O campo sob pressão climática

Com a transição do la niña para um el niño duradouro, produtores devem se preparar para maior instabilidade no clima, possíveis perdas de qualidade e margens justas
Edição: 54
11 de maio de 2026

Por Lucas Bresser

A principal característica do novo ciclo climático é a mudança no regime de chuvas ao longo do ano

A transição de um La Niña curto e pouco intenso para um evento de El Niño mais persistente em 2026 marca uma mudança relevante no ambiente produtivo da horticultura brasileira. Depois de um 2025 em que chuvas relativamente bem distribuídas e temperaturas mais amenas favoreceram a produtividade de diversas culturas, o novo cenário climático tende a ampliar riscos, aumentar custos e exigir um nível ainda maior de planejamento técnico e comercial por parte dos produtores de frutas e hortaliças.

A principal característica desse novo ciclo não é apenas o aumento das temperaturas médias, mas a mudança no regime de chuvas ao longo do ano, com efeitos distintos entre regiões. Em linhas gerais, o El Niño costuma intensificar as chuvas no Sul do país, enquanto Norte e Nordeste enfrentam maior irregularidade e restrição hídrica. Sudeste e Centro-Oeste tendem a funcionar como zonas de transição, com impactos menos previsíveis e forte variabilidade intra-anual. Esse mosaico climático reforça um ponto central: não existe um único efeito do El Niño sobre os hortifrutis, e os resultados no campo dependem da cultura, da região e do sistema produtivo adotado.

A experiência recente mostra que os efeitos do El Niño sobre o hortifruti brasileiro tendem a se manifestar menos por quebras generalizadas de volume e mais por perdas de qualidade, desorganização do calendário produtivo e aumento da volatilidade de preços. Análises do evento de 2023/24 feitas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, indicam que chuvas volumosas no Sul comprometeram a qualidade e o potencial de armazenamento da cebola, com problemas de podridão e má-formação de casca, enquanto o excesso de umidade afetou a produção de tomate nas primeiras áreas de plantio, reduzindo produtividade e padrão comercial.

Já no Sudeste, chuvas concentradas no início do ciclo prejudicaram a alface, com perdas ainda na roça, enquanto períodos posteriores mais quentes favoreceram a produtividade, evidenciando a forte variabilidade intra-anual típica de anos de El Niño. Em contraste, no Nordeste, o fenômeno esteve associado a temperaturas elevadas e restrição hídrica, elevando riscos de estresse em culturas irrigadas, como a uva, e reforçando a dependência de manejo hídrico eficiente para manter produtividade e qualidade.

Estudos e balanços climáticos do Inmet e da Embrapa também destacam que, em anos de El Niño, o excesso de chuvas no Sul aumenta a pressão de doenças e dificulta operações de campo, enquanto a redução das precipitações no Norte e Nordeste limita o potencial produtivo e eleva custos com irrigação. Em conjunto, esses episódios reforçam que o El Niño tende a afetar o hortifruti de forma regionalizada e assimétrica, com impactos relevantes sobre qualidade, custos e rentabilidade, mesmo quando a oferta total não sofre grandes quebras.

Segundo Fábio Marin, professor de Agrometeorologia e Modelagem Agrícola da Esalq/USP, algumas cadeias merecem atenção especial justamente por coincidirem fases críticas do desenvolvimento das plantas com as condições típicas associadas ao fenômeno. “Os impactos do El Niño não são uniformes ao longo do território brasileiro. Na região Sul, o fenômeno provoca aumento no volume de chuvas e menor incidência de radiação solar”, explica. Esse cenário preocupa especialmente os produtores de maçã, principal fruta produzida na região, cuja floração e frutificação ocorrem, em geral, entre setembro e outubro. “Essas condições podem afetar diretamente essas fases, com reflexos tanto na produtividade quanto na qualidade dos frutos”, afirma.

Ainda no Sul, a cebola também entra no radar. A cultura é altamente dependente de luminosidade para o bom desenvolvimento dos bulbos e sensível ao excesso de umidade, que eleva a pressão de doenças e compromete a qualidade. Já no Nordeste, o sinal climático costuma ser oposto. “O El Niño está associado a temperaturas acima da média e menor volume de chuvas, o que pode afetar culturas sensíveis ao estresse térmico e hídrico, como a videira”, destaca Marin. Hortaliças folhosas, como a alface, também exigem atenção redobrada nesse contexto, uma vez que temperaturas elevadas tendem a reduzir produtividade e padrão comercial. Parte desses impactos pode ser mitigada em cultivos protegidos, nos quais há maior controle de irrigação e temperatura, mas isso depende de investimento e gestão.

O excesso de chuvas no Sul aumenta a incidência de doenças e dificulta o trabalho dos produtores

Mais do que provocar quebras expressivas de volume, o El Niño frequentemente se manifesta por meio de perdas de qualidade, especialmente em cadeias de produtos altamente perecíveis. Marin lembra que uma parcela significativa das perdas no hortifruti ocorre após a colheita, e esse risco tende a aumentar em anos mais quentes e úmidos. “Temperaturas mais elevadas aceleram as trocas gasosas e aumentam a desidratação dos produtos, reduzindo a vida útil”, diz o professor da USP. “No Sul, a elevada umidade do ar favorece o desenvolvimento de microrganismos decompositores, o que compromete a conservação pós-colheita.” Na prática, isso significa mais descarte, maior reclassificação e menor aproveitamento comercial, mesmo quando o campo entrega volumes satisfatórios.

Diante desse cenário, as estratégias de mitigação climática ganham centralidade. Para Marin, o manejo da irrigação se torna ainda mais sensível em 2026, tanto em regiões com déficit hídrico quanto naquelas sujeitas a chuvas excessivas. “O aumento das temperaturas e a alteração no regime de chuvas tornam essencial um manejo mais atento da irrigação. O monitoramento meteorológico contínuo permite antecipar decisões e alinhar o calendário fitossanitário de forma mais eficiente, evitando gastos além do necessário”, afirma. A lógica é clara: errar na dose de água ou no momento de intervir pode custar produtividade, qualidade e margem.

Segundo Jorge de Souza, gerente técnico da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), diante de um cenário climático cada vez mais imprevisível, a tecnologia tem sido a principal aliada. “O desenvolvimento de variedades mais adaptadas, o uso de diagnósticos por imagem, novas relações solo-planta e produtos que ajudam a cultura a enfrentar estresses, seja por excesso ou falta de água, são os caminhos que vêm mostrando melhores resultados no campo”, afirma.

No plano mais amplo do setor, a leitura é de que a instabilidade climática deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano da horticultura. Para Manoel Oliveira, diretor executivo do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), os últimos anos evidenciam uma ruptura com a previsibilidade que antes orientava o planejamento produtivo. “Saímos de um cenário de estações bem definidas e regionalização dos cultivos para um ambiente de grande imprevisibilidade, com forte variação de produtividade e interferência direta na oferta ao longo do ano”, afirma. Segundo ele, essa dinâmica tem provocado sucessivos descompassos entre oferta e demanda, com impactos econômicos relevantes.

Jorge de Souza, da Abrafrutas: a tecnologia é uma aliada para enfrentar os extremos do clima
Manoel Oliveira, do Ibrahort: “Entramos em um ambiente de grande imprevisibilidade”

Oliveira descreve situações recorrentes em que secas no momento do plantio ou chuvas excessivas na colheita reduzem a oferta e elevam preços, estimulando a expansão de área em outras regiões. Quando o clima se mostra favorável, essa produção adicional chega ao mercado ao mesmo tempo, gerando excesso de oferta e queda de preços. “Em alguns casos, os ciclos de produção se alteram a ponto de sobrepor colheitas de diferentes regiões, provocando uma remontagem de oferta que o mercado não consegue absorver”, explica. O resultado tem sido perda de margem e, em situações extremas, venda abaixo do custo.

Para enfrentar esse ambiente, o setor vem adotando um conjunto amplo de medidas. Entre elas estão a redução de áreas de plantio, investimentos em tecnologia para lidar com a variabilidade climática, uso de fertirrigação, recobrimento do solo com filmes plásticos, ampliação do cultivo protegido e da hidroponia, ajustes no planejamento de plantio, busca por áreas mais adequadas, testes de novas variedades mais tolerantes, além do uso crescente de produtos biológicos e do fortalecimento do manejo integrado de pragas. Parte dessas práticas é acessível a produtores de menor escala; outras exigem maior capacidade de investimento, mas tendem a ganhar espaço à medida que o risco climático se intensifica.

Fábio Marin, da Esalq/USP: “Os impactos do El Niño são uniformes no Brasil”
Um El Niño mais persistente em 2026 não representa apenas um desafio climático, mas um teste de gestão para o agro brasileiro

O desafio, no entanto, não é apenas técnico. O aumento dos custos de produção — com irrigação, defensivos, energia e mão de obra — ocorre em um contexto em que o repasse ao preço final é limitado. “Hoje, a precificação está muito mais relacionada à oferta do que à pressão de demanda. Não temos observado crescimento relevante do consumo”, afirma Oliveira. Ele destaca ainda que cadeias longas, com muitos intermediários, acabam absorvendo parte do valor, dificultando que ganhos ou aumentos de custo cheguem ao produtor. “Com isso, o produtor sofre perda de margem ou até vende abaixo do custo.”

Nesse contexto, proteger rentabilidade em 2026 passa por decisões que vão além da lavoura. Estratégias como escalonamento de plantio, segmentação de mercados, diferenciação de produtos e organização coletiva ganham importância. Segundo Oliveira, a agregação de valor pode melhorar o posicionamento do produtor, mas exige regularidade de oferta, qualidade, rastreabilidade, certificações, logística eficiente e presença comercial, requisitos difíceis para pequenos produtores isolados. “A organização de grupos de produtores pode ser uma alternativa para ganhar escala e fortalecer o posicionamento”, diz.

Para Jorge de Souza, da Abrafrutas, o planejamento passou a ser indispensável. “Hoje, o produtor precisa trabalhar com diferentes cenários — um provável, um otimista e um pessimista — e já ter planos de mitigação para cada um deles”, afirma o gerente técnico. “Ao mesmo tempo, a adoção de boas práticas agrícolas e de sistemas mais sustentáveis fortalece a posição da fruticultura brasileira, tanto no mercado interno quanto no externo, mostrando ao consumidor um compromisso real com eficiência e preservação.”

Um El Niño mais persistente em 2026 não representa apenas um desafio climático, mas um teste de gestão para a horticultura brasileira. Monitorar o clima, ajustar manejo e investir em eficiência produtiva serão condições necessárias, mas não suficientes. Em um mercado de perecíveis cada vez mais volátil, a capacidade de alinhar produção, qualidade e estratégia comercial tende a ser o principal diferencial entre quem atravessa o ciclo com rentabilidade e quem absorve o custo da instabilidade.

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