O agro e o protagonismo do consumidor

Coluna PRODUÇÃO E CONSUMO - Por Camila Macedo Soares


21.05.18

Sócia-Diretora da Biomarketing, consultoria e agência de publicidade focada no agronegócio, Camila Macedo Soares é mestra em Comportamento do Consumidor.

Como protagonista do enredo comercial do agronegócio, o consumidor deve ser sempre o centro da trama. O grande destaque deste protagonismo é a consciência do consumo, que deixou de ser irracional e automática para ser lógica, calculada e exigente. As promessas de vendas não são mais sustentadas com belas e elaboradas palavras, mas com transparência e ética na produção e compartilhamento da informação. Para atender ao mercado consumidor é preciso conhecê-lo a fundo, e não apenas superficialmente. Não basta mais segmentar o público por gênero, idade e geografia; é preciso explorar seus comportamentos, hábitos, anseios, preocupações, crenças, desejos e motivações.

Diante desta nova realidade, surge também um novo modelo de consumo do agronegócio, com um cliente cada vez mais curioso e exigente, buscando informações detalhadas sobre toda a cadeia produtiva. Assim, passaram a fazer parte do nosso dia a dia temas como análise sensorial, valorização da produção regional, saudabilidade e segurança do alimento, bem-estar animal, informações de origem, materiais recicláveis, comércio justo, produção com baixa emissão de carbono e menor impacto ambiental, energia limpa e rejeição às tecnologias, como transgenia ou biologia sintética, na produção de alimentos. Alguns produtos também apareceram nas prateleiras e conquistaram o consumidor: alimentos sem lactose, açúcar e glúten, sem aditivos e corantes artificiais, isentos de antibióticos, mais nutritivos e biofortificados, menos processados, funcionais, celíacos, fit, gourmet, refeições prontas, visando a conveniência, e fracionadas, para consumos individuais.

Subdividido em nichos de consumo, o mercado hoje é atendido de acordo com suas novas demandas. A carne de laboratório, ou sintética, por exemplo, já é realidade. Com o propósito de produzir carne a partir de células animais, a Memphis Meats, sediada em São Francisco, tem entre os investidores os bilionários Bill Gates e Richard Branson. Por ora, a promessa é de carne bovina, de frango e de pato. Além de alternativas à produção de carne, a demanda tem sido também por novas proteínas. O hambúrguer de larvas, por exemplo, é rico em proteína e tem produção sustentável, com menos consumo de água e terra, além de baixa emissão de CO2.

Em outra vertente, Bioleather aparece como tendência. O campo de batalha entre o desejo pelo couro em uso automotivo, vestuário, etc., e a aversão ao abate animal abriu uma nova oportunidade de mercado.  De encontro a isso, a americana Modern Meadow inovou com o processo chamado biofabricação, projetado a partir do uso do colágeno dos animais. Com a promessa de design inovador, flexibilidade, diferentes texturas e produção em alta escala, a biotecnologia aplicada pela empresa entrega o que o consumidor pediu: couro sem abate animal.

Em paralelo, a Bolt Threads lançou biomaterial, elaborado a partir de micélio, estrutura da raiz subterrânea dos cogumelos. Aversa à polímeros à base de petróleo, processos tóxicos e materiais não renováveis, a marca defende a produção de tecidos sustentáveis, renováveis e de alto desempenho. Inspirados pela natureza, desenvolveram uma tecnologia que replica as fibras de seda produzidas pelas aranhas e garantem os atributos de resistência, elasticidade, durabilidade e maciez da produção original, em larga escala e com processo sustentável. Hoje o material já é promessa ao mundo da moda, liderado pela estilista Stella McCartney, com a bolsa Falabella.

A demanda por sustentabilidade, entretanto, não se encerra nos rebanhos. Na Espanha, a empresa Sorbos lançou um canudo comestível, reciclável e biodegradável como alternativa ao tradicional canudo de plástico. Com base de açúcar, gelatina bovina e amido de milho, o desafio do produto era não se desfazer no contato com o líquido. Conseguiram. Já estão à venda, com a possibilidade de serem aromatizados e personalizados com sabores e escritas. E aos fitness de plantão, não há com o que se preocupar, já que cada canudo contém apenas 24 calorias.

Como atender, afinal, com eficiência, sustentabilidade e rentabilidade às novas exigências de consumo? É imprescindível que haja organização da cadeia produtiva, para compreensão profunda da demanda e entrega de valor único. Um elo desconectado dos demais da cadeia inviabiliza a eficácia do resultado final. Não somente as empresas, mas também os produtores devem estar de olho nas tendências e novas demandas. São eles os empresários do campo. Já não basta produzir, é preciso considerar e observar, com bastante cuidado, tudo aquilo que está sendo demandado. Estar atento à constante transformação do comportamento do consumidor e protagonismo exponencial impulsiona a identificação de oportunidades e evolução de novos negócios.

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