Pecuária 4.0: O cowboy virou CowTech

Tecnologias digitais levam setor a uma nova fase, com manejo inteligente e ganhos de produtividade


Edição 14 - 19.04.19

Por Romualdo Venâncio e André Sollitto

Em vez de vaqueiro, um drone. O olho do dono, aquele que engorda o gado, está na câmera ou no satélite. E o próprio gado, através dos movimentos ou até das expressões faciais, “dirá” ao pecuarista como se sente. Nos pastos, nos currais, nos troncos, nas salas de ordenha, em cada espaço das fazendas onde se cria gado, para corte ou leite, uma nada silenciosa revolução digital está transformando a pecuária e as empresas que fornecem insumos para a atividade que, no Brasil, é responsável pelo manejo de um rebanho de mais de 200 milhões de bovinos. Sucesso, na bovinocultura, agora é questão de alta performance. Como nos esportes, em que cada milésimo de segundo pode fazer diferença, desempenho estratégico, inteligência e inovação tecnológica aplicados à gestão do gado têm agora a missão de buscar eficiência nas mínimas variações do dia a dia da propriedade, seja em consumo de água e comida (pasto, silagem, ração ou suplemento mineral), ganho de peso, produção e composição do leite, padrão de qualidade do produto final, seja em eficiência reprodutiva, entre tantos outros pontos.

A transformação tem vários nomes, dependendo de quem fala. Para alguns, é CowTech, a tecnologia das vacas. Para outros, Pecuária 4.0, numa analogia à Indústria 4.0, em que sensores e robôs levam as fábricas a um inédito grau de eficiência e autonomia. O princípio é o mesmo: gerar e analisar em tempo real uma imensa quantidade de dados gerados por máquinas inteligentes, permitindo aos empresários a tomada mais assertiva de decisões. Mudam as ferramentas e o ambiente. No campo, lidando com seres vivos, as variáveis são maiores e, com isso, os desafios se multiplicam. A tecnologia encara todos eles e os casos de inovações se multiplicam no setor. Na Embrapa Informática Agropecuária, de Campinas (SP), por exemplo, uma pesquisa iniciada recentemente envolve o uso de veículos aéreos não tripulados, os Vants ou drones, para detecção e contagem de bovinos em sistemas de pecuária extensiva. O objetivo principal do estudo, liderado pelo pesquisador Jayme Garcia Arnal Barbedo, é aprimorar a gestão e o manejo do gado a campo, pois contabilizar o rebanho, ou controlar o estoque, é essencial para uma série de tomadas de decisão do produtor. Fazer isso do alto preserva os animais do estresse do deslocamento.

Veja o Infográfico – Os Olhos do Dono – A tecnologia digital que auxilia a tomada de decisões na pecuária

Esse manejo já era feito a partir de imagens de satélite, método que oferece vantagens semelhantes, mas com algumas limitações por conta da distância estratosférica entre o equipamento e os rebanhos, como o fato de não apresentar resolução espacial suficiente para a identificação individual dos animais e a interferência das nuvens. O uso dos drones para tal fim também enfrentará desafios, a começar pela preparação desses dispositivos para que contem os animais um a um, principalmente quando dois deles estiverem muito próximos, e não os confunda com outra coisa, como uma pedra.

A expectativa dos responsáveis pelo projeto é que os drones aprendam a driblar esses problemas e a distinguir exatamente o que devem fazer. É o processo chamado de machine learning, quando o equipamento evolui em suas funções a partir dos dados que recebe e que são transformados em algoritmo. Neste caso, haverá uma combinação de técnicas de processamento de imagens com softwares desenvolvidos especificamente para esse propósito.

A aplicação de drones na pecuária também é tema de um estudo desenvolvido com gado de corte pelo Texas A&M AgriLife Research and Extension Center, departamento de pesquisa da Texas A&M University, nos Estados Unidos. Voltado ao manejo sanitário, o trabalho visa detectar animais doentes ou feridos e, dessa forma, direcionar o tratamento com antibióticos, quando necessário, apenas para esses indivíduos, otimizando e reduzindo a aplicação do medicamento. Por meio de termovisores, ou câmeras térmicas, os drones enxergam no corpo dos bovinos pontos mais quentes, com temperatura acima do normal, que podem ser o sintoma de alguma inflamação. Apesar de ainda estar em uma fase preliminar, o projeto aperta o passo rumo à pecuária de precisão, seguindo a trajetória da agricultura.

Barbedo, da Embrapa: pesquisa uso de drones para contagem de gado

No universo CowTech, drones e satélites podem fazer até o papel de vaqueiros. Em fazendas da Nova Zelândia, uma potência da pecuária leiteira, já está em testes um sistema semelhante a um rastreador de veículos, que, por meio do georreferenciamento, determina uma área-limite para o deslocamento das vacas. Todas elas estão equipadas com um colar eletrônico, que produz um leve choque – bem menos intenso que o de uma cerca elétrica – cada vez que alguma das fêmeas tenta sair desse espaço predeterminado. “No total, são quatro avisos. Se já no primeiro o animal que lidera o rebanho for contido, os demais seguirão o exemplo e permanecerão dentro do limite de área”, diz Fernando Rott, gerente comercial no Brasil da Gallagher, empresa neozelandesa especializada em cercas elétricas e responsável pela inovação.

A reportagem continua. Leia mais:

CowTech Parte 2: Criação de Dados.

CowTech Parte 3: Tecnologia em Peso

CowTech Parte 4: De Olho no Cocho

CowTech Parte 5: Alimentando Startups

CowTech Parte 6: Decisões à Distância

CowTech Parte 7: Tecnologia na Genética

Infográfico – Os Olhos do Dono – A tecnologia digital que auxilia a tomada de decisões na pecuária

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