A SURPREENDENTE MORDIDA DAS ABELHAS

Além da polinização, os insetos utilizam outros recursos para antecipar a floração das plantas


Edição 25 - 21.06.21

Uma abelha sobre uma folha

Abelhas são uma espécie incrível, todos sabemos. Suas contribuições para a vida na Terra têm sido estudadas há séculos – assim como os fenômenos mais recentes envolvendo a rápida redução de sua população mobiliza cientistas em busca de soluções para explicá-los e contê-los. Com tantos olhos sobre elas, não raramente surgem descobertas sobre seu comportamento, sua capacidade de adaptação e sua capacidade de influir positivamente com o meio ambiente e também com o agronegócio, indo além dos já conhecidos benefícios da polinização.

Uma das mais recentes e relevantes constatações nesse sentido foi feita por cientistas do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça. Em estudo publicado na revista Science, eles demonstram como pequenas incisões feitas por zangões nas folhas de plantas – atos antes considerados sem importância – são na verdade mecanismos usados por eles para induzir a floração precoce das plantas, antecipando assim a oferta de polem necessário para a sobrevivência de suas colmeias.

A descoberta do poder das mordidas dos zagões – não confundir com as picadas dos ferrões – impressionou e maravilhou os especialistas. Primeiro, porque esse simples gesto havia passado despercebido por tanta gente em tantas décadas de estudos. Mas, mais do que isso, pelas implicações que a descoberta pode trazer. Ela indica, por exemplo, que as abelhas conseguem se adaptar a condições mais extremas de clima, principalmente em um momento em que a elevação das temperaturas faz com que elas deixem as colmeias antes de as plantas estarem em seu estágio ideal para gerar os alimentos que elas precisam. Já para a agricultura, dominar essa técnica pode significar uma oportunidade de ter mais domínio sobre determinadas culturas, gerando maior precocidade e produtividade.

colmeia de abelhas

O primeiro a observar esse comportamento das abelhas foi um estudante suíço, Foteini Pashalidou. Ele notou, em uma das estufas do laboratório em que trabalhava sob a orientação da química ecologista Consuelo de Moraes, que os zangões faziam pequenos cortes nas folhas, mas não removiam pedaços das folhas ou as ingeriam.

Intrigado, relatou à orientadora sua suspeita de que o gesto era um indutor do desenvolvimento das plantas. Então, a equipe do laboratório realizou uma série de pesquisas. Elas mostraram que o comportamento estava relacionado à escassez de pólen no ambiente: cada vez que a oferta se reduzia no ambiente, as abelhas “forçavam” as plantas a florescerem para regularizar o seu estoque. Por outro lado, quando expostas a ambientes ricos em pólen, os zangões não faziam incisões nas plantas.

Tanto nas simulações em estufa (com exemplares de tomateiros e de mostarda ainda não floridos) como em campo, os pesquisadores observaram que, fazendo os cortes nas folhas, as abelhas conseguiam antecipar a floração em até um mês. Uma vez confirmada a tese, a pesquisa tentou replicar artificialmente a técnica natural dos insetos. E, então, surgiram novas questões, muitas ainda sem respostas.

Os pesquisadores usaram pequenas lâminas para reproduzir os cortes feitos pelos zangões. Conseguiram sucesso parcial. Houve, sim, uma antecipação da floração, mas não tão expressiva quanto a obtida pelas abelhas. “Elas fazem algo que ainda não conseguimos descobrir”, afirmou, à revista National Geographic, o cientista Mark Meschler, um dos envolvidos no estudo suíço. A suspeita é de que, junto com a incisão, elas inoculem algum componente bioquímico ou odor proveniente de uma glândula salivar. Obter essa resposta pode ser a chave para introduzir um novo ingrediente na agricultura, com efeitos positivos potencialmente enormes.

PLANT PROJECT

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