Os novos hubs de inovação do agro

Ecossistemas dedicados à busca de soluções tecnológicas surgem em regiões de tradição agríco


Edição 22 - 07.12.20

Por André Sollitto

O Radar AgTech 2019, maior levantamento já feito no Brasil sobre a inovação no campo, listou 1125 startups desenvolvendo soluções para alguma etapa da cadeia de produção de alimentos. Um dos dados mais surpreendentes foi a concentração dessas empresas: 262, ou 23% do total, estão na cidade de São Paulo. Esse dado mostra que o desenvolvimento das startups do agro está relacionado à maturidade do ecossistema de inovação paulistano como um todo. Mostra também que regiões com grande tradição agrícola estão menos representadas. A situação, no entanto, está mudando rapidamente e o cenário de hoje já é diferente daquele apresentado pelo estudo.

Um levantamento feito pela PLANT listou pelo menos 20 hubs dedicados à busca de startups para o agronegócio – e outros que olham para o setor como um dos pilares de interesse. Vários deles estão em regiões que já consolidaram um ecossistema de inovação. É o caso de Piracicaba, cidade conhecida como o AgTech Valley, que tem o Pulse, da Raízen, o AgTech Garage, o Animals Hub e a incubadora EsalqTec, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. A cidade de Londrina, no Paraná, também se desenvolveu muito nos últimos anos e hoje a região, conhecida como AgroValley, apresenta um dos ecossistemas mais vibrantes do cenário agtech.

Destaque mais recente são os espaços que estão desenvolvendo novos pólos de inovação. Apenas a região Centro-Oeste, por exemplo, ganhou quatro. Dois deles estão em Goiânia: o Conexa, iniciativa da empresa de software Siagri, e o Campo Lab. Em Rio Verde, Goiás, há o Orchestra Innovation Center. E em Cuiabá, Mato Grosso, há o Agrihub Space. Minas Gerais agora conta com dois novos hubs: em Varginha, cuja localização é estratégica para a indústria do café no sul do estado mineiro, o AgVenture Hub dá os primeiros passos para fomentar a inovação na região; e em Uberlândia, o clube de investimentos AgroVen está fazendo aportes em agtechs importantes. Na região sul, o Habitat Floema, o braço de inovação do ecossistema Fábrica do Futuro, no Rio Grande do Sul, surgiu com a proposta de fomentar a busca por soluções ligadas à sustentabilidade e que passam pelo agronegócio.

Proximidade com o produtor

A principal vantagem desses hubs instalados em regiões produtores é, justamente, essa proximidade com o produtor. Startups criadas em grandes centros urbanos, como São Paulo, às vezes desenvolvem soluções que são um pouco desconectadas com as dores reais de quem planta. “Vemos tecnologias que propõem uma grande disrupção”, diz Nathália Secco, CEO e fundadora da Orchestra Innovation Center. “Mas o mercado, às vezes, não está pronto. E é preciso dar um passo para trás.”

Grandes plataformas de gestão são importantes, mas às vezes o agricultor precisa resolver algum problema mais imediato. Ele precisa de uma ferramenta para controle de daninhas, ou uma agfintech que resolva alguma certificação necessária. Um formato bastante explorado pelos hubs é propor desafios a partir de demandas de produtores e parceiros corporativos e buscar startups capazes de atendê-las. É um caminho mais eficaz do que desenvolver uma solução mirabolante e só então ir a campo para testá-la. Isso é importante por conta das diferenças de cada região, de cada cultura. “Grandes produtores da região centro-oeste, por exemplo, precisam ser extremamente eficientes da porteira para dentro, porque da porteira para fora o frete acaba com eles”, diz George Hiraiwa, ex-secretário de Agricultura do Paraná e um dos criadores do AgroValley, em Londrina. No Sul do país, as propriedades são menores e os desafios, diferentes. No Matopiba, as dificuldades climáticas representam outro desafio. Entender as peculiaridades de cada região produtora é o que garante a eficiência.

Inserir o produtor como parte dessa busca por inovação é importante. “Quando estruturamos um hub, é preciso fazer uma certa evangelização”, diz Nathália Secco. “Durante muito tempo, a discussão sobre digitalização no campo ficou apenas entre os players de inovação e não chegava ao mercado. Em Rio Verde, o mercado está aqui”, afirma ela. “Vamos ver muito mais aderência quando o produtor também se tornar um investidor dessas tecnologias”. Hiraiwa tem uma opinião semelhante. “Sempre perguntam: quando vai ter o unicórnio do agro? Quando o ecossistema nacional entender e começar a divulgar as inovações para o produtor rural.”

Inovação saudável

Ao olhar de perto o desenvolvimento de cada região, fica claro que não existe uma fórmula única que funcione em todos os lugares. “Um ecossistema tem que ter uma junção de pessoas que queiram discutir essa ideia de inovação. De muros baixos, sem vaidade.”, diz Hiraiwa. Segundo ele, é importante ter sempre em mente que o objetivo principal é inovar o agronegócio. Nathália Secco, da Orchestra, concorda. “Inovação é cooperação. Quanto mais os hubs estiverem interligados, melhor para o setor como um todo”, afirma ela.

O exemplo de Londrina é um pouco atípico, mas mostra como não existe uma receita única. O pólo de inovação começou a se desenvolver a partir de eventos como o Hackathon Smart Agro, promovido pela Sociedade Rural do Paraná, e do trabalho de fomentadores como Hiraiwa. Por um tempo, a região ficou conhecida como SRP Valley, mas recentemente a participação de cooperativas, da Embrapa e de outras instituições fez com que o ecossistema passasse a ser conhecido como AgroValley. Hoje, graças à presença na cidade de um importante centro de desenvolvimento de tecnologia da informação, a região ganhou status de polo de inovação com a chancela do Ministério da Agricultura e passou a focar em projetos para uso de inteligência artificial no agro. Criou-se uma governança e a cada 15 dias representantes de 30 entidades se reúnem em grupos de trabalho para discutir temas como políticas públicas, conexão com startups, etc. Agora que ele está estruturado será construído um hub físico. “Vamos colocar um hub dentro da Sociedade Rural do Paraná para o nosso ecossistema, mas já temos todo esse trabalho sendo feito por trás”, diz Hiraiwa.

Em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, a situação foi completamente diferente. Lá, um hub está sendo responsável pelo desenvolvimento do ecossistema. A aceleradora Cyklo Agritech foi fundada em setembro de 2019 a partir de uma demanda de empresários da região, que queriam criar um fundo de investimentos em startups. Eles chamaram os executivos Pompeo Tadeu Scola, atual CEO, e Aguinaldo Gomes Marques, COO, ambos com experiência em inovação que já haviam trabalhado com a Darwin, aceleradora de Florianópolis que foi eleita a melhor do Brasil em 2018. Os empresários não sabiam em qual área investir, mas logo ficou claro que o agronegócio era o setor com maior potencial da região. Afinal, Luís Eduardo Magalhães é considerada a capital do Matopiba, fronteira agrícola que inclui Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. “Lá, os produtores são mais permeáveis à inovação por conta dos desafios de produzir na região”, afirma Marques. Eles abriram uma chamada para startups e a resposta foi bastante positiva. A partir disso, começaram a busca parcerias. Os empresários e produtores já tinham embarcado na ideia. Seguiram para a academia e foram muito bem recebidos pela Universidade Federal da Bahia. Estão conversando com outras instituições da região, como a Faculdade Arnaldo Horácio Ferreira, a UNIFAAHF. A pandemia atrapalhou essas negociações. “A covid nos tornou mais distantes. Nem tudo pode ser feito por videoconferência”, diz Aguinaldo Marques. Em abril, eles estavam conversando com a Embrapa e as negociações para firmar um acordo devem ser retomadas em breve. 

Alguns elementos, no entanto, são essenciais. Um deles é a parceria com instituições de ensino, já que não existem inovação sem conhecimento acadêmico. E também porque o interesse pelo empreendedorismo pode ser fomentado desde cedo. A participação de empresas do setor privado é importante não apenas pelo apoio que elas podem fornecer, mas pelo conhecimento do mercado. Empresas governamentais também são imprescindíveis, como a Embrapa, que nos últimos anos passou a olhar com atenção para a inovação no campo e, além de desenvolver as próprias iniciativas envolvendo startups, tem dado apoio ao desenvolvimento desses ecossistemas. Dependendo da região, a ação de cooperativas também é fundamental.

Por fim, é necessário contar com o interesse dos fundos de investimento. São eles que aportam os recursos necessários para que as startups e as inovações saiam do papel e atinjam um público mais amplo. O mais interessante é perceber que, ao contrário de outros players desses ecossistemas, os fundos de venture capital não precisam estar presentes na região. À medida que os polos de inovação atingem um certo grau de maturidade, investidores do mundo inteiro passam a olhar com interesse para cá. “Recebo contatos de pessoas da Ásia, dos Estados Unidos. Está todo mundo de olho no que está acontecendo aqui”, diz Nathália Secco. Em tempos de digitalização e a facilidade de encontros remotos, o Brasil pode finalmente cumprir seu potencial de se tornar um exportador de tecnologia para o agronegócio.

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