A economia da soja

    Por Amauri Segalla Um pequeno grão com não mais do que 130 milímetros cúbicos de


28.09.22

 

 

Por Amauri Segalla

Um pequeno grão com não mais do que 130 milímetros cúbicos de volume – algo como o tamanho de uma ervilha média – se transformou nos últimos anos num gigante brasileiro. Nenhum produto é capaz de rivalizar na geração de riqueza, na conquista de mercados mundo afora e na vocação para desenvolver ecossistemas inteiros de negócios. Não há equivalência quando se pensa em qualquer tipo de mercadoria, seja industrial ou nascida no campo, que tenha contribuído tanto para o surgimento de novas forças econômicas. No século 21, é impossível encontrar no Brasil qualquer correspondência em termos de importância comercial. Como se não bastasse, poucos alimentos – talvez nenhum – são tão completos. Nesse miúdo grão, escondem-se preciosidades como proteínas, carboidratos, vitaminas e outros nutrientes essenciais tanto para humanos quanto para animais. Graças a ele, bilhões de seres vivos alimentam-se com qualidade e outros tantos ganham a vida com dignidade. O milagre atende por um nome curto, mas de enorme presença na vida nacional: soja.

Basta olhar com atenção para os números divulgados em junho pelo Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) para compreender a real dimensão do chamado “Complexo Soja”, que engloba o produto em grão, o farelo e o óleo. Em 2021, esse grupo respondeu por praticamente um quarto (ou exatos 22,9%) das exportações brasileiras, à frente de carnes (16,9%) e produtos florestais (14,1%). Ou seja: a soja lidera com folga as vendas nacionais para o exterior e é a principal provedora de divisas para a balança comercial.

Como um todo, o Complexo Soja consolidou no ano passado sua condição de pilar da economia brasileira. De acordo com um estudo realizado em conjunto pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), as cadeias produtivas ligadas ao grão movimentaram no ano passado R$ 580 bilhões, o equivalente a 6,7% do PIB nacional. Não há nenhuma outra atividade econômica capaz de gerar, sozinha, tanta riqueza.

Diversos estudos econômicos comprovam a vitalidade do grão. Recentemente, ele foi tema de um robusto levantamento realizado por Marcos Fava Neves, professor titular do curso de Administração da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto e especialista em agronegócio, a partir de dados relativos à safra 2020/21. O trabalho traz dados impressionantes. No período, o Brasil respondeu por 51% de toda a soja exportada no mundo – é a maior participação da história. “Portanto, significa que capturamos mais da metade do mercado global de soja”, pontua Neves. Em cifras, o Brasil vendeu R$ 179 bilhões em grão, farelo e óleo para 65 países, mais do que qualquer outra nação, inclusive os Estados Unidos, que até pouco tempo atrás lideravam essa disputa. Por dia, vendemos ao mercado internacional cerca de R$ 500 milhões. Por hora, algo como R$ 20 milhões.

Qual é o impacto do Complexo Soja para o mercado interno? Nesse aspecto, o estudo do professor Neves também traz informações surpreendentes. Ele diz que o investimento médio para se manter uma cultura de soja esteve em torno de R$ 2,7 mil por hectare, considerando sempre a safra 2020/21. Diante dos 39 milhões de hectares dedicados à soja no território nacional, significa que os produtores desembolsam, em um ano típico, pelo menos R$ 105 bilhões para dar vida às suas lavouras. O valor inclui gastos com toda a cadeia produtiva, incluindo compra de sementes e defensivos agrícolas e despesas com funcionários, entre outros. Para efeito de comparação, o número supera em dez vezes todo o faturamento do mercado de games no Brasil, um setor considerado de alto crescimento.

Não é só. Nos últimos anos, tem sido cada vez mais comum a conversão de pastagens para a produção de soja. Neves estima que são necessários R$ 6,5 mil para transformar um hectare anteriormente usado como pastagem em uma área destinada para a soja. “Se você lembrar que o Brasil tem 1 milhão de novos hectares para soja por ano, podemos calcular que são aplicados R$ 6,5 bilhões no desenvolvimento de novas áreas”, afirma o professor. “É muita movimentação financeira que a soja traz para o Brasil.”

 



Sob qualquer ângulo que se olhe, a soja é, de fato, imbatível como propulsora da economia brasileira. Recentemente, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) compilou dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) referentes a 2021. A agropecuária gerou 140,9 mil postos de trabalho no País, o maior saldo de vagas em uma década. O saldo de 2021 é quatro vezes superior ao registrado no ano anterior, quando o setor criou 36,6 mil vagas formais de emprego. Entre as atividades agropecuárias, as que mais contribuíram para a geração de empregos ao longo de 2021 foram, como tradicionalmente ocorre, o cultivo de soja (22,2 mil), bovinos para corte (21,6 mil) e a plantação de cana-de-açúcar (8,9 mil). No cômputo geral, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) estima que a soja seja responsável por aproximadamente 7,5 milhões de empregos diretos e indiretos no País, e esse número tem crescido em ritmo veloz.

Poucos estados brasileiros passaram por transformações tão contundentes nos últimos anos quanto o Mato Grosso, que responde por 27% da produção brasileira de soja. “Por causa da soja, nós temos crescido em ritmo chinês, em torno de 5% ao ano”, diz Fernando Cadore, presidente da Aprosoja-MT. Ele lembra que seu estado deverá finalizar a safra 2021/22 com a produção de 39 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de 6% em relação ao período anterior, cujo desempenho já havia sido forte. Graças ao agronegócio em geral e à soja em particular, o Mato Grosso passou relativamente incólume pela pandemia de Covid-19. Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, reforça que os estados que têm uma base forte de commodities como soja, minério de ferro e celulose são justamente aqueles que mais crescem no Brasil.

Nos últimos anos, o Complexo Soja teve papel vital no desenvolvimento do interior do País. Atualmente, estima-se que 2 mil municípios brasileiros se dediquem a essa cultura. De acordo com a Aprosoja, no início do século cerca de 90% dessas localidades tinham um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) inferior à média brasileira. Vinte anos depois, a lógica se inverteu: agora 96% das cidades plantadoras de soja têm IDH superior à média nacional. A soja, portanto, tem o mérito de espalhar riqueza por onde passa, gerando imenso valor para toda a sua cadeia produtiva.

Os R$ 580 bilhões movimentados pela soja no Brasil estão distribuídos em três frentes principais. A primeira delas, a fase antes da porteira – que consiste principalmente na aquisição de insumos – responde por 11% desse montante. A segunda frente já é a etapa dentro da porteira, ou seja, a produção em si, que fica com o equivalente a 26% daquele valor. Por fim, os negócios relativos ao beneficiamento (como logística, comércio e exportações) absorvem os 63% restantes. “A produção de soja é o negócio mais lucrativo para o agro brasileiro”, resume Luiz Fernando Gutierrez Roque, especialista da consultoria Safras & Mercado.

Se ela é rentável dentro da porteira, é fora dela que os ganhos se multiplicam. Na cadeia logística, a soja exerce papel vital. Apenas no Mato Grosso, a safra do grão faz com que cerca de 300 mil veículos pesados circulem pelo estado para escoar a produção dos campos. Na Scania, o agronegócio representa 40% de suas operações no Brasil, sendo que a soja responde pela maior parte dos negócios. As transações financeiras estão por toda a parte. Em junho, a Amaggi, uma das maiores produtoras mundiais de soja, comprou 440 caminhões Volvo para levar a produção de soja das lavouras do Centro-Oeste para os terminais de transbordo da região Norte.  

A soja mobiliza inúmeros agentes econômicos, de fornecedores de insumos à indústria de máquinas e equipamentos, de empresas de tecnologia a fabricantes de ração, de produtores rurais a usinas de biodiesel. Sua força está por toda parte. De acordo com a Associação dos Misturadores de Adubos do Brasil (AMA Brasil), a soja representa 45% do consumo de fertilizantes no País. Para se ter ideia do que o número significa, o milho, outra importante cultura, responde por 18% desse mercado. Foi a expansão da cultura da soja a partir dos anos 1970 do século passado que impulsionou a indústria brasileira de tratores, máquinas e implementos agrícolas, contribuindo significativamente para a geração de empregos na indústria.

É fácil entender a relevância da soja quando se olha para o Porto de Santos, o maior do País. “Em 2021, ultrapassamos 29 milhões de toneladas movimentadas pelo Complexo Soja, o que representa 31% do volume exportado pelo Porto”, afirma Bruno Stupello, diretor de Desenvolvimento de Negócios da Santos Port Authority (SPA). O executivo lembra que 12 terminais do Porto são dedicados à soja, e novos investimentos estão previstos para os próximos anos. Recentemente, a trader chinesa Cofco anunciou o desembolso de R$ 1 bilhão nas obras do terminal STS11, destinado principalmente ao embarque de soja. Até 2025, a empresa pretende dobrar o volume de grãos originado no Brasil.

A produção de soja no Brasil tem contribuído para outro aspecto fundamental no mundo dos negócios: a inovação. Em artigo publicado em junho na revista científica Frontiers in Microbiology, a soja brasileira foi apontada como melhor exemplo mundial no uso de biofertilizantes. “O Brasil é um dos poucos países do mundo a obter sucesso na utilização de biofertilizantes na soja”, escreveu no documento Rafael de Souza, pesquisador associado do Genomics for Climate Change Research Center (GCCRC). “O país é o maior produtor e exportador da commodity e, atualmente, 80% da área plantada de soja utiliza microrganismos para fixar o nitrogênio. Isso tem um impacto ambiental positivo muito grande.”

A inovação traz ganhos ambientais e econômicos. Segundo o pesquisador, estima-se que 430 milhões de toneladas de CO2 equivalente não sejam lançados na atmosfera graças ao uso, nas lavouras de soja, de bactérias fixadoras de nitrogênio. Do ponto de vista financeiro, o projeto é igualmente bem-sucedido. “O Brasil importa aproximadamente 77% do fertilizante nitrogenado utilizado nas culturas agrícolas. A soja é a única exceção. Ela não depende dessa importação justamente por conta dos fixadores biológicos de nitrogênio, o que gera uma economia de aproximadamente US$ 10 bilhões em fertilizante nitrogenado”, disse o pesquisador. A iniciativa é histórica. Recentemente, a microbiologista brasileira Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, passou a integrar a lista dos 100 mil cientistas mais influentes do mundo organizada pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, graças ao trabalho desenvolvimento por ela na fixação biológica de nitrogênio.

O Brasil chegou tarde ao mercado de soja, mas levou pouco tempo para se consolidar como uma potência mundial. As primeiras sementes vieram ao País no final do século 19, mas foi apenas no início do século 20 que ela começou a ser cultivada com aspirações comerciais. Ainda assim, o grão pouco progrediu. A expansão começaria de fato nos anos 1970, quando a indústria de óleo passou a crescer em ritmo veloz. “O Brasil tropicalizou a soja”, diz Marcos Jank, coordenador do centro Insper Agro Global. “Até os anos 1970, sua produção estava concentrada no sul do País, mas variedades desenvolvidas pela Embrapa acabaram sendo levadas para o Centro-Oeste e Nordeste.”

Foi uma decisão certeira. Com o passar dos anos, a demanda chinesa explodiu, e era esse o estímulo que o setor precisava para avançar no Brasil. Graças ao apoio da Embrapa, dos avanços genéticos e do uso de novas tecnologias no campo, a produtividade nacional disparou. Na safra 2020/21, as lavouras brasileiras deram origem a 3,5 mil quilos de soja por hectare. Há 40 anos, a média produtiva era de mil quilos por hectare. No mundo, ninguém é capaz de igualar tal desempenho. Nos Estados Unidos, principal rival do Brasil no setor, a produtividade foi de 3,3 mil quilos por hectare na última safra. Na Argentina, outra protagonista do segmento, o índice foi de 3 mil quilos. Em toda a União Europeia, 2,9 mil quilos, conforme dados compilados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

 



Os números da safra 2020/21 colocaram o Brasil, com certa folga, como campeão mundial na produção de soja. Foram 135,4 milhões de toneladas, bem acima das 112,5 milhões de toneladas dos americanos. Como a produtividade brasileira é maior, a distância entre as duas nações tende a aumentar. A fome do mercado por produtos do Complexo Soja está muito longe de ser aplacada. Em uma década, o consumo mundial do produto passou de 264 milhões de toneladas para 370 milhões de toneladas, sempre de acordo com informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Nos próximos anos, é provável que o ritmo de crescimento se mantenha com a mesma intensidade. Portanto, a soja brasileira tem tudo para quebrar novos recordes e alimentar ainda mais a economia do País.