Por Romualdo Venâncio, de Alta Floresta (MT)
Basta aumentar em apenas 1% a vacinação do rebanho de corte brasileiro que o volume de produção pode crescer 0,7%. Se a taxa anual de aplicação de vacinas desse mesmo plantel atingir 40%, a demanda de terras para a pecuária pode cair 12,8%. Esses e outros dados do relatório Animal Health and Sustainability: a Global Data Analysis, produzido pela Oxford Analytica, demonstram o impacto da saúde e do bem-estar animal no equilíbrio entre o avanço da produtividade de carne bovina e a preservação ambiental.
O estudo, organizado e apresentado pela HealthforAnimals (Global Animal Health Association), em parceria com a Global Roundtable for Sustainable Beef (GRSB), mostrou a influência da vacinação sobre o abastecimento mundial de carne bovina. Com uma taxa anual global de imunização do gado de corte em 60%, a produção saltaria 52,6%, acréscimo equivalente ao consumo de carne bovina de mais de 3 bilhões de pessoas. Se as taxas de doenças dos bovinos caíssem 1%, o ganho em produção seria suficiente para suprir a demanda anual de carne bovina de 317 milhões de pessoas.

Essa é apenas uma das várias pesquisas que deixam explícita a estreita relação entre os protocolos de saúde e bem-estar animal e a sustentabilidade da produção de carne bovina, ligação que se vê, na prática, na rotina diária da Fazenda Bacaeri, de Alta Floresta (MT). É por isso que o administrador da propriedade, Fernando Passos, se tornou o destaque do quinto episódio da websérie Top Sustainable Livestock, iniciativa dedicada a demonstrar como a pecuária pode unir produtividade, rentabilidade e responsabilidade socioambiental. Por meio de exemplos concretos já aplicados no País, a série revela caminhos reais para transformar o setor em um modelo de produção sustentável, provando que preservar e prosperar podem caminhar lado a lado. Ela será veiculada no Canal Terraviva, do Grupo Bandeirantes, e é realizada por PLANT PROJECT em parceria com a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável (MBPS), com apoio dos projetos SAFe e ProTS, implementados pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH em parceria com o Mapa, IDH Transforming Markets, MSD Saúde Animal e ApexBrasil.
Passos assumiu a direção da Fazenda Bacaeri em 2014, sucedendo o próprio pai, Antônio Passos, que comprou a propriedade em 1995. “Ele passou para uma posição mais estratégica, até para que pudesse tocar outros projetos”, diz o atual gestor, que antes de chegar a essa posição passou por uma preparação intensiva para entender em detalhes todo o negócio. “Passei três anos praticamente morando na fazenda para conhecer toda a parte produtiva e o dia a dia da empresa.” Quando recebeu o bastão, a Bacaeri já era uma referência em sustentabilidade.
A largada no campo produtivo aconteceu em 1996, com as atividades de reflorestamento e pecuária de corte tocadas de forma independente, cada uma com seu espaço. Das espécies de árvores testadas por Antônio, só vingou a teca (Tectona grandis), planta nativa da Ásia. Nascido em Clevelândia, no interior do Paraná, o fundador da Bacaeri chegou a Mato Grosso em 1983, para trabalhar com lâminas de madeira nativa, e já preocupado com a manutenção das árvores. “Meu pai iniciou os primeiros reflorestamentos em 1989, mas o projeto não foi adiante devido à falta de conhecimento técnico e a outras dificuldades”, diz.

Na Bacaeri, o projeto não só vingou como cresceu. Em 2008, diante da limitação de espaço para a expansão das atividades, veio a implementação do sistema silvipastoril, com a produção de teca e gado Nelore. No ano seguinte, a fundação da Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop (MT), trouxe um novo impulso à iniciativa, com a formação de uma parceria técnica que ampliou as proporções dessa integração pecuária-floresta, a ponto de ser batizada como Sistema Bacaeri – BoiTeca. Para Antônio, essa conquista validou as escolhas que vinha fazendo desde o início.
A área de produção agropecuária da Fazenda Bacaeri soma 6,6 mil hectares, dos quais mil são ocupados pelo sistema silvipastoril de gado e madeira. A combinação de animais e árvores ocupa ainda outros 1,6 mil hectares, mas com a parte de cria do rebanho. O espaço dedicado exclusivamente à pastagem é dividido entre mil hectares para recria e 500 ha com a terminação intensiva a pasto (TIP). Uma área de 1,5 mil hectares é destinada à integração de pecuária e lavoura (arrendada para plantio de soja) e o restante (mil hectares) está em processo de recuperação ou melhoria. Essa divisão entre área e atividade pode variar de ano para ano de acordo com os índices do mercado.
O plantel de matrizes é composto por 2,2 mil fêmeas, entre novilhas e vacas primíparas, que chegam no máximo até uma segunda prenhez. Já o rebanho de produção flutua entre 11 mil e 13 mil cabeças. A produção de boi gordo é feita a partir da recria e da engorda de machos, sendo que até 15% são animais nascidos na própria fazenda e os outros 85% são adquiridos de produtores da região. A reprodução acontece apenas por inseminação artificial em tempo fixo (IATF), buscando o melhor aproveitamento do potencial genético, com uma seleção apurada, sobretudo dos reprodutores.

Em todas as fases da vida, os animais são tratados com o máximo cuidado, para que expressem o melhor de sua produtividade. O sistema silvipastoril contribui para tal condição, ao oferecer sombra e um ambiente mais agradável ao gado. “Essa integração manteve a produção pecuária com provável favorecimento ao ganho de peso do rebanho, adicionando uma segunda atividade”, afirma Fernando Passos. “Ainda não temos dados fechados do quanto isso impacta em termos de produtividade, mas vemos que os animais preferem ficar sob a sombra no período mais quente do dia, das 10 às 14 horas.” De acordo com o gestor, no período de seca, entre julho e agosto, a temperatura gira em torno de 40 °C durante o dia e cai para até 16 °C à noite.
Outro destaque em relação ao bem-estar do rebanho é o fornecimento de água, tanto em volume quanto em qualidade. Embora a região seja rica em nascentes e lagoas, foram construídos reservatórios para intensificar o controle do abastecimento. A fonte principal é uma grande represa que já existia na propriedade. A partir dali, a água é bombeada para os reservatórios e, com o auxílio da força da gravidade, distribuída para os cochos. “Além da maior segurança quanto ao fornecimento, caso algum lago se esgote em uma seca mais forte, garantimos uma água mais limpa e evitamos alguma doença que possa ser transmitida nesse abastecimento”, diz Fernando.
A visão do administrador da Fazenda Bacaeri é compartilhada pela fundadora da BE.Animal, Janaina Braga: “Na prática, o animal bem cuidado vai produzir mais e adoecer menos, o que consequentemente contribui para um sistema mais eficiente, que preserva o ambiente e valoriza as pessoas”. Para a especialista, a responsabilidade com o bem-estar animal dentro das fazendas gera resultados positivos que vão além dos índices de produtividade e até dos limites da propriedade. “A promoção do bem-estar animal deve ser vista como uma estratégia de negócio, um caminho a ser trilhado por aqueles que querem liderar, ou por todos aqueles que querem estar presentes no futuro do agronegócio mais sustentável”.

O cuidado com o bem-estar animal passa também pela qualidade nutricional e pelos protocolos sanitários que priorizam a prevenção. O rebanho é todo criado a pasto com capim-marandu (Brachiaria brizantha cv. Marandu), forragem que está sendo substituída por cultivares de Panicum, como Mombaça, Massai, Paredão, Zuri e Quênia. Os animais também recebem suplementação com proteinado de baixo consumo, correspondente a cada fase da vida.
No campo da saúde, o cuidado vem desde a compra de animais. “Procuramos comprar gado somente de áreas controladas, que conhecemos bem”, diz Fernando. Os recém-chegados à propriedade são apartados em um pasto específico para a quarentena sanitária. Se ao final desse período estiverem comprovadamente saudáveis, são incorporados ao rebanho e a toda a rotina de manejo e produção. O calendário nacional de vacinação é cumprido à risca, inclusive com a aplicação de imunizantes fora dessa lista, mas que potencializam a prevenção. Além disso, há uma dedicação intensa à preparação das equipes, para que estejam aptas a identificar com clareza os sintomas de zoonoses.

A fazenda conta ainda com a consultoria profissional de um engenheiro agrônomo, que orienta sobre todo o dimensionamento de pastagem, cochos, fornecimento de água e outros pontos do manejo nutricional e sanitário. Especificamente em relação à dieta, a assessoria é realizada pela Fortuna Nutrição Animal. Já a parte sanitária é atendida pela MSD Saúde Animal Brasil. Segundo o gerente de desenvolvimento de Negócios de Rastreabilidade da companhia, Luciano Lobo, esse processo é aprimorado pela identificação individual do rebanho. “Toda a jornada de identificar os animais, de fazer boa gestão, conferir a rastreabilidade do processo, utilizar soluções que previnem doenças e manejar bem esse sistema produtivo, sem dúvida, terá impacto positivo na sustentabilidade”, afirma o executivo.
Se depender dos planos da Fazenda Bacaeri, os protocolos de saúde e bem-estar precisarão ser intensificados. A expectativa é ampliar a produção pecuária e de madeira nas áreas ainda em recuperação e melhoria. E há perspectivas de investimentos em outros segmentos, para otimizar ainda mais a utilização dos espaços da propriedade e abastecer demandas internas. Algumas áreas menores podem ser destinadas ao cultivo de verduras e produtos como mandioca e milho, entre outros. Já no campo da proteína animal, podem surgir projetos com carneiro, suínos e galinhas, todos criados a campo.

