Pandemia acelera a digitalização do campo

Processos que poderiam levar anos aconteceram em meses


Edição 21 - 24.08.20

Por André Sollitto e Romualdo Venâncio

Diferentemente de uma significativa parte da população brasileira, o produtor rural não teve a opção de trabalhar em home office para se proteger e evitar a propagação da Covid-19. Seu escritório é junto às lavouras e às criações, então a solução foi adotar todas as medidas preventivas necessárias e ir a campo. Quem está direta ou indiretamente envolvido com sua rotina também entrou nesse batidão – fornecedores de produtos e serviços, assessorias técnicas, consultorias, instituições de ensino, organizadores de eventos e tantos outros. Como consequência desse esforço coletivo, houve forte aceleração no processo de digitalização do agronegócio. A tecnologia se tornou a melhor saída para encurtar as distâncias, otimizar o tempo, reduzir custos, aproximar gerações e reafirmar a capacidade de resiliência do meio rural.

Em destaque, imagem hiperespectral produzinda pela agtech suíça Gamaya

Essa progressão já vinha sendo intensificada, de acordo com a sétima edição da Pesquisa Hábitos do Produtor Rural, realizada pela ABMRA (Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio), em parceria com o Informa Economic Group (IEG/FNP), e divulgada em 2017. Entre os mais de 2,8 mil entrevistados, 96% tinham celular, dos quais 61% eram smartphones. Sobre a exposição aos meios de comunicação, 42% confirmaram ter acesso à internet. E desses, quase que a totalidade (96%) usava o aplicativo de mensagens WhatsApp, 67% a rede social Facebook e 24% o YouTube. Outro dado significativo mostrou um lado mais conservador que já deve ter sido alterado durante a pandemia: 53% dos entrevistados com acesso à internet afirmaram não ter feito cotação pelos meios digitais.

Três anos depois, novo estudo pela consultoria McKinsey aponta que 85% dos entrevistados usam o WhatsApp diariamente para resolver assuntos ligados à agricultura, mesmo nos grupos de menor alfabetização. E 71% usam canais digitais para questões ligadas à fazenda (leia reportagem sobre o trabalho a seguir). A mesma pesquisa indica que um nível de digitalização maior entre produtores rurais brasileiros do que entre os americanos.

“O setor já vinha se digitalizando, com o objetivo de ter mais produtividade e sustentabilidade”, diz Daniela Ferreroni, diretora da ABMRA e gerente de Serviços de Marketing e Sustentabilidade da Basf Crop Protection. “Esse momento traz a chance de acelerar tudo isso. As oportunidades surgem em diversas frentes, como produção, comunicação, comportamento de compra, e já estavam sendo desenhadas.”

“A Covid não mudou tendências, o que aconteceu foi uma acentuação brutal da velocidade de transformação do que já vinha acontecendo”, afirma Paulo do Carmo Martins, chefegeral da Embrapa Gado de Leite. Martins é um entusiasta da tecnologia e está à frente de um dos projetos da Embrapa Gado de Leite para exatamente estimular o surgimento de inovações para o setor lácteo, o Ideas for Milk. O evento se tornou uma plataforma de lançamento de startups e uma oportunidade para jovens empreendedores, que ganham ainda mais relevância nesse período de pandemia por apresentarem ideias que otimizam a rotina de trabalho dos pecuaristas e da cadeia como um todo.

O projeto está bastante voltado para dois fatores essenciais na pecuária atual, a inteligência e a precisão. “São necessários dados para as tomadas de decisão e o pecuarista deve ser cirúrgico em suas escolhas. Essa junção exige da gente o mundo digital, e precisamos ter nas fazendas de leite o órgão mais sensível que é o smartphone”, afirma Paulo. Ele acrescenta ainda que a fazenda precisa estar no celular porque resolve três problemas primordiais: reduz as chances de erros nas muitas decisões que o produtor deve tomar durante o dia, permite a previsão de cada situação com mais inteligência e decisão e reduz a incerteza nas fazendas. “Sem contar que contribui para a permanência dos jovens nas fazendas.”

A digitalização da gestão das fazendas tem uma relação direta com o aumento de lideranças mais jovens no meio rural. No entanto, a maior parte dos entrevistados na última edição da pesquisa da ABMRA estava na faixa entre 41 e 60 anos. “O Brasil é um país continental, então o avanço da tecnologia e a adesão às inovações têm forte ligação com o rejuvenescimento da população no campo. E a simplificação da tecnologia vai diminuir essa distância, como o uso de smartphones e de aplicativos como o WhatsApp”, comenta Daniela.

Para o coordenador do Núcleo de Agronegócio da ESPM (Porto Alegre, RS), Ernani Carvalho da Costa Neto, a Covid-19 acabou abrindo espaço para a voz dessas novas gerações, por estarem mais familiarizadas com a digitalização. “No Brasil, o principal tomador de decisão está numa faixa acima dos 55 anos, e não é uma geração digital. Mas é o mundo do pessoal na faixa dos 35 anos. Eles têm o conhecimento, mas seu desafio maior ainda é convencer os pais de que é interessante implantar uma nova tecnologia”, afirma. E estavam preparados quando a pandemia chegou e foi necessário substituir as negociações presenciais pelos contatos virtuais. “Algo que iria acontecer em três ou quatro anos está sendo antecipado, até porque as gerações mais velhas também vão começar a buscar isso”, acrescenta Ernani.

De olho no consumidor

Martins, da Embrapa, acredita que a pandemia trouxe também a necessidade de uma aproximação maior da produção rural com o consumidor final, sobretudo porque as exigências mudaram. Nas fazendas de leite, por exemplo, do pensamento quase que exclusivo com a produtividade das vacas, foi preciso avançar para questões como conforto, que envolve uma série de fatores: nutrição, que não é apenas dar comida; saúde, que não é apenas dar remédio; a satisfação do peão trabalhando com a vaca, por se tratar de um animal muito sensível; e a rastreabilidade. “Agora surgiu uma nova palavra na exigência do consumidor de lácteos, a biosseguridade, algo que já estava em outras cadeias, como a de frangos e a de suínos. A pandemia acelerou muito esse processo”, diz.

Essa maior interação do produtor rural com o varejo e o consumidor final fortalece a agregação de valor aos itens acabados e que podem ser negociados diretamente. Por conta disso, muitos agricultores e pecuaristas passaram a frequentar mais as redes sociais, tornando-as suas novas plataformas de marketing, e a aproveitar os grupos de WhatsApp para a negociação direta. E, se a demanda cresce, surge o fornecimento coletivo. “Um ponto interessante é que o consumidor sabe de onde vem o alimento, e o próprio produtor entrega”, diz Ernani Costa Neto, da ESPM.

Outra consequência desse período de pandemia é que o público está mais preocupado com a origem dos alimentos. “O coronavírus impacta diretamente no setor de food service, por exemplo, e as pessoas passam a comer mais em casa. Aí surge a oportunidade maior para o produtor, que vende o alimento e pode entregar. A rastreabilidade acontece naturalmente”, afirma. Para aproveitar essa chance de manter, ou até expandir, os negócios, os fazendeiros precisam lidar com o marketing digital, uma parte da gestão a que poucos estavam habituados. Mais que isso, conhecer e saber utilizar de forma estratégica as ferramentas disponíveis é uma questão de sobrevivência nesse território já bastante saturado e concorrido.

Essa capacitação é parte da contribuição que o Núcleo de Agronegócio da ESPM tem oferecido ao setor, até por ser uma academia voltada ao mercado. “Temos trabalhado na profissionalização do setor, com a necessidade que o produtor tem de se aprimorar para cuidar de marketing, gestão e sucessão”, diz Costa Neto. E esse aprendizado é de extrema importância, pois a partir do momento em que passa a negociar diretamente com o varejo, seja com os pontos de venda, seja com os consumidores, o produtor precisa ter ainda mais conhecimento sobre finanças, até para saber o quanto vai ter de retorno, se o ganho vai justificar os recursos que está colocando. “Se não for assim, ele será sempre a parte mais fraca da cadeia”, acrescenta.

Um exemplo do desenvolvimento citado por Costa Neto vem de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, fronteira entre Brasil e Uruguai. Trata-se do Rancho Canela do Alto, onde são cultivados cerca de 120 produtos orgânicos entre in natura e minimamente processados – tubérculos, frutas, hortaliças, temperos – e o público também encontra itens fabricados por vizinhos, como queijos, iogurtes, vinhos e cervejas. “Pegamos um nicho de mercado e criamos um mix de produtos. Praticamente um market-place”, comenta a proprietária, Keli Oliveira, que também é professora de pós-graduação em agronegócio na ESPM.

Keli é adepta do movimento slow food, baseado em alimentos com sabor original, sem uso de produtos químicos e com preço justo, ou seja, com equilíbrio entre o que o consumidor paga e o que o produtor recebe. A ideia inicial era ter um restaurante nesses moldes, mas para isso seria primordial garantir o fornecimento dos alimentos. Adquiriram uma propriedade de 69 hectares, o tamanho adequado para o projeto, segundo Keli, com fácil acesso à cidade e disponibilidade de água. O passo inicial, em 2016, foi animador. Começaram com uma horta, que por conta do bom período climático rendeu muito mais do que imaginavam. “Oferecemos os produtos a cerca de dez pessoas que conhecíamos na cidade. Logo se tornaram 20, depois 30 e passamos a vender pelo WhatsApp”, comenta Keli. Em 2018 criaram um aplicativo para agilizar e organizar as vendas. Hoje já são 1.200 downloads.

A ideia é continuar aprimorando e diversificando o negócio, sem aumentar muito de tamanho. O turismo rural já é uma opção, com um evento chamado sábado-feira. “Os clientes podem vir direto à propriedade e colher o que vão comprar. Realizamos a primeira edição em março do ano passado. Quando íamos repetir este ano, veio a Covid-19”, diz. Se por um lado a pandemia adiou alguns planos, por outro revelou que o plano de negócio estava no caminho certo. “Uma coisa que a Covid mostrou, ou reforçou, é que a vida é muito mais local. Então é interessante estimular a produção local, os empreendimentos rurais locais e, consequentemente, o mercado local”, afirma Keli.

Mudança de hábitos

Grande impacto da pandemia foi alterar a rotina da população na base do “aceita que dói menos”. Ou muda os hábitos ou aumenta os riscos de contaminação pelo coronavírus – e todas as suas consequências. Aí vem um dos maiores desafios dessa situação, o convencimento das pessoas. “Usar novas ferramentas, eliminar hábitos antigos, perceber o mundo como um sistema interligado, introduzir a vida remota em nosso dia a dia, mudar comportamentos, respeitar novas limitações, entender a importância da biossegurança e tudo de diferente que já faz parte de nossa nova vida em sociedade. Isso tudo traz muito desconforto”, comenta Renne Granato, gerente Corporativo de Negócios da Cotrijal, que tem sede em Não-Me-Toque (RS) e é uma das principais cooperativas agroindustriais do Brasil.

No ano passado, a Cotrijal conquistou o Prêmio Ideas for Milk de Inovação exatamente pelo trabalho que vinha realizando com transferência de tecnologia para o campo. “O foco foi dado para que empresas rurais de gestão familiar pudessem ter acesso à ótima experiência de usuário em tecnologias 4.0, como machine learning e IoT. E a área definida para investimento foi o uso de tecnologia de monitoramento de comportamento animal”, diz Granato. Os dados coletados eram correlacionados a diversos indicadores, como reprodutivos, nutricionais e de saúde animal para definir estratégias mais eficientes para lidar com o gado e obter melhores resultados.

O fato de já estarem habituados ao mundo digital facilitou a adaptação a este novo momento, em que foi preciso agilizar os processos de digitalização dos negócios, das operações e da relação com associados e clientes. “Entendemos que para atingir um alto nível de cultura de inovação teremos de passar por essa fase, e os efeitos da pandemia têm contribuído para isso”, diz Granato. A adequação mostrou ainda outros pontos que já poderiam ter sido otimizados. Para o gerente da Cotrijal, foi significativo o ganho na gestão de tempo com a substituição de viagens pelos encontros virtuais e com reuniões mais objetivas e mais bem aproveitadas, feitas no tempo necessário. “A interação é diferente, mas estar no mesmo local não é mais prerrogativa de bom rendimento. É incrível como o dia rende mais.”

Granato aposta que esses novos hábitos permanecerão após o fim da pandemia. “Mais produtividade não se joga fora. Eliminaremos a improdutividade com o uso das tecnologias já absorvidas em nossa rotina”, diz. O executivo não está sozinho nessa. Rodrigo Iafelice dos Santos, CEO da Solinftec, startup que é líder global de SaaS (Software-as-a-Service) na agricultura, conta que a redução de custos com viagens, por exemplo, ajudou a anteciparem investimentos na evolução da estrutura, das centrais de monitoramento de pós-venda e do atendimento de maneira geral. Isso ampliou o contato com os produtores e as chances de negócios. “Estamos vendendo mais de forma virtual do que fazíamos pessoalmente”, afirma.

Segundo Santos, há uma percepção mais clara do valor das soluções tecnológicas e de que não se trata de um bicho de sete cabeças. “Se o produtor enxerga em uma tecnologia a possibilidade de reduzir custos e ganhar em produtividade, é natural que vá nessa direção. E a Covid acelerou essa questão”, explica. Querendo ou não, os fazendeiros se viram obrigados a se relacionar com as soluções digitais, até para manter o contato com familiares e amigos, como os encontros virtuais por meio de ferramentas de chamadas de vídeo coletivas.

Ninguém duvida da seriedade dos problemas causados pela Covid-19, o quadro é no mínimo lamentável. Mas se é que podemos – e devemos – tirar algo de positivo de situações como essa, o potencial de adaptabilidade é um exemplo. No caso da Solinftec, que já mantinha um ritmo forte de expansão – segundo Santos, nos últimos anos, a empresa tem se multiplicado duas ou três vezes –, o cenário ampliou o leque de oportunidades. Além da atuação, aqui no Brasil, nos segmentos de soja, milho, cana, café e laranja, a empresa acaba de fechar seu primeiro contrato na silvicultura, com o segmento de eucalipto. “Já cortamos um custo muito alto para eles”, diz Santos, que tem visto seus dias ficarem mais curtos diante da crescente demanda por sua atenção aos negócios.

Em meio a tudo isso, a Solinftec ainda anunciou uma rodada de investimentos de US$ 40 milhões, liderada pela Unbox Capital. Outro sinal de como a evolução tecnológica aproxima o agronegócio dos demais setores econômicos: os investidores âncoras dessa rodada são acionistas controladores do Magazine Luiza, fenômeno do varejo no Brasil. Rodrigo comenta que a negociação também teve muito a ver com a afinidade. “Essa não era a melhor proposta, mas pela atuação dos investidores no varejo, o perfil arrojado, o empreendedorismo, que é muito próximo do nosso conceito, fizemos essa opção”, diz. O executivo faz questão de deixar claro que o aporte financeiro não veio do Magazine Luiza, mas de seus acionistas. Isso não quer dizer que o grupo não esteja envolvido com o agronegócio (leia nesta edição entrevista com Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza). Como contribuição para ajudar o comércio a superar as dificuldades da pandemia, o Magazine Luiza abriu sua plataforma de marketplace, o MagaLu, a outras empresas, sobretudo micro e pequenas, e comerciantes autônomos. A oportunidade atraiu companhias do agro, como a DSM, a primeira do setor a utilizar essa enorme prateleira on-line, com os suplementos nutricionais para bovinos e equídeos da marca Tortuga.

Canavial digital

O avanço das novas tecnologias acelerou-se também sem segmentos que, na última década, já vinham investindo pesado na automação de seus processos. A Solinftec surgiu e cresceu oferecendo soluções para o setor sucroenergético. Agora, em plena pandemia, a agtech suíça Gamaya escolheu também os canaviais para fazer sua primeira incursão no mercado brasileiro. Especializada em sistemas avançados de sensoriamento remoto para lavouras, a empresa lançou o Canefit, um pacote de soluções de análise de imagens produzidas por drones e satélites que permite às usinas transformar em dados cada nuance visualizada do alto. “Não se faz gestão daquilo que não se conhece”, afirma Silvio Santos, consultor sênior e líder da operação da Gamaya no Brasil. “Nossas soluções fazem com que os produtores enxerguem coisas que o olho humano é incapaz de ver. Assim, eles passam a conhecer cada detalhe de suas propriedades e podem tomar decisões mais assertivas.” A Gamaya aposta no diferencial tecnológico das imagens hiperespectrais (capazes de captar até 40 bandas de cores, contra apenas três da fotografia digital convencional), combinadas com inteligência artificial e machine learning para abrir espaço em um mercado cada vez mais disputado. A resposta dos potenciais clientes, mesmo durante a pandemia, tem sido animadora. “Começamos o ano com apenas 15 contatos ativos. Na virada do semestre, entre contratos fechados, demonstrações e conversas avançadas, já contabilizamos 60 usinas”, comemora Santos.

São histórias que mostram que, se os agentes do agronegócio aproveitarem, de fato, toda essa transformação digital, o setor pode sair da pandemia ainda mais dono da posição de âncora verde da economia brasileira. E, neste caso, apenas para evitar qualquer falha de interpretação, “âncora” é sinônimo de equilíbrio, de estabilidade.

Apetite por inovação

Com o objetivo de compreender a mente do agricultor digital na era digital, a McKinsey, uma das principais consultorias empresariais do mundo, lançou, no início de maio, uma abrangente pesquisa sobre a digitalização no campo. O estudo é feito a partir de sete critérios: planejamento de safra, gestão de riscos, compra de insumos, aquisição de maquinário, inovação, comercialização e sustentabilidade. O resultado é surpreendente e mostra o apetite do agricultor brasileiro por inovação. “Nós já tínhamos essa hipótese sobre o nível de digitalização”, afirma Nelson Ferreira, sócio sênior da McKinsey e líder da Prática de Agronegócios na América Latina da empresa. “A pesquisa ajudou a dar a validação.”

O levantamento foi feito antes da pandemia com base em entrevistas com 750 produtores de cinco cultivos – algodão, grãos, café, cana-de-açúcar e legumes e verduras – espalhados por todas as principais regiões produtoras do País. As respostas mostram que 85% dos entrevistados usam o WhatsApp diariamente para resolver assuntos ligados à agricultura, mesmo nos grupos de menor alfabetização. E 71% usam canais digitais para questões ligadas à fazenda. Esse número chega a 96% entre os produtores das chamadas novas fronteiras, que incluem o cultivo de algodão e grãos no Cerrado e no Matopiba. A penetração digital é maior do que nos Estados Unidos: 36% dos agricultores brasileiros fazem compras on-line, contra apenas 24% dos norte-americanos.

Esse apetite por inovação e por novas tecnologias é puxado principalmente por uma nova geração de agricultores com formação acadêmica mais robusta. “Existe uma sofisticação muito grande. Há uma mudança de geração e o tomador de decisão é mais jovem, responsável por propriedades maiores”, diz Nelson. A pesquisa aponta que 53% dos agricultores usam ou pretendem usar pelo menos um tipo de ferramenta de agricultura de precisão, mas o número chega a 75% entre aqueles que produzem algodão e grãos no Matopiba. Essa diferença no interesse por inovação fica clara em outro dado, que mostra a diferença de mentalidade entre os agricultores mais tradicionais e a nova geração: 26% dos produtores de algodão no Cerrado e grãos no Matopiba afirmaram estar dispostos a testar novas tecnologias sem um histórico comprovado, contra apenas 6% dos agrupamentos de café, verduras e legumes, cana-de-açúcar e grãos no Sul do País.

Os resultados ainda mostram que não é possível generalizar um tipo de produtor nem por conta da região em que produz nem pelo cultivo a que se dedica. “Não existe um único agricultor brasileiro. Existem agricultores com perfis semelhantes em culturas diferentes”, afirma Nelson. “Os dados ajudam a sofisticar e granularizar a segmentação comportamental dos produtores.”

Se esse era o cenário antes da pandemia, quando a situação voltar ao normal o apetite do produtor por tecnologia será ainda maior. “A pandemia acelera a digitalização porque as pessoas estão sendo forçadas a adotar algumas mudanças. E as empresas vão ter que se adaptar a um ambiente de múltiplos canais. As vencedoras serão aquelas que aproveitarem melhor essa mudança”, diz Nelson. “O agricultor continuará demandando um relacionamento, mas ele não precisa mais ser físico. Pode ser virtual e remoto, como está acontecendo agora.” Em alguns casos, no entanto, o olho no olho e a negociação in loco continuarão sem substitutos. A compra de maquinário é um deles. A negociação pode ser feita via WhatsApp, e algumas peças até podem ser encomendadas on-line, mas o maquinário propriamente dito ainda é comprado pessoalmente.

O futuro é bastante promissor, mas ainda existem vários gargalos que precisam ser resolvidos. O velho dilema da conectividade no campo é um deles. De acordo com os dados coletados, 95% dos produtores têm internet na sede da fazenda, mas apenas 23% têm conexão em toda a propriedade. A experiência do usuário é outra questão a ser debatida. “A user experience de plataformas ligadas ao agro simplesmente não estão no mesmo nível do que existe em um banco ou em serviços do varejo”, afirma Nelson. Tanto que 53% dos entrevistados dizem que o atendimento ao cliente é um ponto importante no momento de aquisição de insumos. Se os sistemas on-line não oferecem um bom atendimento e uma experiência satisfatória, os produtores vão preferir manter velhos hábitos.

Outro ponto a ser melhorado é a segurança. A sensação de 40% dos entrevistados é de que o envolvimento em plataformas digitais só não é maior porque há uma percepção de que falta segurança. E essa percepção é vista especialmente nos produtores mais jovens, com formação superior e responsáveis por grandes propriedades. Ou seja, não é apenas uma sensação de um agricultor mais velho com menos intimidade com a tecnologia. A falta de garantia sobre o prazo de entrega, por exemplo, está inserida nesse contexto e representa uma grande barreira para a compra on-line de insumos. Afinal, o produtor não quer perder o momento oportuno porque seu pedido atrasou – uma realidade que é bastante conhecida por todos que compram pela internet, sejam produtos do agro ou não.

Soluções reunidas

Foi em meio à pandemia que uma das maiores empresas de insumos agrícolas do mundo decidiu anunciar sua nova estrutura de agricultura digital. A Syngenta Digital chega com uma plataforma e duas soluções disponíveis aos produtores e representa, de acordo com a empresa, uma nova etapa na estratégia de modernizar as práticas agrícolas. A nova estrutura incorpora as quatro startups que a Syngenta – companhia de origem suíça, hoje controlada pela ChemChina – comprou nos últimos anos: a brasileira Strider, a ucraniana Cropio e as americanas FarmShots e Ag Connections.

De acordo com Ronaldo Giorgi, head de agricultura digital da Syngenta para o Brasil e a América Latina, a mudança na estratégia se deve a uma percepção de que a capacidade de escalar as soluções seria muito maior se todas as empresas estivessem reunidas. Além disso, ele afirma que ferramentas e serviços desenvolvidos com foco em uma geografia específica poderão ser rapidamente adaptados. “Antes, havia um time de desenvolvedores só para o Brasil. Agora, existe um time que olha para as oportunidades de forma global, tentando adaptar as soluções para que elas sejam usadas no mundo inteiro”, afirma o executivo.

O Brasil foi escolhido como o primeiro mercado a receber a Syngenta Digital. A estratégia está organizada a partir da plataforma Cropwise, que chega ao País com dois produtos: o Protector, focado no manejo integrado de pragas, e o Imagery, um sistema de gestão e análises de imagens de diversas fontes, como drones, satélites e aviões. “A função dessa plataforma é conectar o valor agregado de múltiplas soluções até chegar a um resultado diferencial, no qual o valor gerado para os clientes que são usuários é maior que o valor dos produtos individuais”, diz Henrique Agostinho, líder de Desenvolvimento de Produtos da Syngenta Digital no Brasil.

A nova estratégia digital da Syngenta também tem foco nos produtores de pequeno e médio porte, pois os grandes já estão mais acostumados a adotar tecnologias mais avançadas no campo. “Se olharmos para nossa pirâmide de clientes, no topo teremos os grandes players na perspectiva global, como a Amaggi e a SLC, que são bastante estruturadas. Na base, estão os pequenos produtores”, afirma Giorgi. “Em agricultura digital, as tecnologias começaram a ser adotadas pelo topo da pirâmide. No mercado brasileiro de três anos atrás, só víamos os grandes produtores.” De lá para cá, houve um movimento de difusão da agricultura digital e produtores de médio porte passaram a se interessar mais pelas inovações. “O que estamos fazendo a partir dessa safra de agora é olhar para os pequenos, que são de fato aqueles que fazem um trabalho bastante forte e representam muito da agricultura brasileira”, diz ele. Por meio de parcerias da Syngenta com cooperativas e revendas, eles esperam oferecer aos pequenos a mesma tecnologia que já foi testada com os grandes players, mas em um formato simples o suficiente para que eles possam adotar.

Além da iniciativa digital que começa no Brasil, a Syngenta anunciou o lançamento do The Good Growth Plan. A empresa vai investir US$ 2 bilhões em agricultura sustentável até 2025 e se compromete a oferecer duas tecnologias disruptivas por ano. Trata-se de uma atualização da versão original do projeto, lançada em 2013, que propunha uma recuperação de 14 milhões de hectares à beira da degradação e a ampliação da biodiversidade em 8 milhões de hectares. De acordo com o comunicado global da empresa, todas as metas de 2013 foram superadas. O novo compromisso foi lançado após a realização de uma pesquisa de larga escala com produtores de Estados Unidos, França, China, Brasil, Índia e países da África. De acordo com os dados levantados, 72% dos entrevistados disseram estar preocupados com o impacto que as mudanças climáticas terão em suas culturas, e como elas poderão afetar seus negócios nos próximos cinco anos.

Ambientes digitais, feiras virtuais

Logo que os governos estaduais brasileiros começaram a adotar medidas restritivas para tentar reduzir os impactos da pandemia, os eventos do agronegócio foram imediatamente afetados. Feiras tradicionais de grande porte, como a ExpoZebu, em Uberaba (MG), e a Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), foram canceladas e as próximas edições acontecerão apenas em 2021. Outras, como a Expointer, em Esteio (RS), ainda tentam empurrar a realização para o final do ano, mas sem garantias. Essa onda de cancelamentos aconteceu também no resto do mundo. O encontro anual do Thought For Food, instituição que promove um desafio de startups com o objetivo de fomentar o ecossistema foodtech, aconteceria em Kuala Lumpur, na Malásia, em março, mas foi adiado para o fim de 2020. O fórum For the Future of Agriculture, que aconteceria em Bruxelas, na Bélgica, foi cancelado.

Para tentar driblar a não realização dos eventos físicos, a Agrotins, feira realizada há 20 anos em Tocantins, foi a primeira a adotar um formato cem por cento digital. Foram três dias de programação em um formato que remete à geografia das feiras presenciais. O Espaço dos Pavilhões oferecia vídeos e cartilhas com conteúdo do Governo Federal; o Campo do Conhecimento fornecia cursos e palestras sobre o futuro do agro, o setor de Expositores apresentava o conteúdo dos parceiros da Agrotins, e a programação ao vivo exibia conteúdo em tempo real. Após o término da feira, todo esse material ficou disponível no site do evento por 30 dias. De acordo com o balanço divulgado no final de junho, foram mais de 400 mil acessos e 4 milhões de visualizações das palestras transmitidas. E foram mais de R$ 216 milhões em negócios realizados – para efeito de comparação, na feira física de 2019 foram R$ 2,5 bilhões. “Quando comparamos com a feira física, parece pouco. Mas é bastante dinheiro”, afirma Thiago Dourado, novo secretário de Agricultura, Pecuária e Aquicultura do Tocantins, na live de apresentação do balanço. “Esse volume de negócios é importante porque foi a primeira vez que fizemos um evento como esse. Começamos a feira virtual, em que todos os desafios foram postos à prova, e alcançamos esse resultado fantástico”, comemora.

A startup Agrofy, que surgiu justamente com a proposta de oferecer um marketplace do setor em que o produtor pudesse encontrar tudo o que precisa, deu um passo adiante e lançou uma plataforma virtual para a realização de eventos do agro de forma digital. “Percebemos que era o momento de sermos ainda mais proativos, oferecendo uma solução que atendesse uma necessidade clara de todos. Já tínhamos a ideia de criar um grande evento digital, mas com a pandemia nos reinventamos para garantir novas possibilidades de fazer negócio”, diz Rafael Sant’Anna, business manager da Agrofy no Brasil.

Em um primeiro momento, as empresas poderão oferecer seus produtos, em condições especiais, na feira da Agrofy. Mas a startup já prepara uma segunda etapa que será realizada em parceria com grandes feiras do setor, como a Show Rural Coopavel, para a realização de suas edições de forma on-line. “Com isso trazemos o nome e a credibilidade do evento aliado com a qualidade e eficiência da plataforma”, afirma Rafael. De acordo com o interesse de cada organizador, será possível montar uma experiência customizada, com conteúdo de realidade virtual, estandes, canais de venda e atendimento, tudo o que acontece em uma feira tradicional.

A John Deere também lançou uma plataforma robusta de conteúdo digital. Com um design que remete a um pavilhão de exposições em uma feira, o Conecta oferece um ambiente virtual em que o cliente da companhia pode acessar informações sobre o maquinário, checar dados técnicos sobre cada máquina, conversar com o seu concessionário, acessar os serviços de pós-venda, além de informações de agricultura digital. O lançamento do Conecta é só o primeiro passo para a criação de um ecossistema John Deere que vai oferecer uma integração total entre o maquinário da companhia e seus serviços. A estratégia é transformar esse ambiente virtual em uma vitrine de serviços, tendências e máquinas da John Deere, além de palestras e outros conteúdos em vídeo.

Todas essas tentativas não significam que as feiras do agro simplesmente vão deixar de existir. Nelson Pereira, sócio sênior da consultoria McKinsey, acredita que os eventos físicos vão continuar acontecendo. “Não sabemos muito bem como isso vai acontecer no ano que vem, mas em algum momento as feiras físicas vão retornar. E as coisas vão coexistir de forma híbrida. O que veremos é um acesso a talentos e tecnologias do mundo inteiro remotamente”, afirma.

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