Revolução amazônica

Projeto Amazônia 4.0 é o ponto de partida para a criação de uma bioeconomia baseada na floresta


Edição 27 - 15.11.21

CPFL Soluções
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Por Romualdo Venâncio | Imagens: Marko Brajovic

Imagine se produtores de cacau da Amazônia conseguissem, ao invés de apenas fornecer castanhas como commodity, oferecer algo diferenciado, comprovadamente sustentável, com qualidade elevada e padronizada, com rastreabilidade e cumprindo todas as exigências em relação à utilização de água nesse processo. Haveria grandes chances de o mercado responder com uma remuneração mais alta. Por consequência, esse valor agregado tornaria a atividade mais rentável e competitiva, estimulando a evolução dos agricultores e a manutenção da floresta e de seus serviços ambientais. Este cenário pode deixar de ser hipotético a partir do projeto Amazônia 4.0, iniciativa que tem o objetivo de promover a bioeconomia a partir de biofábricas para o beneficiamento de produtos agrícolas como cacau e cupuaçu, inicialmente.

A meta principal desse projeto é desenvolver um novo modelo de economia na Amazônia que mantenha a floresta em pé, para garantir os serviços ambientais prestados pelas árvores. Segundo Antonio Donato Nobre, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), uma árvore grande, frondosa, com uma copa de 20 metros de diâmetro, chega a colocar mais de mil litros de água na atmosfera em um dia. “Ela vai buscar água no lençol freático, a 50 ou 60 metros de profundidade. E suas folhas são estruturas fantásticas de evaporação”, explica. Esse processo, que contribui para a formação do fenômeno de “rios voadores”, acaba influenciando o volume de chuvas em regiões distantes dali, como o Centro-Oeste e o Sudeste, inclusive em áreas de grande produção agropecuária.

O projeto é baseado na implementação de unidades de pesquisa chamadas de Laboratórios Criativos da Amazônia (LCAs). São estruturas modulares, com cerca de 50 metros quadrados, que podem ser montadas, desmontadas e transportadas – de barco, caminhão e avião – para serem instaladas em quaisquer outros lugares da região. Desenhadas pelo arquiteto e designer Marko Brajovic, esses laboratórios terão toda a estrutura necessária para serem utilizados como biofábricas, para o desenvolvimento dos produtos com valor agregado, e como ponto de capacitação dos agricultores. A ideia é que sejam criadas condições para que o público atendido siga depois por conta própria. “Não temos a pretensão de fabricar produtos, queremos oferecer os equipamentos e o conhecimento para que eles sejam independentes”, diz Ismael Nobre, que é biólogo, doutor em Dimensões Humanas em Recursos Naturais e colíder do Amazônia 4.0.

Como o próprio nome do projeto sugere, a iniciativa segue o conceito da indústria 4.0, combinando diversas e modernas tecnologias, como computação em nuvem, automação industrial, inteligência artificial, impressão 3D, blockchain, entre outras. Pegando o cacau como exemplo, no processo bean-to-bar, ou seja, da semente à barra de chocolate, será possível ajustar até a curva de torra das amêndoas para extrair o melhor de cada matéria-prima e, assim, atender demandas específicas de acordo com padrões internacionais. O ponto de torra tem forte impacto no sabor final do chocolate e, de maneira geral, esse controle é feito em fornos manuais. No LCA é tudo automatizado, e esse monitoramento é realizado por sensores de temperatura que alimentam o software responsável por manter o calor no nível correto.

Um diferencial importante é que isso tudo pode ser feito em qualquer escala de produção, o que favorece a inclusão dos pequenos produtores. “Nesse conceito 4.0, as máquinas podem ser feitas por outras máquinas, adequadas ao tamanho de cada propriedade e à capacidade de cada família”, afirma Ismael. Uma vez que a padronização está garantida, pode-se alcançar boas negociações mesmo que sejam diversas unidades produtivas com volumes menores, pois a comercialização acontece de forma coletiva, como uma cooperativa.

Agrociência para floresta

O projeto Amazônia 4.0 é resultado de estudos científicos que vêm sendo desenvolvidos há anos, com profissionais de diversas áreas, sob a liderança do climatologista Carlos Nobre. “Ele foi o primeiro cientista a instalar torres para analisar o sequestro de carbono e avaliar essa melhoria do clima”, comenta Ismael, deixando transparecer o orgulho pelo trabalho de seu irmão. Ele acrescenta ainda que as ciências climáticas mostraram que as áreas protegidas por lei não eram suficientes para manter a floresta, tanto a biodiversidade quanto os serviços ambientais. “Em 30 anos de muitos estudos, não havia realmente um projeto que trouxesse desenvolvimento natural, com retorno financeiro para fazer frente a outras atividades.”

Essa é a grande virada que se espera do Amazônia 4.0, desenvolver uma bioeconomia rentável o suficiente para priorizar a preservação do bioma, embalada em uma narrativa que destaque referências únicas daquela região. “É um terroirmuito abundante”, diz Ismael. Ele explica que, enquanto commodity, a amêndoa do cacau é comercializada entre R$ 10 e R$ 12 o quilo, mas quando beneficiada pode virar um chocolate de R$ 200 o quilo. “E o nível de perdas no caminho é baixíssimo, quase que 80% do peso da amêndoa é chocolate”, acrescenta. Considerando que o Pará lidera a produção brasileira de cacau, o horizonte fica ainda mais amplo. A safra paraense deste ano pode passar de 144 mil toneladas (53,6% do volume nacional), segundo dados do IBGE, divulgados pela Agência Pará.

O projeto conta com investimento de R$ 5 milhões, recursos vindos pelo Laboratório de Inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID Lab). E tem apoio do Instituto Arapyaú, do Instituto Humanize, do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e do Good Food Foundation. A previsão é de que ainda este semestre fique pronto o protótipo do Laboratório Criativo da Amazônia para Cacau e Cupuaçu. O desenvolvimento acontece no Parque Tecnológico da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), em São José dos Campos (SP).

Para Ismael, é muito positivo estar dentro de um polo tecnológico como esse, até porque o projeto é multidisciplinar. “O LCA exige um alto grau de tecnologia, e aqui a gente ‘tropeça’ em cientistas que já estão lidando com algo que precisamos”, afirma o biólogo. A elaboração dos equipamentos é resultado de um trabalho coletivo que envolveu especialistas de diversos segmentos, como engenheiros da cadeia produtiva do chocolate, engenheiro de alimento para área das castanhas (o projeto vai abranger também a castanha-do-brasil) e engenheira química para a área de cosméticos. “Nosso trabalho hoje é desenvolver prova de conceito.”

Montagem do primeiro módulo: Projeto começa a sair do papel.

Próximos passos

Nesse momento, estão sendo concluídas as últimas elaborações técnicas e tecnológicas do projeto, como a parte de software. Assim que o projeto estiver completo, começa de fato a implementação na Amazônia e a capacitação das pessoas. “Em janeiro [2022]) devemos fazer uma homologação dessa tecnologia toda em alguma comunidade e, depois, vamos visitar outras quatro, que serão acompanhadas por dois meses”, diz Ismael.  Essa etapa será desenvolvida por meio da parceria com o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus). Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, que trabalha para ativar o ecossistema de negócios comunitários rurais e florestais, e dessa forma aumentar a renda dos pequenos produtores e fortalecer a conservação dos ecossistemas naturais.

A participação de instituições como Sebrae e Senai pode contribuir para ampliar a capacitação e o desenvolvimento de negócios. É fundamental que se consolide a autossuficiência das comunidades participantes, que os produtores absorvam a lógica de agregação de valor dentro das regras do capitalismo. Serão realizadas expedições para as regiões produtivas com o intuito de ouvir as lideranças das comunidades, identificar e entender o que realmente necessitam, realizar um mapeamento bem direto.

Já estão em desenvolvimento ampliações do projeto, envolvendo outros produtos. Ismael conta que o design do laboratório para trabalhar com a castanha-do-brasil está quase pronto. Assim como uma opção voltada à produção de uma linha gourmet de azeites com patauá, buriti e tucumã. “Há tendência de diversos óleos, mas como matéria-prima, em grandes volumes. Estamos buscando o produto final”, afirma o colíder do Amazônia 4.0. Futuramente podem ser incluídos experimentos agregando outros ingredientes, como supernutrientes, valorizando ainda mais os produtos.

A coordenação buscará outras parcerias estratégicas com instituições locais, sobretudo as que já estejam envolvidas com ações que tenham o mesmo conceito. “A ideia é que tudo isso seja absorvido por grandes atores que possam fazer muito mais. E a equipe que está hoje no centro do desenvolvimento pode avançar mais para as biofábricas e para questões ligadas à certificação a todos esses processos ligados à Amazônia”, afirma Ismael. “Futuramente podemos até nos tornar um hub de inovação.”