Lucas Bresser

O avanço do agronegócio brasileiro vem promovendo uma transformação importante na malha aérea do País, especialmente no Centro-Oeste. Segundo levantamento da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), os aeroportos da região registraram aumento expressivo no movimento de passageiros entre janeiro e agosto de 2025. No período, passaram pelos terminais 16,27 milhões de pessoas em voos domésticos e internacionais, diante de 15,12 milhões nos mesmos meses de 2024 – um crescimento de 7,6% nos embarques e desembarques. O terminal de Brasília (DF) segue como o mais movimentado do Centro-Oeste, mas os aeroportos de cidades onde o agronegócio prevalece também se destacam. Em Goiânia, agosto de 2025 marcou um resultado histórico: o aeroporto da capital goiana registrou 337.052 passageiros, superando os 294.382 do mesmo mês de 2024 e estabelecendo um novo recorde mensal na série dos últimos dez anos. No Mato Grosso, o Aeroporto aeroporto de Sinop também apresentou forte crescimento, com 43.423 passageiros em agosto – aumento de 30,2% em relação aos 33.354 do ano anterior. Impulsionado pelo agronegócio, o terminal já soma 300.858 passageiros nos oito primeiros meses de 2025, consolidando-se como um dos principais polos de aviação do norte do estado.
O resultado reforça a tendência de expansão do transporte aéreo no Centro-Oeste, fortemente impulsionada pelo dinamismo do agronegócio, que movimenta executivos, técnicos, investidores e insumos em ritmo crescente. “A região Centro-Oeste tem um papel estratégico para o desenvolvimento do País”, destacou o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho. “Esse crescimento reflete o avanço dos investimentos em infraestrutura aeroportuária realizados pelo governo federal, garantindo conectividade aérea para que mais brasileiros possam viajar.” Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), apenas no primeiro semestre de 2025 foram aplicados R$ 5,6 bilhões em obras de ampliação, modernização de terminais e melhorias operacionais em aeroportos de todas as regiões, com destaque para empreendimentos estratégicos no Centro-Oeste. As intervenções vão desde a expansão de pistas e áreas de embarque até a instalação de novos equipamentos de segurança e acessibilidade, elevando os padrões de conforto, eficiência e segurança para passageiros e companhias aéreas.


A Centro-Oeste Airports (COA), concessionária responsável pelo Aeroporto Internacional de Cuiabá e pelos terminais de Sinop, Rondonópolis e Alta Floresta, todos no Mato Grosso, registrou mais de 2,3 milhões de passageiros entre embarques, desembarques e conexões de voos domésticos regulares de janeiro a setembro de 2025. O destaque foi o crescimento de 25% em Rondonópolis. Na aviação geral, os quatro terminais contabilizaram 30,3 mil operações no mesmo período – um aumento de 15% em relação a 2024, quando haviam sido registradas 26,3 mil movimentações. O setor cargueiro também manteve trajetória positiva: entre janeiro e setembro, os aeroportos administrados pela COA movimentaram 8,6 mil toneladas, alta de quase 5% sobre as 8,2 mil toneladas do mesmo intervalo do ano anterior.
De olho nessa expansão, as companhias aéreas se movimentam. Em setembro, a Latam Airlines Brasil iniciou voos regulares para Dourados (MS). Segundo o site especializado Aeroin, a prefeitura municipal registrou 3.184 passageiros transportados no primeiro mês de operações no Aeroporto Regional Francisco de Matos Pereira. Operando com aeronaves Airbus A319, com capacidade para 140 passageiros, a empresa realizou 13 voos decolando de Dourados rumo ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), levando 1.664 viajantes, e outros 13 voos de chegada, que trouxeram 1.520 passageiros ao município. A ocupação média dos voos que partiram de Dourados foi de 128 passageiros, com o recorde de 136 assentos ocupados em 6 de outubro. As decolagens ocorrem às 9h20 e os pousos às 8h40, em frequências regulares às segundas, quintas e sextas-feiras. A Latam ainda opera voos domésticos de/para sete destinos na região Centro-Oeste: Brasília (DF) – segundo maior hub de conexões da companhia no Brasil –, Goiânia (GO), Cuiabá e Sinop (MT), além de Campo Grande, Bonito e Dourados (MS). “A Latam avalia todas as oportunidades para ampliar de forma sustentável a conectividade de sua malha e segue atenta ao potencial de turismo e negócios da região Centro-Oeste”, informou a empresa em nota.

A GOL também tem registrado aumento significativo na oferta de voos e assentos no Centro-Oeste. Neste segundo semestre, a companhia pretende ampliar em 10% a oferta na região. Para a alta temporada de verão, de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026, planeja um salto de 18% na disponibilidade de assentos em relação ao ano anterior, totalizando até 15.000 voos e 2,7 milhões de lugares. Considerando todos os destinos que a companhia classifica como “corredores vitais para a agricultura, pecuária e exportação” – como Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Tocantins, Maranhão, Pará, Rondônia, Mato Grosso, Santa Catarina e regiões de São Paulo como Ribeirão Preto e São José do Rio Preto –, a GOL ampliou a oferta em 19% no segundo semestre de 2025 frente ao mesmo período de 2024. “Nosso compromisso é conectar o Brasil que produz, pujante na agricultura e pecuária, com o resto do País e o mundo”, diz Mateus Pongeluppi, vice-presidente comercial da GOL. “A aviação tem papel essencial no avanço do agronegócio e no crescimento regional. Ao conectar polos como Campo Grande, Cuiabá, Goiânia e Sinop, fortalecemos cadeias produtivas, ampliamos oportunidades e impulsionamos o desenvolvimento do Brasil.”
A Azul, por sua vez, opera cerca de 3,3 mil voos mensais na região Centro-Oeste, entre chegadas e partidas, em 13 localidades atendidas e 20 rotas voadas. No total, oferece cerca de 468 mil assentos de/para os aeroportos da região. Segundo dados da Anac, de janeiro a agosto deste ano, a Azul embarcou 1,55 milhão de clientes em 14,8 mil decolagens nos aeroportos do Centro-Oeste. Os terminais com maior fluxo da companhia são Cuiabá, Brasília e Goiânia. “O Centro-Oeste é uma área estratégica dentro do planejamento da nossa malha, pois concentra polos produtivos importantes e uma crescente demanda por deslocamentos rápidos e eficientes, tanto para negócios quanto para lazer”, diz Ricardo Bezerra da Silva, gerente-geral comercial da Azul. “A companhia busca conectar esses centros a outros destinos do País, fortalecendo o acesso a mercados e fomentando a economia local.”
A diretora de gestão Gestão estratégica Estratégica da Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), Thairyne Oliveira, ressalta a importância do crescimento da região no contexto da malha aérea nacional: “A conectividade do Brasil passa pelo Centro-Oeste, uma região de capitais importantes, marcada pelo turismo e pela força do agronegócio”, diz. “O aumento na movimentação de passageiros em 2025 reflete a economia aquecida, projetando uma evolução positiva e contribuindo para que a aviação civil brasileira alcance resultados ainda melhores nos próximos meses.” Para acompanhar essa expansão, o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, prevê R$ 10,2 bilhões em investimentos em aeroportos brasileiros, dos quais R$ 9,2 bilhões estão relacionados aos 49 terminais já concedidos à iniciativa privada. A administração federal ainda planeja investir R$ 1 bilhão em 46 ações voltadas à retomada de obras paralisadas e à elaboração de estudos e projetos de reforma e construção de aeroportos regionais em todo o País.



E não é só nos jatos e turboélices com dezenas ou centenas de assentos que o transporte aéreo ligado ao agro cresce. Cada vez mais, o setor vê na aviação executiva um caminho para ganhar tempo, ampliar conexões e expandir áreas de atuação. O Brasil ultrapassou recentemente a marca de 1.000 jatos executivos registrados, tornando-se o segundo maior mercado do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo a Airbus Corporate Jets (ACJ), o País conta com 1.103 jatos privados. A empresa também aponta que a idade média da frota na América Latina é de 24,5 anos, acima da média global de 18,1, o que indica um potencial de renovação nos próximos anos. No segundo trimestre de 2025, a Embraer entregou 38 jatos executivos, um aumento de 41% em relação ao mesmo período de 2024. De acordo com a Anac, o Brasil possui 3.689 aeródromos privados, dos quais 1.635 estão no Centro-Oeste. A ampla maioria ainda tem pistas de grama, cascalho ou terra, utilizadas principalmente por produtores e empresas do setor agropecuário para decolar e pousar aviões movidos a pistão ou turboélices. No entanto, a tendência é de renovação de frota e modernização das pistas.

Para Marcelo Trentini, comandante de jato Embraer Phenom 300E que opera para uma grande empresa do setor agropecuário baseada em Rondonópolis, o avião deixou de ser símbolo de luxo e passou a ser visto como instrumento de trabalho e vetor de crescimento. Para produtores e empresários rurais, especialmente em estados como Mato Grosso e Goiás, a aviação executiva encurta distâncias, amplia a eficiência das operações e, sobretudo, economiza o recurso mais valioso de quem gere grandes negócios: o tempo. Essa autonomia logística permite chegar rapidamente a fazendas, unidades industriais e eventos do setor, em locais onde o acesso terrestre seria lento ou inviável.
Segundo Trentini, nos últimos anos o avanço do agro impulsionou uma mudança estrutural no perfil da frota e na cultura aeronáutica do interior do País. “Em 2004, havia apenas um jato executivo em todo o Mato Grosso. Hoje, são dezenas de jatos e centenas de turboélices operando no estado, além de um número crescente de pistas privadas”, afirma. “O agronegócio reconheceu na aviação executiva um aliado estratégico para expandir operações e ganhos”, diz. Essa expansão veio acompanhada de investimentos em tecnologia, treinamento e segurança operacional. “Cada vez mais, produtores e empresas valorizam o treinamento e a capacitação de pilotos, entendendo que esses fatores se refletem diretamente na segurança das operações”, afirma o comandante. Com mais de 6.000 horas de voo. , Trentini avalia que o crescimento da aviação executiva no agro segue uma curva acelerada, e que os próximos dez anos devem trazer avanços superiores aos das últimas décadas, com mais jatos e turboélices e uma transição gradual das aeronaves a pistão para modelos mais modernos e eficientes. O interesse geral pelo tema também é evidente: nas redes sociais, Trentini acumula mais de 1 milhão de seguidores entre YouTube, Instagram e TikTok.
Apesar dos avanços, a aviação ainda enfrenta grandes desafios na região. Para Mateus Pongeluppi, da GOL, o ambiente operacional no Brasil impõe altos custos fixos e variáveis às companhias, muitos deles fora do controle das empresas. Entre os principais fatores estão gastos dolarizados, volatilidade cambial e judicialização. “Outro desafio operacional é a infraestrutura de algumas cidades que ainda não possuem aeroportos preparados para receber aeronaves de maior porte, como os Boeings 737, frota única operada pela GOL”, afirma. Ricardo Bezerra da Silva, da Azul, também cita os custos operacionais e a infraestrutura aeroportuária limitada em alguns municípios, o que pode restringir o tipo de aeronave e a frequência de voos. “Mesmo diante desses obstáculos, a Azul tem conseguido avançar graças ao modelo de negócio voltado à aviação regional e à frota diversificada, que inclui aeronaves como o ATR e o Cessna Caravan, ideais para operar em aeroportos menores e em rotas de curta distância”, diz o executivo.

No caso da aviação executiva, a infraestrutura das pistas e terminais também é um dos principais gargalos. Em muitas localidades do Centro-Oeste e de outras regiões agrícolas, os aeródromos carecem de estrutura básica, manutenção adequada e serviços de apoio compatíveis com o volume crescente de operações privadas. Para Marcelo Trentini, ainda há a percepção de que a aviação executiva é secundária, e não uma atividade econômica relevante, o que se reflete em administrações aeroportuárias pouco preparadas e investimentos aquém do necessário. Essa carência limita o potencial logístico de um segmento que se tornou essencial para o agro. “Por outro lado, há exemplos inspiradores de modernização, como o terminal do Grupo Bom Futuro em Cuiabá, que oferece infraestrutura de padrão internacional e mostra que o setor privado pode ser protagonista nessa transformação”, diz o comandante.


A expansão da aviação comercial ligada ao agronegócio e o aumento da frota executiva criam um campo fértil de oportunidades, tanto para investimentos em aeroportos regionais quanto para o desenvolvimento de serviços especializados e de maior qualidade. Só assim será possível acompanhar o ritmo acelerado de crescimento e profissionalização do agro brasileiro.
A decolagem já aconteceu. Agora, é hora de voar cada vez mais alto.

