Por Mário Sérgio Venditti
Uma nova brisa sopra sobre o agronegócio brasileiro. Ela vem da juventude que assume funções cada vez mais relevantes, trazendo energia renovada, ideias inovadoras e uma visão de futuro alinhada às práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) aplicadas dentro da porteira. Isso não significa que as gerações anteriores estejam em retirada – a experiência acumulada no campo continua insubstituível. Mas o olhar fresco dos jovens simboliza renovação, traduzida na aposta em tecnologia, na disposição para experimentar novas formas de gestão e na capacidade de tomar decisões mais abertas e modernas.
Um número crescente de homens e mulheres, herdeiros ou não, compõe esse perfil rejuvenescido da administração rural. Eles também vêm rompendo com a antiga mentalidade de reter conhecimento, que por muito tempo afastou a nova geração do campo. “Muitos pais não mostravam o lado positivo da lida rural e tampouco se perguntavam: ‘Quem vai cuidar da minha fazenda no futuro?’”, diz a engenheira agrônoma Silvana Novais, gerente da Mulher, do Jovem e da Inovação da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e uma das coordenadoras do CNA Jovem, programa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Senar, criado para identificar e desenvolver novas lideranças no setor.
Ela conta que a pandemia de Covid-19, em março de 2020, ajudou a quebrar a resistência dos mais velhos, que sentiram a necessidade de ter os filhos por perto e os reaproximaram das fazendas. “Muitos passaram a encarar as atividades rurais como profissão e não voltaram para as cidades”, diz. Foi exatamente o que aconteceu com Isabela Lopes Cardoso, 25 anos. Herdeira de uma família de agricultores e criadores de gado de corte e leite, ela não imaginava seguir a trajetória dos bisavós, avós, tios e de sua mãe, Sonia, na fazenda Analina, em Capitão Enéas (MG). “Queria algo diferente para minha vida”, relembra. “Pensava em estudar gastronomia, inspirada em minha avó, que era uma cozinheira de mão-cheia.” Mas, atendendo a um conselho da mãe, decidiu cursar administração em Belo Horizonte e depois trabalhou por quatro anos em um banco.
As lembranças dos dias vividos na fazenda limitavam-se ao lado afetivo, quando alimentava os filhotes de carneiros na mamadeira. O interesse pelo agronegócio desabrochou de tanto conviver com pessoas ligados ao setor. Passou nas fileiras do CNA Jovem, capacitou-se e hoje tem uma agenda repleta. Durante a semana, responde pelas áreas de marketing e eventos da Tecnutri, empresa da família especializada em nutrição animal localizada em Montes Claros (MG). Aos sábados e domingos, marca ponto na Analina para acompanhar de perto a criação e a engorda de 600 cabeças de gado. Isabela considera a irrigação de “sangue novo” fundamental no agronegócio. “Ou os mais velhos aceitam a presença dos jovens ou a atividade acaba”, diz. “A minha geração está trazendo mais informações, novas tecnologias de suplementação e soluções para melhorar as pastagens. Antes, esperava-se quatro anos para o abate. Esse tempo caiu para dois anos e meio.”
A catarinense Andrieli Ely, 25 anos, mora em Santa Terezinha do Progresso, cidadezinha de 2.500 habitantes no extremo oeste de Santa Catarina. Filha de produtores rurais, ela atua na bovinocultura de leite, embora a família tenha histórico na avicultura de corte por 22 anos. “Cresci dentro de um aviário”, diz. Era tão apaixonada pelas atividades da propriedade que aprendeu a dirigir trator aos 8 anos. Incentivada pelos pais, a partir dos 10 anos passou a receber uma mesada interessante: frações da produção. “Comecei com 0,5% e hoje toco as meias 50/50 na propriedade.”
Andrieli cogitou prestar vestibular para Veterinária, mas foi tomada por uma inquietação: “Eu precisaria sair da propriedade, deixando para trás meus pais com negócios ultrapassados”, diz. “Estávamos há dois anos sem recria de bezerras, um péssimo sinal para a leiteria.” A solução, então, foi estudar Administração de Empresas à distância, conciliando com o curso de auxiliar de veterinária. “Foquei esforços em recria de novilhas. Tratava-se de um grande desafio, porque a fazenda não tinha estrutura, espaço e nem rotina para isso.”
Valeu a pena. Em 2018, ela ganhou uma premiação no Clube da Bezerra, evento com o intuito de incentivar a sucessão familiar no agronegócio leiteiro. Foi a virada de chave para os pais se convencerem de que a produção de leite era o melhor investimento a ser feito na propriedade. No ano seguinte, a família montou uma estrutura para sala de ordenha, reprodução, recria de bezerras e inseminação artificial. Dessa forma, no ano passado Andrieli abandonou a avicultura, dedicando-se 100% à bovinocultura de leite. “Essa decisão foi uma consequência das escolhas de tempos atrás. Afinal, ganhei meu espaço na propriedade graças às mimosas. Tenho até uma tatuagem de vaca na perna”, brinca.
Para a jovem fazendeira, nenhuma propriedade prospera sem a visão de futuro trazida pela juventude, sempre respeitando as raízes dos antigos. “O conflito de gerações não é fácil”, diz. “O incentivo do meu pai não significa que ele concorde com todas as minhas ideias. Ele é de uma vivência sofrida e sistemática, eu sou de uma geração que quer tudo para ontem. Por isso, é importante encontrar o equilíbrio.”
O bom senso nas decisões também é uma preocupação da mineira Luiza Lima Gaio, 23 anos, que sempre viveu atrelada ao campo. Na infância, passava os fins de semana na fazenda do avô e sua paixão pelos animais a motivou a cursar Veterinária, graduação concluída no ano passado. Se os primos, crescidos, afastaram-se da fazenda, Luiza achou que a decisão mais sábia seria a de não abandonar as origens.
Ela não se arrependeu. Os laços com a zona rural eram fortes demais e a profissão estreitou a relação. “Cuido de 100 cabeças de gado leiteiro da Fazenda Morro da Mandioca, em Oliveira (MG), e implementei técnicas de genética que melhoraram a saúde dos animais e estimularam a produção de leite”, afirma. “Os mais antigos relutam na adoção de recursos avançados. Mesmo assim, a perspectiva é positiva para impor uma mentalidade diferente.”
O casal Igor Rodrigues Fernandes, 31 anos, e Thaís Milani Lage, 28, não só fincou os pés em uma propriedade em Santo Antônio do Amparo (MG) como deixou para trás carreiras promissoras. Ele, um engenheiro de produção de uma multinacional da cidade de Contagem; ela, uma jornalista em Belo Horizonte. “Estamos contrariando o estigma de que o agronegócio é reservado aos latifundiários”, diz Fernandes. Os dois cultivam café em 10 hectares de uma área total de 35, seguindo os passos do avô de Thaís, Pedro Lage, cafeicultor desde os anos 1970.
Eles fizeram uma imersão no mundo dos cafezais, aprenderam tudo sobre a classificação dos grãos e criaram uma marca de café especial, “O Casal do Café”, como são conhecidos na região. “Não existe uma lavoura de café especial”, diz Fernandes. “O que torna o grão diferenciado são fatores como colheita, processamento da pós-colheita e a torra. É um longo processo antes, durante e depois do cultivo.”
Os jovens não estão apenas na linha de frente das propriedades. Das porteiras para fora, muitos profissionais fazem brotar novas soluções, como Gustavo Vannucchi Ungari, nascido em Campinas (SP), há 27 anos. Sua sólida formação inclui o curso de Engenharia de Biossistemas na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA), no campus de Pirassununga da Universidade de São Paulo (USP), e MBA em Agronegócio também pela USP. “Trabalhei na organização internacional sem fins lucrativos Enactus, em projetos de consultoria voltados à cultura da cana-de-açúcar, e na empresa Raízen, no hub de inovações para produtores de pequena escala, ajudando-os a reduzir riscos com plantações economicamente viáveis”, diz.
A experiência acumulada lhe valeu um convite para ingressar na companhia de energia renovável Bioenergética Aroeira, alocado na Central Energética Tupaciguara (MG), que realiza a cogeração de energia a partir do bagaço de cana. Os conhecimentos de Ungari extrapolaram fronteiras. Em 2022, ele viajou para a Costa Rica, ao lado de mais dois brasileiros, a convite da agência NextGen, para acompanhar e apoiar a imersão de 20 jovens na agricultura sustentável, com a missão de elaborar ações específicas em plantações de banana e café. “Tivemos contato direto com os produtores locais, identificamos desafios e oportunidades e apontamos soluções”, diz.
A quase 3 mil quilômetros de distância de Ungari, em Rio Branco (AC), Manoela Souza Silva, 30 anos, é filha de pais assentados na cidade de Capixaba, no início dos anos 2000. Com o tempo, ela percebeu que teria de deixar a zona rural para conhecer um futuro melhor. Mudou-se para Rio Branco, terminou o Ensino Médio e ingressou na Universidade Federal do Acre, para cursar Engenharia Agronômica. Desenvolveu especial interesse por cacau e café e trabalhou em lavouras de milho, mandioca e feijão. “O principal entrave para quem se interessa pelo agronegócio é conseguir o primeiro emprego no setor”, afirma.
O talento foi acompanhado pelo suor da labuta diária. Em 2023, tornou-se sócia da empresa Yfagro, que presta assessoria aos profissionais do campo em questões como conflitos fundiários, regularização ambiental e crédito rural. “Dou assistência aos produtores rurais, algo que meu pai nunca teve”, diz. Uma das receitas ensinadas por Manoela aos clientes é produzir com sustentabilidade. A agenda ESG é o pilar do agronegócio moderno, principalmente na Região Norte, onde é permitido produzir em 20% das terras, deixando os outros 80% do bioma Amazônia preservados, segundo o Código Florestal Brasileiro”, afirma.
O consultor Marco Ripoli, diretor da PH Advisory Group, aplaude a chegada de homens e mulheres jovens no campo. “O nível de tecnologia evoluiu muito, principalmente na última década e isso ajuda a reter os jovens – cada vez mais conectados – na propriedade rural, revertendo o quadro de êxodo rural nas décadas de 1970 e 1980”, diz. Ripoli destaca que a revolução digital ajudou a modificar o pensamento das novas gerações, porque hoje elas encontram todas as condições e o conforto para se capacitar à distância – e próximos das famílias.
Em compensação, Ripoli alerta que a sucessão familiar no agro segue a passos lentos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somente 30% das propriedades chegam à segunda geração, número que despenca para 5% quando se fala em terceira geração. Ainda assim, a faixa etária dos agricultores brasileiros é de 46 anos, inferior às médias de Estados Unidos (58 anos), Europa (62) e Japão (68). “Apesar de todas as dificuldades, o Brasil mostra-se mais capaz de manter o jovem no campo”, acredita. “O produtor aceita mais facilmente investir nas inovações tecnológicas requisitadas pelos jovens se tiver, é claro, fôlego financeiro para isso e se o filho estiver montado no cavalo. Ou seja, tocando os negócios ao lado do pai”.
Força feminina
Programas da Nestlé ampliam o protagonismo das mulheres no agro
Algumas iniciativas fortalecem os vínculos entre empresas e produtores rurais. Um exemplo é a Nestlé, que criou, em 2019, o programa “Força da moça do campo” a fim de incentivar o empoderamento feminino na produção leiteira por meio da capacitação em diversos temas, como gestão de colaboradoras, gestão técnica e financeira, sustentabilidade e desenvolvimento pessoal.
De acordo com a companhia, mais de mil pessoas já foram impactadas nos últimos seis anos. Entre elas, as irmãs Maria Eugênia Jacinto Fleury e Marília Fleury Curado, que fazem parte dos 11 milhões de mulheres inseridas no agronegócio do País, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “As mulheres sempre estiveram no agro”, diz Silvana Novais, da Faemg. “A diferença é que agora elas se posicionam, criam conexões e redes de apoio, encabeçam a gestão das propriedades e promovem rodas de conversa nos sindicatos dos produtores rurais.”
Elas também participam do programa Nature por Ninho, voltado para a utilização de tecnologias de monitoramento animal, com foco em saúde, eficiência e bem-estar dos rebanhos. A Nestlé afirma que 72 fazendas parceiras adotam o colar de monitoramento de comportamento de 10 mil vacas.

