A virada do boi

COMO GANHOS DE PRODUTIVIDADE, APOSTA NA CIÊNCIA E CONQUISTA DE NOVOS MERCADOS LEVARAM O BRASIL A ULTRAPASSAR OS ESTADOS UNIDOS E ASSUMIR A LIDERANÇA MUNDIAL NA PRODUÇÃO DE CARNE BOVINA
Edição: 53
23 de março de 2026

Por Lucas Bresser

O Brasil está prestes a consolidar uma virada histórica no mercado global de carne bovina. Dados preliminares e estimativas de mercado indicam que, em 2025, o País superou os Estados Unidos e se tornou, pela primeira vez, o maior produtor mundial de carne bovina – uma posição até então ocupada de forma praticamente contínua pelos norte-americanos. Caso os números oficiais confirmem as projeções, o movimento marca não apenas uma troca de liderança, mas uma mudança estrutural no equilíbrio da oferta global de proteína animal.

Segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção brasileira de carne bovina alcançou 12,35 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC) em 2025, após uma revisão positiva de 450 mil toneladas em dezembro. Já a produção dos Estados Unidos recuou 3,9%, para 11,8 milhões de toneladas, impactada por anos consecutivos de seca e pela redução do rebanho. A diferença pode parecer pequena, mas representa um marco simbólico para a pecuária mundial.

A consultoria Rabobank, que inicialmente projetava queda na produção brasileira em 2025, revisou sua expectativa e agora estima um crescimento de 0,5%, levando o total a 12,5 milhões de toneladas. Para Maurício Nogueira, diretor da consultoria Athenagro, a surpresa foi ainda maior. “A produção de carne bovina do Brasil superou muito as nossas previsões em 2025”, afirmou o especialista, ouvido pela agência Reuters. Segundo ele, o crescimento anual foi de 4%, quando a expectativa era de retração de 2,7%. O aumento absoluto, de cerca de 800 mil toneladas, equivale a todo o volume exportado anualmente pela Argentina, quinto maior exportador mundial.

Essa virada não ocorreu por acaso. Para Rafael Ribeiro, assessor técnico da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte da CNA, o avanço da pecuária brasileira é resultado direto de investimentos contínuos em ciência ao longo das últimas décadas (veja quadro). “Um dos pontos fundamentais que levaram a pecuária nacional à posição de destaque foram os investimentos em tecnologia, que possibilitaram aumentos de produtividade e melhoria da qualidade da carne bovina brasileira”, diz. “Ou seja, além de volume, temos avançado também em qualidade do produto.”

O avanço da pecuária brasileira nos últimos anos significou uma mudança profunda na oferta global de proteína animal
Maurício Nogueira, sócio da Athenagro: “Em 2025, a produção no Brasil superou previsões”

Para Alcides Torres, sócio da Scot Consultoria, o avanço da pecuária brasileira tem no mercado o seu principal motor. “A partir do momento em que ocorre uma revolução econômica e o bovino, como reserva financeira, começa a perder valor, o caminho natural é o investimento para tornar a atividade produtiva”, afirma. Segundo ele, o setor viveu um primeiro salto relevante de eficiência no início dos anos 2000, quando a produtividade, que já vinha crescendo desde a década de 1960, passou por uma aceleração mais intensa.

A abertura comercial a partir de meados de 2005 marcou outro ponto de inflexão, ao reposicionar o Brasil como fornecedor global de carne bovina. “O mundo passou a enxergar o potencial brasileiro: extensão de área, capacidade de investir em produtividade, custos mais baixos e domínio da produção nos trópicos”, diz Torres. Na avaliação do analista, a pecuária tropical garante vantagem competitiva estrutural. “Temos o maior rebanho comercial do mundo, com um potencial produtivo gigantesco ainda a ser explorado e preços extremamente competitivos. É isso que faz o Brasil se destacar.”

Essa expansão ocorre em um contexto de forte demanda internacional. O Brasil já ocupa, há anos, a posição de maior exportador global de carne bovina e, em 2025, embarcou o equivalente a US$ 17 bilhões em produto, segundo dados oficiais de comércio exterior. A combinação de oferta restrita em grandes produtores, como Estados Unidos e Austrália, e preços recordes da carne bovina no mercado norte-americano impulsionou o envio de animais para o abate no Brasil, inclusive para atender mercados como China e Estados Unidos. Desde 2018/2019, a China se consolidou como principal destino da carne brasileira, movimento que elevou os preços internacionais e aumentou a rentabilidade do produtor no Brasil, com destaque para o chamado “ágio do boi China”, segundo a CNA.

Alcides Torres, sócio da Scot Consultoria: “O mundo enxergou o enorme potencial brasileiro”
A partir de 2018, a China se tornou o principal destino da carne brasileira, o que aumentou a rentabilidade dos produtores do país

Tradicionalmente, ciclos de abate elevados são seguidos por períodos de retração da produção, à medida que os pecuaristas retêm matrizes para a recomposição do rebanho. No entanto, o caso brasileiro começa a desafiar essa lógica. Ganhos expressivos de produtividade ao longo da cadeia vêm permitindo manter, e até ampliar, a produção sem expansão significativa do rebanho ou da área de pastagens. Um dos indicadores mais claros dessa transformação está na redução da idade de abate. Dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) mostram que, em 2004, 41,7% dos bois abatidos no País tinham mais de 36 meses. Em 2024, esse percentual caiu para 11%. Um caso específico, da Confinamento Monte Alegre (CMA), em Barretos (SP), citado pela Reuters, mostra que em 2015 a idade média de abate era de cinco anos. Hoje, está em torno de 36 meses, caminhando rapidamente para 24 meses. Esse avanço reflete a combinação entre genética, nutrição e uso mais intensivo de sistemas de engorda em confinamento.

Os números confirmam essa intensificação. Segundo dados da DSM, o número de animais terminados em confinamento no Brasil cresceu 82% entre 2015 e 2025, alcançando cerca de 8,5 milhões de cabeças no ano passado, o equivalente a 20% dos abates nacionais. Além disso, estima-se que outros 8 milhões de bovinos sejam terminados anualmente em sistemas intensivos, como semiconfinamento e Terminação Intensiva a Pasto (TIP). De acordo com a Scot Consultoria, 22% do gado abatido em 2025 passou por confinamento, percentual que deve chegar a 28% até 2027. A intensificação reduz drasticamente o tempo necessário para o ganho de peso, fazendo em cerca de 100 dias o que o pasto leva entre 18 e 24 meses. A CMA, por exemplo, prevê elevar a capacidade de abate em Barretos de 65 mil cabeças em 2025 para 80 mil em 2026.

Outro fator-chave é a integração crescente com a cadeia de grãos e biocombustíveis. A expansão da indústria de etanol de milho no Brasil vem gerando volumes crescentes de grãos secos de destilaria (DDG), subproduto com alto teor proteico que acelera o ganho de peso dos animais e contribui para a redução dos custos de alimentação.

Na base desse processo estão também os avanços em genética e nutrição. As vendas de sêmen de bovinos de corte no Brasil cresceram 147% entre 2014 e 2024, segundo dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). Já a demanda por suplementos minerais pela pecuária aumentou quase 60% na última década, de acordo com o Sindirações. Como reflexo desses investimentos, o peso médio da carcaça bovina no Brasil aumentou 15% nos últimos 20 anos, o equivalente a um ganho de 33 quilos por animal, segundo o IBGE.

Ao mesmo tempo, avanços em reprodução animal têm elevado a eficiência do rebanho. Técnicas mais modernas de inseminação artificial aumentam a taxa de prenhez, permitindo maior número de abates sem redução do estoque de fêmeas. A Scot Consultoria estima que esse índice suba de 50% em 2026 para 54% em 2027. E ainda há margem para evoluir. Para efeito de comparação, a taxa na Argentina é de cerca de 66%, enquanto no Canadá chega a 96%, segundo dados da Datagro.

A abertura comercial a partir de 2005 foi importante para reposicionar o Brasil como fornecedor global de carne bovina
Rafael Ribeiro, executivo da CNA: “Investimentos em tecnologia aumentaram a produtividade”

A base produtiva brasileira oferece ainda uma vantagem estrutural relevante: escala. O País possui cerca de 238 milhões de cabeças de gado, mais que o dobro do rebanho norte-americano, estimado em 94 milhões. Segundo a Abiec, o rebanho brasileiro deve crescer 4% entre 2024 e 2034, enquanto a produção de carne bovina tende a avançar 24% no mesmo período, evidenciando que a expansão virá, majoritariamente, por ganhos de produtividade.

Esse movimento tem implicações que vão além do mercado. A possibilidade de aumentar a produção sem ampliar áreas de pastagem pode reduzir a pressão econômica por desmatamento, especialmente na Amazônia, ao dissociar crescimento da pecuária da abertura de novas áreas. Entre os grandes processadores de carne, a busca por produtividade e eficiência também vem sendo incorporada como um vetor central de sustentabilidade. Segundo Liège Correia e Silva, diretora de Sustentabilidade da JBS Brasil, o aumento da eficiência produtiva no campo é hoje uma das principais estratégias para reduzir a pegada ambiental da pecuária. “A incorporação de práticas regenerativas, acompanhada por monitoramento contínuo de dados, tem permitido ganhos produtivos, redução de custos e maior sequestro de carbono por hectare”, afirma. Na avaliação da executiva, programas de apoio ao produtor têm papel decisivo nesse processo. “Com ciência, método e acompanhamento, conseguimos transformar boas práticas em referências para o setor”, diz.

Um estudo conduzido por instituições como FGV e Instituto Inttegra em fazendas participantes do programa Fazenda Nota 10, da JBS, indica que 31% das propriedades já capturam mais carbono do que emitem, resultado associado a práticas como recuperação de pastagens, manejo eficiente, dieta balanceada e desmatamento zero. Para Liège, escalar esse modelo é fundamental. “O Brasil tem condições de liderar pelo exemplo, mostrando que é possível aumentar a produção e reduzir a pegada ambiental ao mesmo tempo”, afirma.

Do ponto de vista institucional, a sanidade do rebanho é outro diferencial competitivo. O Brasil nunca registrou casos típicos de encefalopatia espongiforme bovina (vaca louca) e, em maio de 2025, foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como livre de febre aftosa sem vacinação. Hoje, o País exporta carne bovina para mais de 160 mercados, condição que amplia seu peso estratégico no comércio global.

Se a combinação de escala, demanda externa e ganhos de produtividade levou o Brasil ao topo da produção mundial de carne bovina, o desafio agora é transformar essa liderança conjuntural em vantagem estrutural de longo prazo. Para Rafael Ribeiro, da CNA, isso passa por reduzir a heterogeneidade produtiva do setor. “É preciso avançar no uso de tecnologia, reduzindo o desvio nos indicadores técnicos e econômicos e elevando os indicadores médios da pecuária brasileira, mantendo a competitividade frente aos países concorrentes”, afirma.

Entre os pontos críticos estão a rastreabilidade do rebanho, com avanço da identificação individual dos animais, o reforço da vigilância sanitária, com planos de contingência robustos, e a diversificação dos destinos de exportação. Em 2025, a China respondeu por 53,2% do faturamento das exportações brasileiras de carne bovina, concentração que, segundo a CNA, amplia riscos comerciais e geopolíticos. O aumento dos custos de produção também exige maior uso de ferramentas de gestão de risco, como travas de preços e instrumentos financeiros, enquanto o avanço do protecionismo em alguns mercados demanda articulação política e diplomática para preservação e ampliação do acesso internacional.

Para Alcides Torres, da Scot Consultoria, a manutenção da liderança brasileira na produção de carne bovina depende da capacidade histórica do setor de se adaptar e inovar. “O Brasil precisa continuar fazendo o que sempre fez: ser criativo, encontrar saídas e aproveitar o seu fator climático peculiar para dar suporte ao desenvolvimento e à manutenção dessa posição”, afirma.

Ao mesmo tempo, Torres alerta para os desafios externos e internos que se acumulam. “Temos que atender às exigências dos mercados, lidar com acordos como Mercosul–União Europeia, com regras e cotas chinesas e com a instabilidade geopolítica estimulada pelos Estados Unidos. Tudo isso exige atenção”, avalia. No campo doméstico, a restrição ao crédito e o aumento da complexidade produtiva elevam o risco da atividade. “Com a maior adesão às técnicas de produção, a janela de erro fica menor. O produtor não pode errar e, cada vez mais, precisa investir em ciência e conhecimento”, conclui.

Ao alcançar, pela primeira vez, a liderança mundial na produção de carne bovina, o Brasil deixa de ser apenas o maior exportador e assume um papel central na segurança alimentar global. O desafio agora é transformar essa conquista em um novo padrão de eficiência, previsibilidade e competitividade. Se conseguir alinhar tecnologia, escala, sanidade e gestão ao longo de toda a cadeia, o País não apenas consolida sua posição no topo, como redefine os parâmetros da pecuária bovina no século 21.

Ao assumir a liderança mundial na produção de carne bovina, o Brasil assume um papel central na segurança alimentar global

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