De volta às raízes

Em um momento de alta popularidade da música country, um grupo crescente de artistas reforça a sonoridade tradicional do gênero
Edição: 52
26 de janeiro de 2026

Por André Sollitto

Quando a cerimônia do Grammy Awards acontecer, em fevereiro de 2026, será inaugurada a categoria de Melhor Álbum de Country Tradicional. A nova distinção, anunciada neste ano pela Recording Academy, tem o objetivo de dar visibilidade a artistas essenciais que ficaram à margem do country dominante no rádio – o chamado Country Mainstream, historicamente concentrado em poucos nomes de forte apelo comercial. Até agora, a categoria de Melhor Álbum de Country reunia todas as vertentes e acabava monopolizada pelos artistas mais populares do estilo, deixando de fora uma cena que reacendeu o interesse pelo country de raiz. A criação do novo prêmio marca uma abertura simbólica no maior palco da música, em sintonia com a ascensão do Country Neotradicional, movimento que revisita referências de décadas passadas e recupera a rusticidade das narrativas, a estética sonora e o repertório instrumental do country clássico.

Na edição inaugural da categoria de Melhor Álbum de Country Tradicional, a lista de indicados reflete a vitalidade do estilo. Aos 92 anos, o lendário Willie Nelson concorre com o álbum Oh What a Beautiful World, enquanto seu filho, o cantor e compositor Lukas Nelson, disputa o prêmio com o trabalho American Romance. Do Texas, o fenômeno indie Charley Crockett aparece na corrida com Dollar a Day. A presença feminina na cena ganha voz com a cantora Margo Price, indicada por Hard Headed Woman. Mas as apostas do mercado apontam para um nome como franco favorito: Zach Top, um dos expoentes do revival neotradicional, chega embalado pelo elogiado disco Ain’t in It for My Health, que sintetiza o apelo popular e a reverência crítica ao country de raiz.

Margo Price, Zach Top e Willie Nelson: diferentes gerações mostram o valor e a resistência de um estilo musical que transcende o tempo
Chris Stapleton (à esq.), Charley Crockett e Sierra Ferrell: o country comporta invenção e reinvenção permanentes e sua história mostra que nostalgia é sinônimo de longevidade

A conexão com o passado acompanha a música country desde sua gênese, há quase um século. Em 1927, o produtor e engenheiro de som Ralph Peer registrou gravações que se tornariam marcos fundadores do gênero, incluindo as sessões de Jimmie Rodgers e do coletivo familiar The Carter Family. Boa parte das canções gravadas nesse período não era inédita. Muitas circulavam havia cerca de três décadas, escritas ainda no fim do século 19 e absorvidas pelo repertório oral do sul americano. A nostalgia e o olhar para outros tempos, portanto, não são um resgate recente, mas um elemento essencial do country, um gênero que constrói sua identidade revisitando memórias, paisagens e afetos de épocas anteriores.
Basta observar os ciclos do mercado e como artistas tendem a recalibrar a sonoridade quando ela flerta demais com o pop. Foi o que ocorreu nos anos 1970, quando vozes como Johnny Cash e o movimento capitaneado por Outlaw Country – puxado também por Waylon Jennings – romperam com o polimento comercial que dominava os hits gestados em Nashville para abraçar um som mais cru, visceral e calcado na noção de “autenticidade”, mudando a gramática do gênero.

No fim dos anos 1980, quando sintetizadores e verniz pop se tornaram norma nas paradas, outra correção de rota floresceu: uma nova geração passou a revisitar a estética sonora do country clássico. Essa guinada deu forma à “Classe de 1989”, encabeçada por Garth Brooks e pelo cantor Alan Jackson, artistas que reaproximaram o estilo de suas raízes e hoje figuram entre os pilares históricos da música country.

Já nos anos 2010, as rádios americanas foram dominadas pelo fenômeno do Bro-Country – o som que misturava batidas do hip-hop, loops eletrônicos e uma estética festiva. A ascensão desse subgênero acendeu o que críticos e fãs chamaram de “guerra civil do country”: de um lado, veteranos e guardiões da tradição; do outro, uma nova geração que celebrava temas como bebida, mulheres e picapes – combinação explosiva para um gênero historicamente fincado em mitologias rurais, narrativas de estrada e melancolia honesta. Foi desse atrito cultural e estético que floresceu a onda atual de neotradicionalistas.

O que caracteriza a música country considerada autêntica? Não há definição única, mas certos elementos sinalizam tradição. Instrumentos acústicos formam um desses pilares, como o banjo e o violino, no universo country reverenciado como “fiddle”. Outro traço marcante é a sonoridade deslizante da pedal steel guitar, cujo timbre modulável ajudou a definir a paisagem sonora do country clássico. Nas formações que abraçam guitarras elétricas, um timbre específico virou assinatura do gênero – o twang, som brilhante, cortante e levemente nasal eternizado por modelos como a guitarra Fender Telecaster, ícone do twangy que embala canções de estrada. Nas letras, o repertório recorre a mitologias duradouras – a vida rural, amores contrariados e a crença de que tudo era melhor em outros tempos, um sotaque emocional que faz da nostalgia um dos idiomas mais persistentes do gênero.

O trunfo dessa fase é o equilíbrio entre nostalgia e frescor, capaz de atrair tanto fãs veteranos quanto uma geração mais jovem que vem redescobrindo o country. É um apelo que o cantor Zach Top descreveu com precisão em entrevista ao canal da marca de jeans Wrangler: “Acho que talvez parte da razão pela qual as pessoas gostam tanto da minha música é que ela não é uma jogada de marketing dos anos 1990”, afirmou. A autenticidade do depoimento ecoa a própria história do gênero, marcado por reinvenções que dialogam com referências do passado, sem jamais se render por completo a elas.

Top, Lukas Nelson e outros artistas preteridos nas indicações recentes ao Grammy Awards vivem um paradoxo revelador – lotam arenas e estádios. O caso mais emblemático é o de Sierra Ferrell, que no ano passado levou cinco troféus com o celebrado álbum Trail of Flowers e se firmou como uma das vozes mais magnéticas da nova cena, capaz de combinar raiz e ousadia com aclamação de massas. O crítico Trigger resumiu: “Sierra Ferrell pegou músicas completamente antiquadas e arcaicas e, por meio de sua magia, as tornou extremamente populares e atraentes, algo que ninguém jamais imaginaria ser possível na era moderna”, escreveu. A mesma tensão aparece na trajetória de Chris Stapleton, que ultrapassou a marca de 10 milhões de cópias vendidas com o cultuado disco Traveller, de 2015, e segue em ascensão pelos maiores palcos dos Estados Unidos.

O cantor e compositor Lukas Nelson, filho de Willie Nelson: suas músicas contagiantes lotam arenas e estádios mundo afora e concorrem a prêmios do Grammy

A energia do country clássico, especialmente a estética que remete aos anos 1990, sublinha um traço central do gênero: tradição como símbolo de identidade, mesmo em fases de alta popularidade. Desde 2019, uma sequência de hits recolocou o estilo no centro do mainstream pop global. Como observaram os críticos, “o country ficou cool de novo”. Um símbolo dessa virada foi o rapper Lil Nas X, que viralizou com a faixa Old Town Road ao lado de Billy Ray Cyrus, numa colisão pop que expandiu as fronteiras do gênero.

Em 2024, Beyoncé lançou o álbum Cowboy Carter, apoiado em códigos country para iluminar a contribuição negra na formação do estilo. Nessa mesma onda, o artista Post Malone, associado ao trap, reconfigurou visual e sonoridade: trocou tênis por botas de cowboy e gravou um projeto country inteiro em colaborações que iam de vozes neotradicionais como Sierra Ferrell e Chris Stapleton a nomes de apelo massivo como Morgan Wallen e Jelly Roll. O country comporta invenção e reinvenção permanentes e sua história mostra que a nostalgia também é sinônimo de longevidade.

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