Por Ronaldo Luiz

Em 2026, o mercado de máquinas agrícolas deve avançar 3,4%, segundo estimativas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Não é um salto, mas um respiro – sustentado sobretudo pela perspectiva de queda dos juros. Ao mesmo tempo, o campo segue lidando com um ambiente menos amistoso: custos ainda elevados, crédito restrito, preços mais acomodados das principais commodities e a instabilidade geopolítica global, fatores que podem segurar a mão do produtor na hora de investir, mesmo com a previsão de mais uma safra cheia de grãos.
“Devemos ter um mercado parecido com o do ano passado. Soja e milho, culturas que juntas representam 60% dos produtores que adquirem máquinas e implementos agrícolas, estão com cotações pressionadas, o que impacta a rentabilidade da atividade. Ela não está negativa, mas reduz o apetite por novas compras”, diz o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA), Pedro Estevão Bastos de Oliveira. Ele acrescenta: “A Selic deve cair, mas provavelmente apenas a partir do segundo semestre”.
Uma nota técnica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), com base em dados do Banco Central, mostra que a “carteira estressada” do crédito rural – que inclui atrasos, inadimplência e dívidas renegociadas – saltou de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025. O avanço de 71% no período revela uma deterioração acelerada, concentrada principalmente nos últimos meses. Atualmente, cerca de 15% da carteira ativa de crédito rural no Brasil, estimada em R$ 812,7 bilhões, encontra-se sob algum tipo de estresse financeiro. A entidade aponta o nível elevado das taxas de juros como principal fator.
Por outro lado, o dirigente da CSMIA pondera que outras culturas – como café, algodão e citros –, com preços mais favoráveis ao produtor, têm maior potencial para movimentar os negócios no segmento de máquinas agrícolas. Pedro Estevão lembra ainda que, diferentemente de ciclos anteriores nesta época do ano, o Moderfrota, linha do Plano Safra voltada ao financiamento de máquinas, conta com recursos disponíveis.
A avaliação do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers/RS) segue a mesma linha: avanço moderado, condicionado principalmente ao comportamento dos juros, à oferta de crédito e à renda do produtor rural. “A indústria já mostrou capacidade de reação em 2025, mas o avanço em 2026 dependerá diretamente do acesso ao crédito e do custo do financiamento. Juros elevados limitam a decisão de compra e adiam investimentos em modernização”, afirma a vice-presidente do Simers/RS, Carolina Rossato.
“Apesar do aumento das vendas no atacado, o mercado de máquinas agrícolas ficou abaixo da expectativa em 2025, reflexo da baixa rentabilidade do produtor rural, do elevado grau de endividamento e das altas taxas de juros, que impediram resultados melhores para o segmento”, acrescenta o presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), Arcelio Júnior.
No balanço mais recente da entidade, até novembro de 2025, as vendas de tratores registraram queda de 23,8% no mês e de 5,1% na comparação anual. “Ainda assim, o segmento segue positivo no acumulado do ano, com 48.673 unidades vendidas em 2025, alta de 16,5% em relação ao mesmo período de 2024. Os negócios foram puxados principalmente por modelos de menor porte, em sua maioria de até 100 hp”, ressalta o executivo.
Na categoria de colheitadeiras, as vendas em novembro de 2025 recuaram 10,8% no mês e 14,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior, totalizando 272 unidades. “No acumulado de 2025, porém, o desempenho permanece no azul, com 2.912 unidades vendidas, incremento de 7,5% frente às 2.710 unidades em igual período de 2024”, diz Arcelio Júnior. A Fenabrave esclarece que, por não serem emplacadas, as máquinas agrícolas têm seus resultados divulgados com um mês de defasagem, devido ao trabalho de coleta de dados junto aos fornecedores.
Pedro Estevão, da CSMIA, afirma que o consórcio pode funcionar como alternativa para o produtor contornar os juros elevados. Já a locação de máquinas, segundo ele, ainda carece de maturidade e permanece restrita a grandes grupos agrícolas, que dispõem de estrutura financeira para avaliar se compensa comprar ou alugar. “É uma parcela ainda pequena do mercado”, conclui.

