Citricultora por definição do destino

Série TOP FARMERS NOVA GERAÇÃO - Episódio 6: SARITA RODAS/Citricultura


Edição 11 - 22.05.19

Sarita Rodas se formou em Direito porque pretendia ser promotora e se dedicar à busca de um mundo mais justo. Uma fatalidade mudou sua rota, mas não sua meta, e foi a partir da agricultura que passou a ajudar as pessoas a buscarem uma vida melhor

Por Romualdo Venâncio | Fotos Rogério Albuquerque

Faz pouco mais de quatro anos que Sarita Rodas assumiu, de fato, a presidência do conselho administrativo do Grupo Junqueira Rodas, de Monte Azul Paulista (SP). À frente de um dos principais empreendimentos de citricultura do País, a jovem de 34 anos tem se consolidado como importante referência de gestão no agronegócio. Não por acaso, o faturamento da companhia dobrou nesse período em que está na administração. O cenário de expansão é confirmado também por outros índices, como os de produtividade. “O grupo está estruturado para produzir 6 milhões de caixas de laranja, o que corresponde a mais de 10 milhões de copos de suco da fruta por ano”, afirma Sarita, que vislumbra chegar a 7 milhões de caixas.

Além dos significativos indicadores das três atividades do grupo – citros, cana e pecuária –, o que mais tem colocado a citricultora sob os holofotes é sua trajetória e como o destino a reintegrou ao agronegócio. Apesar de ser filha de produtores rurais – a mãe pecuarista e o pai citricultor – e sempre ter convivido com a fazenda, Sarita se formou em Direito e pretendia se tornar promotora de Justiça, pois queria lutar por um mundo melhor, mais justo. “Nasci no agro, mas não me via trabalhando em uma empresa agropecuária”, afirma.

No mês de agosto fez dez anos que essa trajetória foi interrompida, ou melhor, alterada. O motivo foi a morte de Fábio Junqueira Rodas, pai de Sarita. Ele tocava sozinho a administração da empresa e, segundo ela, por ser centralizador e bastante protetor, procurava manter a esposa e suas três filhas (Sarita é a caçula) distantes das responsabilidades e preocupações do negócio. “Ele nos mimava muito”, lembra Sarita. Como ela nem pensava em se envolver com a agricultura, estava tudo bem. Até passou um período como trainee na companhia, por conta do processo de governança iniciado por seu pai. “Não importa se você vai ou não seguir na empresa, mas como um dia será dono precisa saber coisas do negócio para poder tomar decisões como tal”, comenta.

Sua irmã mais velha é quem estava sendo preparada para suceder a Fábio Rodas. Mas ela morreu seis meses antes do pai, após quase dois anos de tratamento contra um câncer. “Foram duas perdas enormes e repentinas, que nos deixaram absolutamente perdidas. Foi uma fase muito difícil, que ainda hoje estamos superando, agora com um pouco mais de tranquilidade”, comenta Sarita. “Passamos de uma empresa de um único dono para uma sociedade de seis pessoas, inclusive dois menores.” Alguém precisava tomar a frente para manter o negócio em movimento.

MUDANÇA DE ROTA

Imediatamente após a morte de Fábio Rodas, Sarita, sua mãe e sua irmã do meio tiveram de assumir os negócios. Escolhida para substituir o lugar de seu pai, Sarita explica como se deu tal decisão. “Foi algo muito simples. Minha mãe viu em mim um potencial que nem eu mesma acreditava, até porque não sentia que tinha competência técnica para o agronegócio, e decidiu que seria eu. Minha irmã concordou e ficou definido assim”, resume a administradora. “Foi algo bem sutil, na linha do manda quem pode, obedece quem tem juízo”, brinca Sarita, que se diz muito grata pela escolha da mãe, Maria Thereza Junqueira Rodas. E pelo apoio do tio Paulo Rodas. “Ele é meu grande conselheiro empresarial”, diz.

É natural que se tenha medo diante de um desafio de tamanha proporção, e para Sarita, então com 24 anos, foi um estímulo. “Devemos sentir medo, até por um instinto de sobrevivência, e ser empresária no Brasil é algo que apavora. Mas não é uma sensação que me barra, ao contrário, me encoraja”, comenta. Naquele momento foi fundamental a característica da gestora de jamais achar que não pode fazer algo. “Posso até não saber fazer, mas tenho a certeza de que posso aprender.”

O problema é que o prazo de aprendizado era curto, e Sarita partiu para um treinamento intensivo. “Não havia tempo para me matricular em Harvard ou em uma boa faculdade aqui no Brasil para dali a seis anos ter um diploma. Intensificamos o programa de trainee e passei por todas as áreas da empresa, com uma enorme riqueza de detalhes, para entender como tudo funcionava”, descreve Sarita, que também passou por preparações fora da empresa. “O que eu fiz foi uma série de compilados do que seria importante para o negócio. Inclusive conhecer um pouco de outros países, pois nosso produto é destinado à exportação.”

Sarita lembra que sua transição foi facilitada por seu pai ter formado grandes equipes, compostas por pessoas comprometidas com o negócio. “Ele sempre cuidou muito bem de quem trabalhava a seu lado”, afirma. A dedicação às pessoas também é uma das prioridades na empresa. A companhia tem um quadro de 500 colaboradores, podendo chegar a 2 mil nos períodos de safra. “Nosso maior desafio é cuidar das pessoas e desafiá-las a serem melhores todos os dias. Motivar as equipes a entenderem que sempre há algo melhor a ser feito. E isso se aplica a mim também”, diz.

Após ter vivido todo esse processo de sucessão e superação, Sarita decidiu compartilhar sua experiência com outras famílias, no intuito de ajudá-las a passar por essa fase de maneira menos complicada. Daí surgiu uma nova empresa, a Prossiga Governança Familiar, fundada por ela. “Se não cuidarmos da organização da família, corremos o risco de que muitas empresas familiares deixem de existir. Claro que inovar e se preparar são uma necessidade do mundo, mas é preciso se livrar do preconceito de falar do amanhã. Os frutos de mudanças simples que se faz dentro de casa, da família e da empresa não têm preço, pois você consegue prosperidade nos negócios e paz entre os familiares”, observa. Para ela, é imprescindível derrubar a ideia de que falar em preparação sucessória é falar em morte. “O que tem a ver com morte é herança, não sucessão.” A melhor maneira de multiplicar essa ideia, na opinião de Sarita, é pela conscientização.

LARANJA SAUDÁVEL E MAIS DOCE

Outra prioridade de Sarita à frente do Grupo Junqueira Rodas é assegurar a sanidade dos pomares, até porque a citricultura enfrenta desafios sanitários importantes. Ela explica que os pés de laranja vivem até 30 ou 40 anos, mas considerando uma vida média de 20 anos e o prazo de quatro anos até que se tornem produtivos, se não mantiver o cuidado permanente com as questões sanitárias, pode ser que as plantas nem cheguem a produzir. Sem contar que algumas doenças também são perenes, como os pés de laranja, portanto de difícil combate.

O manejo para formar pomares mais saudáveis começa pela produção das próprias mudas, passa pela escolha dos melhores porta-enxertos e pela opção por variedades mais resistentes, tanto a mudanças climáticas quanto a certas doenças. “Também usamos o que há de mais moderno em termos de irrigação, com sistemas que inclusive não dependem da ação humana, pois têm medidores automáticos que reduzem as possibilidades de erros”, acrescenta Sarita.

Tais medidas ajudam na obtenção de frutas muito doces e cheias de caldo, o que é essencial para o negócio do Junqueira Rodas. Há outros fatores que contribuem para esse resultado. Mais de 50% da produção é de laranja-pera rio, que, segundo Sarita, é a variedade de laranja mais doce que existe. Além disso, o cultivo é feito no norte de São Paulo, onde há frio à noite e bastante insolação durante o dia, condições favoráveis à maturação da laranja com maior concentração de açúcar. “Garanto que 100% das frutas de nossos pomares são cheias de caldo e vão render um suco incomparável”, diz a produtora.

Nesse período de meia-estação é mesmo mais difícil encontrar frutas que não sejam tão doces em um pomar como os da empresa. Já no começo da safra há variedades com um pouco mais de acidez e que são importantes para os blends de sucos. “Não são tão doces, mas fazem uma composição muito interessante”, afirma Sarita. A comercialização das laranjas é feita pelo Grupo Montecitrus, do qual o Junqueira Rodas é o maior acionista.

A combinação dos resultados na produção de laranja com as demais formas de envolvimento de Sarita com o setor citrícola trouxe outras conquistas para a empresária. Ela se tornou a primeira e única mulher no conselho do Fundecitrus, o Fundo de Defesa da Citricultura, e a componente mais nova. “Procuro pensar nessas conquistas como responsabilidades, para as quais preciso dar o máximo de mim”, diz. Essa representatividade poderia até ser um estímulo para a empresária enveredar por uma carreira política. Questionada a respeito, não confirma essa possibilidade, mas também não deixa claro que está descartada. “No Brasil, uma carreira política não é algo interessante, por tudo o que temos visto. Hoje, tenho uma grande responsabilidade com minha família, com a empresa, mas estou certa de que o Brasil só vai mudar quando pessoas boas perderem o medo e encararem o desafio dessa transformação”, comenta.

AGRONEGÓCIO DIVERSIFICADO

Em termos de utilização de área, o Grupo Junqueira Rodas tem equivalência entre a citricultura e a plantação de cana, com a diferença de que as laranjas têm um potencial produtivo muito alto. E é o principal negócio da empresa. Mas a busca pela produtividade nos canaviais é tão intensa quanto nos pomares de laranja. “O que amamos mais depois de sermos agricultores é sermos eficientes”, destaca Sarita. Nos mais de 3,8 mil hectares com cana, o rendimento é de 91,3 toneladas por hectare, com meta de chegar a 106 toneladas por hectare nos próximos dois anos. A produção é fornecida para usinas como Cofco, Tietê e Tereos, que são responsáveis pelo corte, carregamento e transporte.

A outra atividade é a pecuária, que embora ocupe uma área menor também é muito representativa. A julgar pela quantidade de prêmios na sala de troféus, resultado da participação em exposições, o gado é um grande destaque em termos de visibilidade. O Grupo Junqueira Rodas investe na raça Tabapuã, zebuíno desenvolvido aqui mesmo no Brasil, e os animais ficam em duas propriedades: a Fazenda Água Milagrosa, no município de Tabapuã (SP), e em uma fazenda em Naviraí (MS). Em São Paulo, são mais de 500 animais, entre os quais estão mais de 200 matrizes. Na fazenda do Centro-Oeste são 700 cabeças, incluindo 420 matrizes.

A empresa trabalha a comercialização de touros, matrizes, bezerros e bezerras, tanto nas fazendas quanto em leilões, feiras e exposições. O principal mercado é a venda de touros para trabalho a campo, na cruza com outras raças zebuínas, sobretudo o Nelore. “O Tabapuã é um gado precoce, que tem carne com boa cobertura de gordura, boa distribuição de gordura entremeada e maciez, o que faz toda a diferença”, descreve Sarita, acrescentando os ganhos em produtividade. “Se cruzássemos todo o rebanho brasileiro com Tabapuã, aumentaríamos em 20% a produção de carne bovina. E isso é um dado científico, de uma pesquisa feita pela Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais”, completa.

SARITA JUNQUEIRA RODAS

34 anos, divorciada, 4 filhos

Cargo: presidente do conselho

Faturamento: R$ 120 milhões

Composição dos negócios: produção de laranja, cana e seleção genética de gado Tabapuã

Área plantada: 13 mil hectares (35% de citricultura e 35% de cana)

Principais clientes: Montecitrus (exporta o suco)

Hobby: cozinhar para a família e os amigos e viajar