Por André Sollitto
Por décadas, o vinho do Chile foi associado à boa relação entre qualidade e preço. Garrafas consistentes, produzidas em larga escala e vendidas a valores competitivos, ajudaram o País país a se tornar um dos maiores exportadores do mundo. Em 2023, os chilenos ocuparam a quarta posição global tanto em volume quanto em valor de vinhos vendidos ao exterior, atrás apenas de Itália, França e Espanha. Apesar disso, demorou até que pudessem disputar espaço com os grandes rótulos do Velho Mundo.
A virada começou quando alguns produtores passaram a elaborar Cabernet Sauvignon de padrão internacional. Nomes como Almaviva, Don Melchor e Viñedo Chadwick passaram a figurar entre os mais bem avaliados por críticos e concursos, tornando-se objetos de desejo – e de preço – ao redor do planeta. Não por acaso, todos eles nascem em Puente Alto, no Alto Maipo, região situada aos pés da Cordilheira dos Andes, onde a forte amplitude térmica favorece o amadurecimento das uvas e os solos pobres e bem drenados contribuem para vinhos complexos. A aclamação da área é unânime, mas os limites geográficos impostos pela montanha impediram que ali houvesse expansão. Foi esse bloqueio natural que estimulou enólogos e viticultores a olhar para outras partes do país em busca de novas paisagens vitivinícolas. O resultado é um redesenho do mapa do vinho chileno.
Entre as novas fronteiras mais vibrantes está a costa do Pacífico. A poucos quilômetros do oceano, essa região recebe a influência direta da corrente de Humboldt, a mais fria do globo, que modera o clima, retarda a maturação das uvas e preserva a acidez – condição essencial para vinhos elegantes e longevos. Territórios como o Vale de Limarí, no norte, e os vales de San Antonio e Casablanca, próximo de Santiago, tornaram-se referências contemporâneas. Em Limarí, surgem hoje alguns dos melhores Pinot Noir, além de Sauvignon Blanc e Chardonnay de grande pureza. O crítico chileno Patricio Tapia, autor do guia Descorchados, destaca a presença de solos calcários, seja por minerais trazidos das montanhas, ou seja por sedimentos marinhos, como em Talinay, que imprimem salinidade e austeridade raras no Chile. No mercado brasileiro, um bom exemplo dessa expressão costeira é o Pinot Noir Single Vineyard Block 21, da Cono Sur. Até mesmo gigantes do setor, como a Concha y Toro, têm investido ali; o AméliaAmelia, seu Chardonnay de perfil refinado, nasce em vinhedos plantados próximos ao mar.



O sul do país também vive um momento de renovação. A região de Itata, uma das primeiras a receber videiras dos colonizadores espanhóis, abriga parreirais com mais de cem anos de idade, algo cada vez menos comum no cenário global. Embora não exista uma definição rígida para o que são vinhas velhas, a experiência mostra que plantas antigas produzem menos uvas, porém com maior concentração e capacidade de traduzir as características do lugar. É ali que Pedro Parra, um dos mais respeitados especialistas em terroir do mundo, escolheu produzir seus próprios vinhos. A combinação de solos complexos, ricos em minerais, e o clima mais úmido formam o cenário para tintos de estilos distintos: da rusticidade da uva País, antiga variedade chilena, à elegância de Carignan e Cinsault, variedades francesas que encontram em Itata um terreno fértil para interpretações mais sutis. A região também reflete os efeitos das mudanças climáticas. Antes, a chuva era excessiva; agora, o equilíbrio hídrico tornou-se mais favorável, permitindo que iniciativas como o Vigno, produzido pela Viña Morandé a partir da Carignan, ganhem novas dimensões e altas notas de críticos internacionais.



Ao mesmo tempo, há quem procure ir ainda mais longe. A Ventisquero decidiu testar os limites da viticultura ao plantar videiras no deserto do Atacama, 700 quilômetros ao norte de Santiago. Em um ambiente árido e hostil, surgiu o Tara Chardonnay, vinho de acidez marcada e frescor impressionante, hoje integrado ao portfólio premium da vinícola. No extremo oposto, na Patagônia Austral, a busca da vinícola Trapi Del Bueno pelo terroir ideal levou uma década. O destino final foi o Valle de Osorno, região marcada pelo vulcão homônimo. Hugo Rodrigo, representante da vinícola, costuma dizer que foi como apostar todas as fichas no 8 preto da roleta. A aposta compensou. O clima extremamente frio prolonga a maturação das uvas, preserva uma acidez firme e realça a mineralidade do solo. O resultado são vinhos delicados, comentados positivamente por críticos e apontados por Rodrigo como exemplos da nova viticultura chilena.
A exploração de territórios inéditos vem acompanhada de um esforço coletivo para aprimorar a imagem do vinho chileno no exterior. A Wines of Chile, criada no início dos anos 1990, intensificou sua atuação internacional para apresentar ao mundo as singularidades do país e superar a antiga percepção de vinho bom e barato. Mais recente, o MOVI, Movimento dos Viticultores Independentes, fundado há 15 anos, reúne pequenos produtores que apostam em identidade, autenticidade e vinificação artesanal. Neste ano, as duas entidades organizaram no Brasil o Site Matters, evento que apresentou a diversidade dos terroirs chilenos, das zonas costeiras aos cultivos mais extremos. Esse tipo de iniciativa é essencial em um momento delicado para o mercado global, marcado pela queda no consumo. Para um país que exporta cerca de 70% de sua produção, reforçar sua presença internacional é uma necessidade estratégica. E o Chile parece preparado para isso. Se um dia sua força esteve na relação entre qualidade e preço, agora ela se apoia em algo mais profundo: a capacidade de revelar uma variedade de terroirs que refletem, com riqueza e personalidade, a extensão de seu território.

