O resgate das castas autóctones

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


26.07.19

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

Se você, leitor, aprecia as castas viníferas internacionais – Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay etc –, não tem motivos para se preocupar: elas sempre terão lugar de destaque no mundo do vinho. São agronomicamente versáteis e se adaptam bem aos solos e climas das mais diversas regiões do planeta. Além disso, têm características bem conhecidas – e compreendidas – pela maioria dos bebedores de vinhos.

Mas os verdadeiros enófilos são infiéis por natureza. Gostam de provar novidades. Estão sempre em busca de vinhos surpreendentes. De uma uva ainda desconhecida. De um corte inusitado. De uma nova região vinícola. Esse “garimpo” é uma das delícias da enofilia contemporânea, já que o acesso a vinhos “diferentes” tornou-se mais fácil graças à internet, à queda de barreiras alfandegárias e à intensificação do comércio internacional.

Por isso, ressurge com novo entusiasmo na Europa (berço das principais castas viníferas), a produção de vinhos elaborados com uvas autóctones, ou seja, nativas do próprio lugar. Essa tendência é mais forte hoje em dia no Sul da Itália, em Portugal (principalmente pelas mãos hábeis de Filipa Pato, com as uvas Baga e Bical, na Bairrada) e na Grécia. Com mais de 4 mil variedades viníferas conhecidas à disposição de enólogos no mundo, as possibilidades de blends ou mesmo monovarietais inusitados são quase infinitas (pelo menos em teoria, uma vez que a quantidade de castas com potencial comercial é relativamente pequena).

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Passada a onda da globalização do vinho, que levou países como a Espanha, a Itália e Portugal, donos de verdadeiros tesouros genéticos autóctones, a arrancar muitos vinhedos antigos de Tempranillo, Sangiovese ou Touriga Nacional para cultivar Cabernet Sauvignon e Chardonnay, alguns vinhateiros desses países têm se voltado ultimamente para as variedades locais. Únicas. De nomes “estranhos”. Emblemáticas de cada região ou de um pequeno terroir.

Com essas uvas, elaboram vinhos diferenciados, que encantam enófilos já um pouco cansados da monotonia do trio Cabernet Sauvingon-Merlot-Chardonnay. Também no mundo do vinho, a diversidade é muito bem-vinda.

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