Safra rara

Com a segunda maior reserva de terras raras do mundo, o Brasil tem a chance de transformar o subsolo em vantagem competitiva para o agro
Edição: 52
6 de fevereiro de 2026

Por Alexandre Dantas

Enquanto o Brasil consolida seu protagonismo como potência agroalimentar, um novo e estratégico capítulo se desenha no subsolo: a exploração de terras raras. Esses 17 elementos químicos, essenciais para a tecnologia de ponta, são a chave para a próxima grande transformação do campo, indo muito além da mineração para se integrar à cadeia de valor do agronegócio.

O Brasil abriga um tesouro ainda pouco explorado. Estudos reunidos por especialistas mostram que o País possui cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras em reservas – algo como 23% do total mundial, a segunda maior fatia do planeta, atrás apenas da China. As principais ocorrências mapeadas se concentram em estados como Goiás, Minas Gerais, Amazonas e Bahia, todos eles já profundamente ligados à expansão agropecuária. Apesar disso, a produção nacional ainda é mínima, girando em torno de 1% da oferta global.

Enquanto isso, a demanda acelera. Entre 2020 e 2024, a produção mundial desses óxidos saltou de cerca de 240 mil para 390 mil toneladas, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, e projeções da Agência Internacional de Energia apontam para um aumento potencial de sete vezes no consumo até 2040, puxado pela transição energética e pela digitalização da economia. Num mercado ainda altamente concentrado, com a China respondendo por cerca de 60% da extração e quase 90% do refino, países consumidores buscam fornecedores alternativos. Nesse tabuleiro, o Brasil aparece como candidato natural a ocupar um lugar mais relevante.

Esse movimento começou a ganhar corpo com a entrada em operação, em 2024, da primeira mina de terras raras em escala industrial no País, o projeto Serra Verde, em Goiás. A jazida, em argilas alteradas, sinaliza que podemos produzir com custos competitivos e, com investimentos adequados, chegar a suprir até 10% da demanda global nos próximos anos. É um salto ambicioso para um mercado em que, até pouco tempo atrás, o Brasil era apenas coadjuvante.

A relevância econômica e geopolítica do tema já chegou à agenda de Brasília. No Congresso, tramita o Projeto de Lei 2.780/24, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com mecanismos como fundo garantidor de crédito para viabilizar investimentos em mineração e incentivos para empresas que utilizem esses minerais em seus produtos. A expectativa é que, entre 2025 e 2029, o País receba mais de US$ 2 bilhões de dólares em projetos ligados a terras raras, consolidando um lugar de destaque na nova economia global.

Mas o que tudo isso tem a ver com o produtor rural e com a agroindústria? Praticamente tudo. Elementos de terras raras são hoje insumos fundamentais em tecnologias limpas e avançadas, de geradores eólicos a motores de veículos elétricos, passando por smartphones, equipamentos de telecomunicações, sensores e sistemas de defesa. No campo, a dependência é crescente. A eletrificação de frotas de curta distância, o desenvolvimento de tratores e pulverizadores autônomos, a disseminação de sensores e estações meteorológicas conectadas e o uso de redes 4G/5G privadas em fazendas e agroindústrias dependem de motores de alto desempenho e componentes eletrônicos sofisticados – todos fortemente baseados em terras raras. Ao mesmo tempo, a interiorização de parques eólicos e solares, que já transforma a matriz de energia de cooperativas e agroindústrias, só se viabiliza na escala necessária com acesso estável a esses materiais.

Há ainda um fator ligado ao território. As áreas mais promissoras para a exploração de terras raras – em Goiás, Minas, na Bahia e no Amazonas – coincidem com regiões de forte presença do agronegócio, de grãos e fibras à pecuária e às florestas plantadas. Isso abre espaço para um processo integrado de desenvolvimento: corredores logísticos, linhas de transmissão, infraestrutura de dados e serviços especializados que sirvam simultaneamente à mineração de minerais críticos e às cadeias agroalimentares. Em vez de dois mundos separados, a chance é criar arranjos produtivos em que a fazenda e a mina conversem entre si.

O caminho, porém, está longe de ser simples. O País enfrenta entraves institucionais importantes: o licenciamento ambiental para projetos de mineração pode levar até dezesseis anos, em um ambiente de regras complexas e insegurança jurídica que desestimula investimentos. No caso das terras raras, o desafio é ainda maior, porque o processamento pode gerar resíduos químicos tóxicos e, em certas condições, materiais com potencial radioativo, se não houver controle rigoroso. Qualquer projeto sério precisa nascer com soluções de sustentabilidade embutidas, sob pena de comprometer justamente o discurso de transição verde que sustenta a demanda global.

Do ponto de vista tecnológico, o Brasil ainda engatinha na etapa em que se agrega mais valor: a separação química e o refino dos diferentes elementos, processo complexo e caro que transforma um concentrado bruto em insumo de alta tecnologia. Hoje, a regra é exportar compostos mistos de menor valor para que a separação final ocorra no exterior. Há, contudo, sinais de virada. Um dos mais relevantes é o consórcio MagBras, que reúne pesquisadores brasileiros e grandes empresas como a mineradora Vale, a fabricante de motores WEG e a montadora Stellantis para estruturar uma cadeia nacional de ímãs de terras raras e aplicações industriais. Segundo André Pimenta de Faria, um dos idealizadores do consórcio, o Mag-Bras nasceu com a proposta de conectar pesquisadores com a demanda industrial. Na mesma direção, em 2024 foi inaugurada em Lagoa Santa (MG) a primeira unidade unidade-piloto de ímãs de terras raras do País, mostrando que é possível fabricar componentes de maior valor agregado com tecnologia brasileira.

Nesse contexto, modernizar regras, acelerar licenciamentos com segurança jurídica, estimular investimentos e fortalecer a base tecnológica são fatores essenciais para o desenvolvimento do setor. Isso significa trazer para dentro do País não apenas a etapa de extração, mas também o refino e a fabricação de componentes, de ligas especiais a ímãs para motores e turbinas. Só assim a riqueza mineral se converte em riqueza industrial e tecnológica, com empregos qualificados, menor vulnerabilidade externa e capacidade de negociar em pé de igualdade em cadeias globais que impactam diretamente o agro.

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