A energia que nasce no campo

Do etanol ao biometano e ao combustível de aviação, o brasil transforma o agronegócio em protagonista da transição energética global
Edição: 54
8 de maio de 2026

Por Amauri Segalla

Em 1975, quando o mundo ainda curava as feridas do primeiro choque do petróleo, o Brasil fez uma aposta que parecia improvável: transformar cana-de-açúcar em combustível para carros. O Proálcool nasceu como resposta a uma situação de emergência, mas acabou abrindo caminho para uma mudança que décadas depois ganharia um alcance que ninguém poderia prever.

O Brasil, que durante décadas exportou grãos, começa a perceber que pode vender a energia que nasce desses mesmos produtos

O programa deu certo – e de um jeito que surpreendeu até os mais otimistas. Vieram o motor flex, uma infraestrutura de abastecimento complexa e a consolidação do etanol como alternativa à gasolina, enquanto boa parte do mundo ainda tratava a ideia com ceticismo. Cinco décadas depois, aquela decisão mostrou ser muito mais do que um desvio circunstancial e acabou se revelando como o primeiro movimento de uma transformação mais ampla.

O milho de segunda safra, antes visto como produto secundário, tornou-se matéria-prima para usinas de etanol no Centro-Oeste. A vinhaça, um resíduo do processo de fermentação, passou a alimentar plantas de biometano. Mais recentemente, o bagaço de cana seguiu a rota do querosene renovável para aviação. O agronegócio, que o mundo insistia em enxergar apenas como produtor de alimentos, começa a ser reconhecido como um dos principais fornecedores de energia limpa do planeta – e a pressão por essa mudança não poderia vir em momento mais oportuno.

A escalada de conflitos no Oriente Médio e a alta do petróleo nos últimos meses expuseram, mais uma vez, como a dependência fóssil é frágil. Agora, países que dependem de importação de energia olham para o Brasil com um interesse que vai muito além da diplomacia. Não é coincidência que metade da oferta interna de energia brasileira já venha de fontes renováveis – índice que chegou a 59% no estado de São Paulo, segundo o Balanço Energético Nacional de 2025, contra 13% registrados pelos países da OCDE no mesmo período.

Parte considerável dessa vantagem vem do campo. Segundo estudo da FGV Agro, o agronegócio responde por mais da metade da energia renovável consumida no Brasil, somando etanol, biodiesel e biomassa. Sem essa contribuição, a matriz nacional seria bem mais modesta. O campo brasileiro, nesse sentido, não apenas alimenta o mundo, mas também começa a abastecê-lo.

Quando se fala em bioenergia no Brasil, o etanol de cana ainda aparece como ponto de partida – e há bons motivos para isso. A cultura permanece entre as mais eficientes do mundo na produção de biocombustíveis, e o País construiu ao longo de décadas uma liderança difícil de replicar. Mas a revolução que ocorre no campo hoje vai além dela. Nos últimos anos, o agro foi se abrindo para novas culturas e tecnologias sem abandonar o que já sabia fazer. O resultado é uma cadeia mais sofisticada, com produtos e subprodutos sendo aproveitados de formas que até pouco tempo pareciam distantes da realidade industrial.

Em Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, a FS Fueling Sustainability ergue uma usina de etanol de milho com capacidade para produzir 540 milhões de litros por ano e gerar 56 mil MWh de energia elétrica. O projeto, estruturado em ciclo fechado – em que subprodutos como vinhaça e resíduos do milho são reintegrados ao processo industrial, eliminando a geração de efluentes –, mobiliza R$ 2 bilhões em investimentos e foi parcialmente viabilizado por debêntures no âmbito do Eco Invest Brasil, programa do Tesouro Nacional voltado à atração de capital internacional para a transição energética.

Por meio de uma operação semelhante, a Inpasa levantou R$ 185 milhões para sua unidade em Rondonópolis (MT). Ao todo, as indústrias de biocombustíveis já somam oito operações dentro do programa, que reúne 33 projetos distribuídos por 14 estados. De acordo com o Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, essa cadeia está entre as de maior impacto na economia brasileira, com capacidade para adicionar 36 bilhões de dólares ao PIB até 2030 e gerar 620 mil empregos.

No mesmo movimento, a Cerradinho Bioenergia inaugurou recentemente em Maracaju (MS) uma unidade da subsidiária Neomille, com investimento de R$ 1 bilhão. A planta tem capacidade para processar 608 mil toneladas de milho e produzir 266 milhões de litros de etanol por ano. Combinada à unidade de Chapadão do Céu (GO), a Cerradinho passou a operar o maior complexo de etanol do Brasil, com capacidade de 13,6 milhões de toneladas de cana equivalente. Os coprodutos do processamento do milho, como óleo e DDG, seguem para a nutrição animal, fechando o ciclo sem desperdício.

O mercado internacional enxerga no Brasil uma plataforma estratégica para o SAF, o combustível sustentável de aviação

A diversificação do campo brasileiro, porém, não para no etanol de milho. Uma de suas fronteiras mais promissoras está bem acima do solo – literalmente. A aviação é um dos setores mais difíceis de descarbonizar. Responsável por 2,5% das emissões globais de CO?, ela depende de combustíveis com alta densidade energética, e poucas alternativas ao querosene convencional conseguem atender a esse requisito. O etanol de cana brasileiro é uma delas, e o mundo começa a perceber isso.

A Raízen, maior produtora mundial de etanol de cana, foi a primeira empresa do mundo a obter uma certificação que habilita seu produto como matéria-prima para a fabricação de SAF nos padrões da aviação civil internacional. Pela tecnologia conhecida como Alcohol-to-Jet, o etanol é convertido em querosene renovável com potencial de reduzir as emissões entre 70 e 80% em relação ao combustível fóssil, segundo a IATA. Em maio de 2025, a companhia formalizou um memorando com a SAFPAC para fornecimento de etanol brasileiro, incluindo o de segunda geração, feito a partir do bagaço da cana.

À medida que o etanol brasileiro avança em certificações e ganha espaço em novos mercados, o processo de qualificação da produção segue evoluindo. A Tereos obteve em fevereiro de 2026 uma certificação internacional que atesta que seu etanol não gera emissões associadas ao uso da terra, uma exigência das companhias aéreas e dos governos. Segundo a empresa, a obtenção do selo decorre de práticas agrícolas voltadas à melhoria do solo, aumento de produtividade e uso mais eficiente das áreas já cultivadas, sem necessidade de expansão.

Se empresas estrangeiras enxergam no Brasil uma plataforma estratégica para o SAF, a maior companhia do País também está nessa corrida. A Petrobras está construindo em Cubatão (SP) sua primeira refinaria projetada exclusivamente para processar matérias-primas renováveis – sem mistura com petróleo, do início ao fim do processo. A unidade terá capacidade para produzir 34 mil barris por dia de SAF e diesel verde. “Se o etanol começou no Brasil, foi graças à Petrobras”, disse a presidente Magda Chambriard. “O mesmo vale para o biodiesel. Agora vamos aumentar nossa participação novamente.”

Enquanto o etanol e o SAF ocupam as manchetes, uma transformação mais silenciosa acontece nos bastidores. Empresas como a Agropalma identificaram reduções significativas de emissões; na refinaria de Limeira (SP), uma caldeira movida a biomassa substituiu o gás natural, abatendo mais de 13 mil toneladas de CO? por ano. A BP Bioenergy percorre um trajeto parecido, controlando integralmente 11 unidades agroindustriais com foco agora voltado ao biometano, com projetos em Goiás e São Paulo que esperam produzir mais de 100 mil metros cúbicos por ano.

Segundo estudo da FGV, o agronegócio responde por mais da metade da energia renovável consumida no Brasil

O biometano é a fronteira menos visível, mas uma das mais promissoras. Obtido a partir da biodigestão de resíduos orgânicos como vinhaça e dejetos, ele é quimicamente equivalente ao gás natural. Segundo a Abiogás, o potencial brasileiro é de 120 milhões de metros cúbicos por dia, o dobro da demanda atual do País. A Atvos anunciou a instalação da maior planta de biometano com origem de vinhaça do mundo em Mato Grosso do Sul, enquanto a São Martinho levantou US$ 165 milhões para construir sua primeira planta do gênero.

Do lado regulatório, a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, estabeleceu um mandato de adição de biometano ao gás natural a partir de 2026. O RenovaBio reforça esse movimento ao tornar a produção limpa financeiramente mais competitiva. Juntos, formam uma arquitetura regulatória que atrai o interesse externo. O campo brasileiro passou os últimos 50 anos aprendendo a fazer energia limpa quando ninguém se interessava por isso. Agora, o interesse é de todos.

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