O primeiro vinho de ânfora do Brasil

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


05.10.18

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio

Vinhos fermentados em ânforas de barro são algo tão antigo quanto a história da vitivinicultura. Os gregos já os elaboravam desse modo muito antes de Cristo. Os romanos também. A tecnologia ancestral que precedeu a fermentação do mosto em barricas de madeira ou em tanques de inox vem conquistando nos últimos anos produtores europeus e sul-americanos de vinhos premium.   

Mais uma “modinha”, das tantas que agitam o mundo de Baco de tempos em tempos? Jogada de marketing? Ou a constatação de que a sabedoria dos antigos vinhateiros ainda tem valor? Os produtores garantem que os vinhos feitos em ânforas de barro têm qualidades que os distinguem dos fermentados em carvalho ou aço. Se a madeira aporta aromas e sabores aos vinhos afinados em barricas de carvalho francês ou americano, argumentam eles, por que os minerais e a porosidade da argila não teriam o mesmo efeito?

Seja como for, o Brasil também já tem o seu vinho de ânfora. O enólogo Giovanni Carraro, que, juntamente com os irmãos Juliano e Patrícia, da vinícola Lidio Carraro, desenvolveu o projeto do primeiro vinho brasileiro fermentado em ânforas de terracota, garante que “é possível perceber a evidência da mineralidade agregada pela ânfora. O vinho tem notas terrosas, de frutas negras e especiarias”. A argila utilizada na confecção das ânforas de cerâmica (não vitrificada) saiu da propriedade da família Carraro, em Bento Gonçalves. “Além de resgatar uma técnica milenar, nosso projeto valoriza a essência do vinho e a pureza do terroir”, acrescenta Patrícia.

Giovanni Carraro

O vinho de ânfora da Lidio Carraro é um corte de Merlot, Pinot Noir e Nebbiolo da safra 2018 – uma das três melhores que o Brasil já colheu. Cada variedade fermentou, separadamente, em duas ânforas de 500 litros por um período de 12 a 15 dias, permanecendo por mais 20 dias nesses recipientes para concluir a fermentação malolática (conversão do ácido málico em ácido lático, que torna o vinho mais macio). Detalhe: a fermentação ocorreu por ação exclusiva de leveduras “indígenas” (naturais).  Os vinhos estagiaram por mais 90 dias nas ânforas. Depois de elaborado o blend, o produto final ainda permaneceu por mais 60 dias em contato com a terracota, para só então ser engarrafado. Nas garrafas, o líquido descansará por mais 18 meses.

Para conferir essa “novidade antiga”, portanto, precisaremos de um pouco de paciência. As 1,2 mil garrafas de vinhos de ânforas da Lidio Carraro só chegarão ao mercado em 2020.  Por enquanto, são comercializadas por meio de um exclusivíssimo pacote de 600 cotas, cada uma com direito a duas garrafas por CPF (uma para beber e a outra para guardar). Colecionadores de vinhos e enófilos em busca de novas experiências são o público alvo da simpática vinícola do Vale dos Vinhedos, que funciona junto a casa da família, em meio à verdejante paisagem da Serra Gaúcha.

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TAGS: Lidio Carraro, Vinhos