Os 90 Anos da Vinícola Aurora

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


11.02.21

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

A Cooperativa Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, comemora neste domingo, 14 de fevereiro de 2021, uma data muito especial: 90 anos de fundaçāo. Tenho uma relação muito antiga com a Aurora, e é desta amizade que gostaria de lhes falar.

Amor à primeira vista

Recordo bem: eu era muito jovem, no início dos anos 1980, quando visitei pela primeira vez a Serra Gaúcha, para conhecer vinhedos e vinícolas. E essa minha primeira incursão pelo mundo do vinho brasileiro começou pela Cooperativa Vinícola Aurora.

Estão bem nítidos na minha memória os longos corredores escuros das caves subterrâneas, as enormes pipas de madeira da “cantina” (hoje substituídas por modernos tanques de inox e barricas de carvalho francês) e o aroma de vinho que impregnava o ambiente (cheiro de cantina, de que muita gente não gosta, mas que eu adoro).

Foi amor à primeira vista. Fiquei encantado com aquele mundo frio, úmido, escuro, onde as leveduras cumpriam em silêncio sua laboriosa missão e no qual o vinho, como que por mágica, nascia. A Aurora já era, então, a maior vinícola brasileira, com uma ampla gama de rótulos, e seus vinhos (Marcus James à frente) logo seriam exportados até mesmo para os Estados Unidos, e ganhariam medalhas em inúmeros concursos internacionais. Hoje, a Aurora é a mais premiada vinícola brasileira, com 731 prêmios.

Reencontro com as origens italianas

Tive a certeza de que, a partir daquele dia, o vinho estaria, de uma maneira ou de outra, ligado à minha vida. Foi como se, ao penetrar naquele mundo subterrâneo de penumbra e pedras, eu tivesse me reencontrado com minhas origens italianas. Vieram-me à mente lembranças de antepassados distantes que faziam seu vinhozinho de uva Isabel no porão de pedra de casas simples de madeira. Soube, naquele dia, que voltaria muitas vezes à Serra Gaúcha para provar seus vinhos e escrever sobre eles. O que, de fato, aconteceu ao longo das últimas décadas.

Aprendendo a gostar de vinho

A verdade é que, depois de alguns porres catastróficos com vinhos comuns de garrafão, eu quase não bebia vinho naquela época. Só viria a me reconciliar com a bebida de Baco após os 25 anos de idade – por influência de amigos jornalistas mais velhos, com quem convivi na década de 1980 em Porto Alegre. Alguns haviam vivido por algum tempo na Europa e retornaram com um bom conhecimento sobre vinhos.

Foram eles que me apresentaram aos primeiros vinhos finos que bebi. Quase todos nacionais, da Serra Gaúcha. Porque vinho importado, naquele tempo, era um luxo a que poucos privilegiados podiam ter acesso. Rótulos estrangeiros a preços acessíveis só chegariam legalmente ao mercado brasileiro a partir do início da década de 1990, com a liberação das importações promovida pelo governo Collor.

Bebíamos naquela época os modestos vinhos de umas poucas vinícolas gaúchas ou multinacionais instaladas no Rio Grande do Sul: Garibaldi, Salton, Rio-Grandense, Peterlongo, Château La Cave, Martini e Rossi, Chandon, Almadén e, claro, Aurora, a maior e com a mais completa linha de produtos – do humilde Sangue de Boi ao mais sofisticado (para a época) Conde de Foucauld.

Nomes estrangeiros e brasões medievais

Os rótulos, de um modo geral, exibiam nomes estrangeiros, títulos de nobreza, brasões medievais, nomes de regiões demarcadas europeias, e quase sempre aludiam à longa tradição vinícola do Velho Mundo. Rosés, brancos e suaves faziam muito sucesso então – mais do que os tintos. Ainda nada se sabia sobre o Paradoxo Francês, que, a partir dos anos 1990, daria aos vinhos tintos status de “remédio” para o coração e promoveria o aumento do seu consumo em detrimento do gosto pelos brancos

Por influência da indústria vinícola norte-americana, que desde o famoso Julgamento de Paris, em 1976, vinha se impondo mundialmente, os vinhos brasileiros já começavam a identificar com destaque em seus rótulos as variedades de uvas com as quais eram elaborados. Cabernet Franc e Riesling Itálico eram as cepas viníferas tinta e branca mais populares. Afinamento de vinhos em barricas bordalesas de carvalho era coisa rara. Lembro do primeiro vinho nacional com passagem por carvalho que provei: o Marcus James, da Aurora. Estranhei bastante o aroma e o sabor – mas gostei.

Patrimônio cultural do Rio Grande do Sul

De lá para cá, a indústria brasileira de vinhos nāo parou de evoluir. E a Aurora acompanhou essa evolução. A cooperativa enfrentou momentos difíceis, quase sucumbiu às crises econômicas dos anos 1980, mas, com a união de suas mais de mil famílias de associados e a gestão profissional moderna que adotou, deu a volta por cima. Quitou uma grande dívida antes do prazo, e hoje é este patrimônio empresarial e cultural que orgulha os gaúchos.

Para mim, que acompanhei esta história de perto nas últimas quatro décadas, o aniversário de 90 anos da Aurora me emociona – de verdade. Quantas empresas brasileiras podem comemorar 90 anos? Vinícolas, entāo, nem se fala: poucas realizaram esta façanha. Por isso, associados, colaboradores e dirigentes da Cooperativa Vinícola Aurora estāo todos de parabéns. Longa vida à Aurora!

(Fotos: André Majola e Wagner Meneguzzi)

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