Talos e restos interessam. E muito.

O combate ao desperdício de alimentos começa se tornar um lucrativo nicho de negócios

“A agricultura digital veio para ficar. Ela vai crescer muito rapidamente e aquele que não entrar hoje vai entrar amanhã, porque é um caminho sem volta.”

Arlindo Moura, CEO do grupo Terra Santa


Edição 8 - 28.03.18

Dona de algumas das maiores fazendas de cenoura da Austrália, a Rocky Lamattina & Sons chega a produzir até 65 mil toneladas por ano. Apesar do rigor, nem toda leguminosa sai no padrão estético esperado pelo mercado: cerca de 15% da produção ou é considerada naturalmente feia (caso das cenouras de duas pernas) ou acaba se quebrando.
Como a qualidade não é prejudicada, essa parcela é enviada a uma outra unidade do grupo, para fabricação de sucos e polpas. No processo de esmagamento, as cenouras liberam água. “No começo usávamos para lavar o chão. Depois fizemos melhoras na fábrica e passamos a utilizá-la como fertilizante”, conta o diretor da fábrica, Angelo Lamattina. Isso até uma nova ideia, ainda mais inovadora, bater à sua porta. Em 2016 eles lançaram no mercado a AquaBotanical, marca de água premium com presença em restaurantes, hotéis e lojas especializadas.

A australiana AquaBotanical: extraída do esmagamento de cenouras

O reaproveitamento de materiais está longe de ser uma novidade. Tanto empresas como organizações não governamentais vêm investindo, há anos, em projetos de reciclagem e de combate ao desperdício de alimentos, principalmente com viés social. O que se vê agora, porém, é uma onda de novos negócios que apostam no reaproveitamento como algo capaz de gerar resultados financeiros. São startups com propostas inovadoras, embaladas por uma estratégia de marketing que atende às demandas de um consumidor cada vez consciente.

Veja o caso da americana Jody Levy. Formada em artes com foco em processos criativos, há cinco anos ela fundou a WTRMLN, marca de sucos de melancia 100% naturais. A ideia surgiu com base em uma conversa despretensiosa com um amigo do setor imobiliário (Harlam Berger, seu sócio) sobre os bilhões de toneladas de melancia que
são descartados anualmente nos Estados Unidos pelo simples fato de estarem machucadas. “Outros empreendedores
já haviam tentado antes, mas a melancia é uma fruta difícil de se trabalhar. Foi graças aos avanços da tecnologia alimentar que felizmente conseguimos”, diz a empresária.

Segundo estimativas da FAO, cerca de 30% da produção brasileira ou é perdida ou desperdiçada. Já um levantamento feito pela Associação Brasileira de Supermercados, a Abras, mostrou que as perdas do setor chegaram a R$ 7 bilhões em 2016, considerando apenas os alimentos aptos para o consumo, como os feios e danificados. Os varejistas vêm adotando medidas para atenuar esse quadro: caso do Carrefour no Brasil, que no ano passado começou a vender as hortaliças preteridas em gôndolas especiais, com até 30% de desconto.

Na França, a rede Intermarché lançou uma campanha de conscientização para mostrar a “beleza dos alimentos feios”, como forma de chamar a atenção do consumidor. “Existe uma demanda das novas gerações que é real. São consumidores mais conscientes e que fazem questão de comentar e compartilhar quando há iniciativas do tipo”, diz Fernando Beltrame, que além de engenheiro de alimentos é CEO da Eccaplan, startup que desenvolve projetos de combate ao desperdício, com clientes em diferentes segmentos.

Foi para atender esse público que surgiu a americana Misfit (algo como “desajustado” ou “excêntrico”, em português). Fundada em 2015, a empresa produz sucos de frutas e vegetais que seriam descartados por questões estéticas. A bebida, vendida em garrafinhas de 350 ml, é prensada a frio, processo que mantém nutrientes importantes da matéria usada – fato que também atende às exigências desses novos consumidores. “Nossa marca tem um valor que vai além do suco em si. E é genuíno, pois de fato acreditamos em um projeto de combate ao desperdício. E ainda transformamos isso em um produto comercial”, diz Ann Young, uma das fundadores da Misfit.