não conseguirem comprovar suas práticas. O problema não está na produção, mas na gestão da informação. Para mitigar esse gargalo, o Mapa tem destacado a Plataforma Agro Brasil + Sustentável como um instrumento de organização e transparência, reunindo evidências socioambientais e facilitando a demonstração de conformidade perante compradores e instituições financeiras.


Além das exigências ambientais e de rastreabilidade, o ESG passou a incorporar, de forma crescente, dimensões jurídicas e de integridade nas operações de comércio exterior. Compradores internacionais, indústrias e varejistas atuam sob metas públicas de descarbonização, cadeias livres de desmatamento e tolerância zero a ilícitos, o que tem levado à inclusão de cláusulas contratuais específicas, programas de compliance e processos rigorosos de diligência sobre fornecedores e parceiros comerciais. Nesse cenário, a agenda ESG deixa de se limitar ao campo produtivo e passa a abranger governança corporativa, prevenção a riscos legais, combate à corrupção, respeito a direitos humanos e responsabilidade social ao longo de toda a cadeia.
Para produtores e empresas do agro, estruturar mecanismos internos de controle, auditoria e gestão de contrapartes tornou se parte essencial da estratégia para reduzir riscos, garantir previsibilidade comercial e manter acesso a mercados cada vez mais regulados. “O ESG hoje também é uma agenda de integridade. Não se trata apenas de sustentabilidade ambiental, mas de estruturar governança, compliance e transparência para prevenir riscos como corrupção, lavagem de dinheiro e violações de direitos humanos, que já impactam diretamente contratos e relações comerciais internacionais”, diz Ana Amélia Tormin, CSO, diretora Jurídica e de Compliance da Timbro, empresa especializada em operações de importação e exportação, destacando-se no setor agropecuário.
A pressão por ESG também já está incorporada ao crédito rural. Um levantamento da consultoria Agroicone mostra que, na safra 2024/25, cerca de 23% de todo o crédito rural desembolsado no País – o equivalente a R$ 69,2 bilhões – já apresentava potencial alinhamento à sustentabilidade. Esse movimento indica que critérios ESG estão sendo cada vez mais considerados na concessão de financiamento, seja para definir elegibilidade, seja para diferenciar condições. O próprio arcabouço regulatório brasileiro reforça essa tendência. Segundo o governo federal, produtores que adotam boas práticas ambientais, sociais e de governança podem acessar condições mais favoráveis no crédito rural, com base em normas como a Resolução CMN nº 5.152. A lógica é: quem comprova sustentabilidade tende a enfrentar menor risco regulatório, climático e reputacional, o que se reflete no custo do dinheiro. Na outra ponta, quem não se adéqua pode acabar pagando mais caro ou ficando fora de determinadas linhas e compradores.
Esse movimento ajuda a explicar por que o tema deixou de ser tratado como custo e passou a ser visto como estratégia. Estudos da consultoria PwC mostram que 56% dos CEOs do agronegócio brasileiro apontam as mudanças climáticas como o principal risco ao negócio, e 78% afirmam que pretendem investir em tecnologia, incluindo inteligência artificial e sistemas digitais, para melhorar rastreabilidade, gestão e eficiência. Ainda de acordo com a consultoria, 50% das empresas do agronegócio passaram a competir em novos mercados ou até em novos setores, refletindo a crescente exigência por padrões ambientais, sociais e de governança mais elevados. A digitalização das cadeias produtivas surge, assim, não apenas como ganho operacional, mas como resposta direta às exigências de mercado. “A tecnologia é o elo que transforma intenção em impacto real”, diz Mayra Theis, sócia e líder de Agronegócios da PwC Brasil. “No campo, ela viabiliza rastreabilidade mais robusta, melhor controle sobre insumos e decisões mais inteligentes diante da variabilidade climática. Transparência, dados confiáveis e rastreabilidade deixaram de ser diferenciais e já são pré-requisitos para participar das cadeias globais de alimentos.”


Para os especialistas, esse movimento consolida o ESG como um novo fundamento da competitividade no campo. Em um ambiente marcado por maior volatilidade econômica, riscos climáticos crescentes e pressão por eficiência, produtores passaram a incorporar sustentabilidade, governança e tecnologia ao centro da estratégia do negócio, não apenas para atender exigências externas, mas para ganhar resiliência, acesso a capital e relevância no longo prazo. A combinação entre produtividade, dados confiáveis e práticas sustentáveis vem se tornando decisiva para quem pretende continuar inserido nas cadeias globais, cada vez mais reguladas e orientadas por critérios ambientais e sociais. “Mais do que um diferencial, o ESG está se consolidando como um novo fundamento da competitividade no agronegócio brasileiro”, diz Mayra Theis, da PwC Brasil. “As práticas deixaram de ser apenas uma resposta a exigências externas e passaram a funcionar como alavancas estratégicas, capazes de fortalecer a confiança do mercado, ampliar o acesso a capital e preparar o produtor para um sistema alimentar em profunda transformação.”
Dados consolidados pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) mostram que a agenda ESG no agro brasileiro parte de uma base estrutural já existente. Segundo a entidade, com base em estudos da Embrapa Territorial, cerca de 66% do território nacional permanece coberto por vegetação nativa, enquanto aproximadamente 30% são ocupados pela agropecuária. Dentro das propriedades rurais, em média 25% da área é destinada à conservação, por meio de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais previstas no Código Florestal. Esses números reforçam que a produção agropecuária brasileira convive, por força legal e prática produtiva, com elevados níveis de conservação ambiental, o que coloca o País em posição singular nas discussões globais sobre sustentabilidade, uso da terra e segurança alimentar. “No Brasil, sustentabilidade no agro não é um conceito importado nem um modismo recente”, diz Roberto Araújo, gerente de Relações Institucionais e sustentabilidade da Abag. “Ela está incorporada ao modelo produtivo há décadas, combinando eficiência, conservação ambiental e competitividade. O desafio agora é transformar essa realidade em evidência clara para o mercado internacional.”

O Brasil tem visto melhorias inclusive entre os pequenos e médios produtores, para os quais a adaptação à regulamentação é naturalmente mais complicada. Isso advém, em grande parte, da aplicação das leis que regem a preservação ambiental em todo o território nacional. “Para muitos pequenos e médios produtores, ESG ainda não aparece como estratégia de mercado, mas como condição para continuar produzindo”, diz Nelson Ananias, coordenador de Sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “Cumprir o Código Florestal e manter o CAR em dia não é visto como ESG, é visto como obrigação para não sofrer sanções, mesmo que, na prática, isso já seja ESG.”
Apesar dos avanços, os desafios permanecem relevantes. A fragmentação de dados, a diversidade de exigências entre compradores, a dificuldade em estruturar sistemas de rastreabilidade e o risco de passivos indiretos ao longo da cadeia ainda representam pontos de atenção. Em muitos casos, a adequação acontece de forma reativa, quando o contrato já exige a comprovação e o custo de correr atrás costuma ser maior. “Hoje, ESG não decide quem vende mais, decide quem continua vendendo”, diz Bruno Maniglia, diretor de TI da consultoria Delaware, especializada em tecnologia para o agronegócio. “O mercado internacional não compra discurso nem promessa: compra evidência. E evidência nasce de dados, rastreabilidade e governança bem estruturadas.”
?O mercado deixa cada vez mais claro que o produtor rural precisa encarar o ESG como vantagem competitiva e condição para sobrevivência, e não como imposição externa. A adoção de boas práticas amplia o acesso a compradores, facilita o crédito, fortalece a imagem do produto brasileiro e ajuda a posicionar o País em um cenário internacional cada vez mais regulado. O ESG deixou de ser discurso. No agronegócio brasileiro, ele já opera como pré-requisito comercial. Quem não se adaptar corre o risco de ficar para trás.

