O sonho da agricultura espacial

Nos 50 anos da chegada do homem à Lua, produzir comida fora da Terra ainda é um desafio


17.07.19

Por Rafael Lescher

Há 50 anos, a missão Apollo 11 deixava a terra para realizar um dos maiores marcos do século XX. O pouso na lua marcou gerações. Chris Hadfield, ex-comandante da Estação Espacial Internacional, conta em seu livro “Guia de um astronauta para viver bem na Terra” que quando assistiu ao feito de Neil Armstrong e Buzz Aldrin, aos 10 anos de idade, decidiu naquele momento qual seria sua futura profissão. Agora, meio século depois, as novas gerações têm algo novo para olhar para cima e se inspirar.

Se tornar astronauta e subir ao espaço requer várias habilidades. Agronomia não é a primeira que vêm à cabeça da maioria das pessoas quando o assunto é exploração espacial. Mas ela é absolutamente necessária. Embora seja uma obra de ficção, o filme “Perdido em Marte” mostra o personagem de Matt Damon plantando batatas em Marte para sobreviver.

A agricultura no espaço realmente parece algo de cinema, mas já está nos planos de muitos cientistas pelo mundo. Mike Massimino, ex-astronauta americano que trabalhou na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), contou em uma reportagem para a revista WIRED como seus estudantes na Universidade de Columbia estão estudando conceitos de fazendas hidropônicas e aeropônicas em ambientes de gravidade zero. Segundo ele, é uma forma de cultivo de alimentos dentro da estação. Esse projeto se assemelha a outros já presentes aqui na Terra, como o computador de comida idealizado por Caleb Harper, cientista do MIT (leia entrevista de Caleb à PLANT). O diferencial está nos detalhes. Na ISS, água é algo precioso e precisa ser usado com sabedoria, assim como o espaço físico. Enquanto essa tecnologia ainda engatinha rumo aos céus, seu uso já é bem apreciado na Terra, em locais onde a agricultura não é algo tão simples.

A dificuldade do plantio na Terra não é o único motivo de preocupação de cientistas. Um trio de pesquisadores americanos e ingleses está encarando o desafio de cultivar em Marte. O planeta vermelho tem praticamente todos os recursos necessários para criar vida, mas quase tudo está congelado no seu solo. Aqueles que sonham com a futura vida em outro planeta acreditavam que seria necessário levar um pouco desses recursos daqui para lá, recriando as características da Terra em um ambiente controlado, como uma bolha. Mas os cientistas publicaram um estudo que pode mudar a ideia de habitat antes pensada. A criação de uma espécie de efeito estufa controlado provocaria um aquecimento necessário para que a vida em Marte saia do solo.

A ideia pode ser explicada de forma simples. Assim como algumas pessoas criam pequenas construções de vidro para aumentar a temperatura e umidade para as plantas, o grupo pretende fazer o mesmo, usando uma substância chamada Aerogel, porosa, sólida e derivada de um líquido que foi transformado em gás e é extremamente leve. Criado como isolante térmico, ele faz o mesmo papel do vidro e ajudaria no aquecimento do planeta. O material é abundante no solo terrestre e tem o benefício protetor de bloquear os perigosos raios UV emitidos pelo Sol, só permitindo a entrada dos raios necessários para a fotossíntese.

O agro brasileiro também quer chegar aos céus

O Oeste da Bahia é famoso por ter algumas das melhores lavouras de algodão do Brasil e do mundo. Agora, um grupo de estudantes de ensino médio  da região quer comprovar se ele não seria também o melhor algodão do espaço. Apoiados pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), os quatro alunos, sob a orientação da professora bióloga Daysa de Azevedo, querem enviar à estratosfera amostras locais para descobrir como o produto reage à alta radiação. Segundo a orientadora, isso ajudaria a criar um produto melhor, com maior valor de mercado. Para Alyne, Isadora, Luiz Carlos e Wendell, o momento é emocionante. Alguns participam do programa “Conhecendo o Agro”, da Abapa, que ajuda famílias associadas a permanecer no campo, dando uma oportunidade de educação melhor para as crianças. O programa cobre todos os custos dos jovens nas novas escolas.

Em Goiás, outro grupo de estudantes também alcançou as estrelas. Alunos do SESI Vila Canaã conquistaram o Torneio Aberto de Robótica de West Virgínia, promovido pela Nasa, agência espacial norte-americana. Seu projeto vencedor foi o desenvolvimento de um “chiclete de pimenta”, como foi chamado pelos jovens, que se propõe a devolver os sentidos gustativos e olfativos aos astronautas na ISS – um problema enfrentado pela falta de gravidade, que afeta a circulação sanguínea. O chiclete deve ser mastigado dez minutos antes das refeições. Mike Massimino, na entrevista à Wired, afirma que o uso de pimenta é fundamental na alimentação em gravidade zero. O grupo brasileiro trabalhou por sete meses no projeto, surpreendendo os jurados e membros da agência espacial americana com o resultado dos testes.