Por André Sollitto
O alemão tem um jeito muito metódico”, diz o guia turístico Silvio Bodenmuller, da agência Gertrud Wagen. Ele se refere não apenas aos seus antepassados, que saíram da região da antiga Pomerânia, localizada no norte da Polônia e da Alemanha, na costa sul do Mar Báltico, para se estabelecer em Santa Catarina, mas também a si próprio e aos habitantes da cidade de Pomerode. Não à toa, o município, próximo a Blumenau, é considerado o “mais alemão do Brasil”. Lá, a cultura, a língua, a arquitetura e a gastronomia alemãs, especialmente aquelas da antiga Pomerânia, são motivo de orgulho entre os moradores, mas também representam um dos atrativos turísticos da charmosa cidade.
Pomerode fica a 175 quilômetros de Joinville, capital catarinense, e é conhecida pelo forte setor industrial, responsável por mais de 50% do PIB local. É um dos municípios mais bem cotados em termos de qualidade de vida e igualdade social do País, e aparece como segundo melhor para se morar em Santa Catarina, atrás apenas de Luzerna, segundo o Índice de Progresso Social (IPS) de 2025. Pelo menos 99% das crianças são alfabetizadas, e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,78, acima da média nacional. Tem um setor de serviços forte e um turismo crescente. Fica ainda em uma região do estado com forte produção agrícola. Quem sai de Curitiba ou São Paulo e encara a viagem mais longa, ou mesmo aqueles que descem em Joinville, passa pela Rodovia do Arroz, onde é possível ver os campos alagados dos produtores do grão.
O turismo em Pomerode tem forte vocação familiar e cultural. Ao longo do ano, a cidade recebe eventos que reforçam suas raízes germânicas e movimentam a economia local. Na Páscoa, o município se transforma em um grande cenário temático, com direito ao maior ovo de Páscoa decorado do mundo, reconhecido pelo Guinness Book. Em outubro, a proximidade com Blumenau faz de Pomerode uma alternativa charmosa para quem visita a Oktoberfest e prefere se hospedar em um destino mais calmo. É, também, uma cidade que muitos visitam em um único dia. Os viajantes param para almoçar, tomam um café, conhecem algum ponto turístico e vão embora. Os parques temáticos, como a Vila Encantada, com dinossauros em tamanho real, e o Alles Park, com neve artificial o ano inteiro, atraem famílias com crianças. Os museus do Brinquedo e do Automóvel, instalados lado a lado, são interessantes pelo aspecto nostálgico.


O grande dilema da cidade está em expandir o turismo ou se manter fiel às raízes. Muitos temem que a instalação de mais hotéis e a ampliação da infraestrutura para receber um fluxo maior de visitantes possam prejudicar as características da cidade e afetar o estilo de vida local. Por outro lado, ao incentivar quem vem de fora a ficar mais tempo, a cidade deve receber mais recursos e, assim, o turismo passaria a representar uma parcela ainda maior do PIB local.
O principal destino turístico é a Rota do Enxaimel, percurso tombado como patrimônio paisagístico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecido como uma das “Melhores Vilas Turísticas” do mundo pela ONU. O nome é uma referência a uma técnica de construção que foi trazida pelos imigrantes alemães. Consiste em uma estrutura de madeira montada por meio de encaixes, usando um sistema de cavilhas e espigas, sem pregos. Essa estrutura robusta é preenchida com tijolos ou outros materiais. Tem uma característica visual marcante, preservada em algumas das residências da região.
É o caso da Casa Radünz, construída em 1932 e que faz parte da última leva de residências enxaimel, já com varanda incorporada ao imóvel, mas com a distribuição tradicional dos cômodos, com sala e quarto na parte da frente e cozinha nos fundos. O interior foi mantido com a mobília e a decoração original da família, e é um dos melhores exemplos preservados desse estilo arquitetônico. A propriedade passou por uma reforma recente, e os donos oferecem um passeio pela fazenda e vendem produtos feitos lá, como doces, licores e embutidos.
A rota proporciona ainda outros atrativos. O Clube Cultural XV de Novembro é uma Sociedade de Tiro, ou Schützenverein, uma antiga tradição da Alemanha. Na época, era uma forma de preparar os jovens para o correto manuseio das armas com o objetivo de defender a comunidade em uma eventual guerra. Mais tarde, viraram centros sociais onde os moradores se encontravam para festejar e manter costumes vivos. Hoje, a cidade de Pomerode tem 15 Clubes de Caça e Tiro, com as disputas de Rei e Rainha do Tiro, que reconhecem os melhores atiradores.

O percurso oferece ainda uma outra parada interessante na fábrica de chocolates Nugali. Vale a pena fazer o tour pelo processo de fabricação, que inclui uma degustação dos chocolates em diferentes etapas – do cacau puro, bastante amargo, aos chocolates zero açúcar feitos para quem tem alguma restrição alimentar. Na saída, uma lojinha oferece o portfólio completo da marca.
Há quem não se interesse por nenhum elemento histórico e está disposto a viajar até Pomerode para comer. A cozinha alemã é o ponto forte da experiência gastronômica local. Entre as opções estão confeitarias famosas, como a Torten Paradies, conhecida pelos doces de inspiração germânica, ou o Wunderwald, restaurante típico que serve um famoso café colonial. Outro destaque é o Biergarten Pomerânia. Desde que foi inaugurado, em 2022, o espaço se tornou um destino turístico local. Ocupa um casarão histórico, a Residência Passold, que foi reformada, mas manteve todos os atributos originais. A área de lazer, com espaço para crianças, música ao vivo, mesas na área externa e a competição do caneco, em que homens e mulheres competem para ver quem consegue segurar por mais tempo um copo de cerveja de um litro sem dobrar o braço – o recorde atual, de mais de 10 minutos, é feminino – são parte do apelo.


Mas é a cozinha do chef alemão radicado no Brasil Heiko Grabolle que atrai tanta gente. Segundo o chef, a proposta é apresentar o conceito dos Biergärten alemães, mais modernos e informais. O menu é enxuto, com pizzas compridas conhecidas como Flammkuchen, salsichas e o tradicional Hackepeter, bolo de carne crua e temperada, servido com pão ou fritas. Entre os pratos principais, o mais pedido é o Einsbein, joelho de porco que passa por sete tipos de cocção, começando com a carne fresca, fornecida por um parceiro local, e que passa por diferentes temperaturas até ser finalizado na cozinha do restaurante. Chega à mesa com chucrute e Spätzle, um tipo de massa alemã. De sobremesa, o Apfelstrudel é feito de acordo com a receita do chef Grabolle.
Como em toda cidade com forte imigração alemã, há ótimas cervejas artesanais. A Pomerânia, que fornece todo o chope do Biergarten, é uma opção, com visitas guiadas à fábrica, além da Schornstein, uma das pioneiras do movimento artesanal no Brasil, que tem uma loja de fábrica e um restaurante no centro. Assim, entre o orgulho das raízes e a tentação de crescer, Pomerode segue fiel ao seu jeito – metódico, acolhedor e cada vez mais disputado.

