O lado cosmopolita do agro

Na defensiva: O acordo União Europeia–Mercosul avança depois de 26 anos, mas enfrenta um desafio: a pressão de agricultores franceses. Confira esse e outros acontecimentos no setor agro do mundo.
Edição: 53
25 de março de 2026

França

A revolta dos agricultores

Protestos expõem a resistência ao acordo União Europeia-Mercosul, que foi assinado após 26 anos de negociações, mas já enfrenta entraves políticos e jurídicos
Em meados de fevereiro, agricultores invadiram as ruas de Paris, na França. Em cima de tratores, furaram bloqueios policiais e cruzaram alguns dos cartões-postais da capital francesa, como o Arco do Triunfo e a Champs-Élysées. Levavam faixas com frases como “Não há país sem agricultores” e “Sem agricultores não há comida”. O alvo dos manifestantes era o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, visto por eles como uma ameaça à segurança alimentar da França e à competitividade dos produtores locais. Apesar da pressão, no entanto, a diplomacia falou mais alto, e os dois blocos chegaram a um consenso.
As negociações começaram em 1999, há 26 anos. Agora, o tratado de livre-comércio deverá integrar um mercado de 720 milhões de pessoas, com um PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 22 trilhões. Os europeus vão eliminar progressivamente tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul em um período de até dez anos. Em contrapartida, o Mercosul vai eliminar tarifas sobre 91% das exportações em um prazo mais longo, de até 15 anos. Nesse desenho, o Brasil tende a ser o principal beneficiado: segundo levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o impacto positivo no PIB será de 0,46% (US$ 9,3 bilhões) até 2040. A Europa também se beneficia, mas de forma mais tímida, com alta estimada de 0,06%.
Fazendeiros franceses e produtores rurais de outros países, como Bélgica, Itália e Polônia, afirmam que o acordo é prejudicial. O argumento é que o livre comércio inundaria os mercados com produtos importados mais baratos, produzidos sem as mesmas regras exigidas dos europeus. Em entrevista à televisão francesa, a ministra da Agricultura, Annie Genevard, disse que a revolta dos produtores é “profunda e justificada”. Seu gabinete anunciou um pacote de 300 milhões de euros para apoiar produtores de cereais, viticultores e pecuaristas, mas a medida foi insuficiente para conter a insatisfação.
Os protestos, no entanto, já começam a produzir efeitos sobre o ritmo político das negociações. O Parlamento Europeu aprovou uma revisão jurídica, congelando o avanço do acordo. Foram apenas dez votos de diferença, mas o placar apertado bastou para abrir uma frente de entraves. Uma avaliação do Tribunal de Justiça da UE pode levar até dois anos, e a pressão dos agricultores foi determinante para desacelerar o processo. Com a Europa mergulhada na crise com o presidente Donald Trump e sua vontade de anexar a Groenlândia, o acordo de livre-comércio pode acabar em segundo plano.

Estados Unidos

O novo guia alimentar

A nova pirâmide alimentar divulgada pelas autoridades norte-americanas redesenha de forma significativa as recomendações nutricionais dos Estados Unidos. No centro da mudança está a priorização das proteínas, especialmente as de origem animal, mas também as provenientes de fontes vegetais. Frutas e verduras seguem incentivadas, assim como o consumo de laticínios, inclusive integrais.
A reorientação, no entanto, reacende um debate ambiental. A produção convencional de carne bovina e laticínios nos Estados Unidos gera anualmente mais de 40 milhões de toneladas métricas de esterco, uma importante fonte de metano. Embora a proteína animal tenha benefícios comprovados para a saúde, sobretudo quando consumida com moderação, especialistas alertam que o aumento da demanda pode ampliar as emissões.
Historicamente, políticas climáticas concentraram-se na redução do carbono, deixando o metano em segundo plano. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que será necessário cortar as emissões desse gás em pelo menos um terço até 2030 para manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente indica que os Estados Unidos estão atrasados no cumprimento do Compromisso Global de Metano, lançado em 2021 com protagonismo do próprio país. A nova orientação alimentar pode tornar esse desafio ainda mais complexo.

Reino Unido

A invasão dos cervos

Desde o fim dos anos 1970, a população de cervos cresce na Grã-Bretanha, mas, no pós-pandemia, a alta acelerou de forma dramática. Estimativas da Comissão Florestal e do Departamento de Alimentação, Meio Ambiente e Assuntos Rurais indicam que o total pode chegar a 2 milhões, um salto expressivo em relação aos cerca de 450 mil de 50 anos atrás. O avanço já se traduz em problemas concretos: mais acidentes nas estradas, prejuízos a propriedades e danos a plantações. O desafio, agora, é decidir como conter essa expansão. Há especialistas que defendem a reintrodução de lobos e outros predadores naturais, mas a convivência desses animais com áreas de presença humana é um obstáculo evidente. Estudos acadêmicos, por sua vez, apontam a necessidade de controle por caça. Nesse cenário, o consumo de carne de veado aparece como uma alternativa potencialmente sustentável.

Afeganistão

Sem papoula, sem renda

Antes do retorno do Talibã ao poder, em 2021, a renda da papoula foi, por anos, uma das principais engrenagens da economia afegã. Essa base desabou: a área cultivada caiu para 10,2 mil hectares em 2025, um dos níveis mais baixos já registrados no país, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Em 2022, por exemplo, o cultivo ultrapassava 232 mil hectares. Para a ONU, essa redução traz um custo social. Um estudo da organização indica que 85% das famílias nas províncias do norte, mais sujeitas às ações do Talibã, não conseguem substituir a renda perdida com a papoula. A queda enfraquece o poder de compra no campo, desacelera a economia local e aumenta a vulnerabilidade à pobreza e à insegurança alimentar. Diante desse cenário, o governo precisa oferecer aos agricultores alternativas legais – e rentáveis – para que possam se reerguer.

Dinamarca

Drones no pinheiral

Segundo maior produtor de árvores de Natal da Europa, atrás apenas da Alemanha, e maior exportador mundial, a Dinamarca está mudando a forma de cultivar pinheiros natalinos ao incorporar tecnologia para otimizar a produção. Como as árvores costumam levar cerca de dez anos para atingir o tamanho ideal, o ciclo longo torna o acompanhamento da saúde das plantações uma etapa crucial para os produtores. Até pouco tempo atrás, essa tarefa dependia de funcionários percorrendo os talhões a pé. Agora, drones começam a assumir esse trabalho. Equipados com sensores e conectados a softwares que usam inteligência artificial, eles ampliam a precisão do monitoramento e reduzem a margem de erro. De acordo com a empresa sérvia Agremo, que oferece esse tipo de serviço, o sistema consegue mapear uma plantação de 100 hectares em cerca de 30 minutos e contar as árvores em 24 horas, com precisão de até 98%. Cada exemplar recebe uma identificação única, o que facilita ainda mais o acompanhamento ao longo do tempo.

Estados Unidos

O custo oculto dos pesticidas

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Notre Dame, em Indiana, e publicado na revista Science indica que o uso indiscriminado de pesticidas pode afetar de forma severa a vida de peixes em áreas próximas a fazendas. Segundo a pesquisa, a exposição compromete o ciclo natural de desenvolvimento, reduz a expectativa de vida e impõe efeitos cumulativos ao longo do tempo. Hoje, as normas elaboradas por órgãos de vigilância sanitária tendem a se concentrar na exposição de curto prazo a altas doses de pesticidas e outros produtos químicos. O trabalho, porém, mirou justamente o contrário: a exposição prolongada. E os resultados chamam atenção. Os pesquisadores observaram sinais de envelhecimento em concentrações abaixo dos padrões atuais de segurança para água doce nos Estados Unidos, sugerindo que os impactos dos defensivos podem ocorrer em níveis baixos quando o contato é contínuo. Diante do alerta, caberá agora aos reguladores buscar formas de enfrentar o problema.

Noruega

Raios contra pragas

A startup norueguesa Saga Robotics desenvolveu um robô apelidado de Thorvald, capaz de usar raios UV (ultravioleta) para tratar doenças em plantações de morango e outras frutas. O equipamento também opera com câmeras que ajudam a prever o rendimento e a identificar problemas nas plantas. É uma pequena revolução no manejo de culturas mais delicadas. Autônomos, os robôs dispensam operadores humanos – um único profissional pode supervisionar uma frota inteira – e ainda trabalham à noite, quando a luz UV tende a ser mais eficaz. Por serem mais leves, também compactam menos o solo. Especialistas observam, porém, que União Europeia, Reino Unido e Estados Unidos, onde a tecnologia já é utilizada, precisam discutir sua distribuição: a inovação não pode ficar restrita a grandes companhias privadas, e deve ser acessível também a cooperativas e associações.

Guadalupe

A crise das bananas

Produtores de banana de Guadalupe e da Martinica vêm reduzindo o uso de pesticidas nos últimos anos. É uma virada importante, sobretudo porque, há duas décadas, a região era símbolo do emprego indiscriminado de defensivos, incluindo a clordecona, substância reconhecidamente cancerígena. De lá para cá, agricultores locais passaram a adotar técnicas ecológicas e conseguiram diminuir a dependência de químicos em um intervalo relativamente curto. O problema é que boas práticas agrícolas muitas vezes custam caro. Produtores reclamam que a concorrência com países da América Latina, onde a mão de obra é mais barata e as regras sanitárias são menos rígidas, pressiona margens e incentiva atalhos. O temor é que parte do setor volte a recorrer a defensivos para reduzir custos. Se isso acontecer, será um retrocesso de grandes proporções.

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