Jorge Paulo Lemann também é agro

Entenda por que o bilionário é um dos maiores compradores de produtos agrícolas do mundo

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”

Monteiro Lobato


Edição 3 - 15.02.18

Se você é produtor, deve se preocupar com os movimentos de Jorge Paulo Lemann. Brasileiro mais bem colocado no ranking de bilionários da Forbes (número 19 da lista, com fortuna estimada em US$ 28,7 bilhões), suas operações raramente são relacionadas ao agronegócio, mas suas decisões podem refletir fortemente na ponta da cadeia de produção. As empresas que seu fundo, 3G Capital – em que opera ao lado de antigos sócios como Marcel Telles e Beto Sicupira ou de mais recentes, como o megainvestidor Warren Buffett –, controla estão entre as maiores compradoras de insumos vindos das mais diversas frentes da agropecuária em todo o mundo. São dezenas de marcas, com centenas de linhas de produtos, capazes de influenciar hábitos de consumo e até mesmo preços nos mercados internacionais. Na esfera de influência de Lemann estão produtores de carnes bovina, suína e de frangos, cevada, tomate, leite, entre outros produtos agrícolas.

Essa presença poderia ter ficado ainda maior caso a grande tacada do investidor não tivesse sido frustrada. Em fevereiro de 2017, a indústria de alimentos Kraft-Heinz – na qual o 3G e Buffett são sócios – ofereceu US$ 143 bilhões pela compra da multinacional Unilever, uma operação que daria vida à segunda maior empresa de alimentos do mundo, atrás somente da Nestlé. A Unilever descartou a proposta. Imediatamente, Lemann mostrou seu apetite e abocanhou a rede americana de restaurantes Popeyes, especializada em pratos à base de carne de frango, com 2.600 lojas em território americano e em mais 25 países ao redor do planeta.Confira alguns dos movimentos de Lemann que fizeram dele um dos maiores compradores de produtos agrícolas do mundo.

AB Inbev: formada ao longo de 20 anos com fusões entre as brasileiras Brahma e Antarctica, a belga Interbrew e a americana Anheuser–Busch, se tornou a maior cervejaria do mundo. Apenas a Ambev, fração brasileira do grupo, produz cerca de 16,9 bilhões de litros de bebidas por ano. Para tanto, a empresa construiu uma rede de abastecimento que garantisse o fornecimento de cevada. Para isso, a companhia mantém uma parceria com a Embrapa, por meio da qual incentiva o cultivo do grão no Brasil. São cerca de 2 mil agricultores do Rio Grande do Sul e do Paraná, espalhados por uma área de 56 mil hectares, que vendem 163,4 mil toneladas – 62% da produção nacional – anualmente para a Ambev.

Kraft-Heinz: a fusão entre a Heinz, adquirida em 2013, e a Kraft Foods deu origem à terceira maior empresa de alimentos e bebidas do planeta e uma enorme fatia do mercado de molhos prontos do mundo, com uma gigantesca demanda por tomates. A empresa não divulga o volume do produto processado, mas especialistas de mercado apontam a companhia como o principal destino dos tomates cultivados em São Paulo, maior produtor nacional, com 25% da oferta do vegetal.

Burger King: adquirida em 2010, num negócio de US$ 3,3 bilhões, fez do fundo também um respeitável comprador de carnes bovinas e de frango. A estimativa é de que, por dia, sejam vendidos cerca de 11 milhões de lanches em todo o mundo. Para saciar toda essa fome, são necessárias mais de 600 mil toneladas de carne por ano. Para garantir esse volume, a empresa aposta na parceria com alguns dos maiores fornecedores de carne do mundo, como a brasileira JBS e Miratorg, maior companhia agrícola da Rússia.

Texto originalmente publicado na edição #03 de Plant Project (mar/abr 2017).

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