A cana como bandeira

Ismael Perina Júnior - Top farmer Cana 2017


Edição 3 - 25.11.17

Exemplo dentro e fora da porteira, o agricultor Ismael Perina Júnior se tornou um modelo na área de produção e uma das principais lideranças para o setor sucroenergético

Por Romualdo Venâncio | Fotos Emiliano Capozoli

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Ismael Perina Júnior é uma rara unanimidade. Poucos agricultores desfrutam do mesmo prestígio e do respeito que ele conquistou, seja com seus companheiros de cultivo de cana-de-açúcar, seja na relação com lideranças e autoridades – sobretudo da área pública – ligadas ao agronegócio. Na verdade, uma coisa puxou a outra. A eficiência que sempre buscou nos canaviais, com alta produtividade e custos cada vez mais baixos, o colocou em uma posição favorável para explorar uma característica que ele semeou durante toda a vida: a dedicação ao benefício coletivo. “Isso vem da minha formação e da convivência com pessoas muito ativas nessa área”, comenta Perina. A influência, conta, veio de casa: “Meu pai trabalhou muito tempo na Nestlé e foi o fundador da cooperativa dos funcionários da empresa”.

Família, lavoura e o desenvolvimento coletivo da agricultura formam o tripé da prática e do discurso do produtor. São os insumos de uma trajetória vencedora, que o tornou referência no setor sucroalcooleiro – e o Top Farmer Cana, escolhido pela PLANT PROJECT, em 2017. O envolvimento com a cultura vem de longa data, por sua origem na roça. “Meus avós já eram produtores rurais”, afirma Perina. Em 1980, quando se formou engenheiro agrônomo pela Unesp de sua cidade, Jaboticabal, no interior de São Paulo, assumiu a administração da propriedade da família, a Fazenda Belo Horizonte, e iniciou ali um processo de revitalização da atividade. Combinando a vivência e o gosto pelo campo com o conhecimento acadêmico e o espírito questionador, foi buscar inovações tecnológicas, ferramentas e métodos que pudessem otimizar os resultados das lavouras. Um deles, hoje uma espécie de assinatura de seu trabalho como produtor, é o Método Inter-rotacional Ocorrendo Simultaneamente, mais conhecido pela sigla Meiosi.Com as botas vermelhas da poeira da Belo Horizonte, Perina se orgulha de mostrar ao vivo seu laboratório a céu aberto. Caminhando pela lavoura, ele rapidamente dá uma aula sobre Meiosi. Conta que o método ficou esquecido por algum tempo, mas passou a ganhar espaço novamente, impulsionado pela aplicação de novas tecnologias. De maneira geral, o cultivo de cana por Meiosi consiste em intercalar os espaços com outras lavouras que tragam benefícios econômicos e agronômicos. No caso da Fazenda Belo Horizonte, predomina o amendoim, mas também entram soja e feijão. Essa integração da cana com as oleaginosas, uma rotação de culturas, favorece o plantio de ambas. O grão entra nas áreas de reforma dos canaviais como mais uma fonte de renda e ainda melhora as condições da terra para um novo ciclo da cana. A mudança ajuda também no controle sanitário. “Como não há tantas pragas e doenças comuns às duas culturas, você quebra o ciclo do problema e aumenta as chances de sucesso na próxima safra”, diz. “A técnica foi desenvolvida de maneira muito simples, o que temos feito é buscar o máximo de rentabilidade do que já temos.”

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PRODUTIVIDADE MÁXIMA

Da área total de 670 hectares da Fazenda Belo Horizonte, cerca de 600 são ocupados pelos canaviais. É nesse espaço que entra também o amendoim. Do restante, uma pequena parte é destinada à criação de gado de corte. Na busca pela melhor rentabilidade, Perina se apega aos detalhes, microfatores que podem fazer grande diferença nos cálculos de produtividade e custos de produção. “No macro, as coisas estão bem resolvidas”, pontua. Para reforçar cada possibilidade de retorno da atividade, o agricultor deixa a porteira sempre aberta para tecnologias mais modernas, novos produtos ou versões atualizadas desses itens e iniciativas inovadoras dos fornecedores. “Todo ano procuramos administrar cada um dos talhões dentro de um novo modelo de utilização de insumos e isso tem funcionado muito bem.”

“Minha grande vontade é ver a melhoria do todo, pois ganhamos individual e coletivamente”

Em alguns casos, basta uma mudança estratégica de manejo para surgirem resultados surpreendentes. Foi o que aconteceu com a programação de reforma dos canaviais. “A cada ano, reformávamos praticamente 20% da área total. Ao final de um período de cinco anos toda a lavoura estava renovada”, cita Perina. Agora, esse processo é feito com menos de 10% dos canaviais e o ciclo total de renovação se completa em um prazo próximo de dez anos.

“Reformamos apenas o que é realmente necessário, onde houve perda de produtividade ou algum outro problema. Se levarmos em conta o custo de R$ 8 mil por hectare nesse manejo, dá para ter uma ideia do quanto conseguimos economizar.” A longevidade da cana plantada na Belo Horizonte, próxima de dez anos entre os cortes, é condição essencial para se alcançar tal evolução. Essa cautela com as lavouras tem chamado a atenção inclusive de outros especialistas do setor sucroenergético. É o caso de Plínio Nastari, presidente e CEO da Datagro Consultoria., uma das principais empresas globais de consultoria especializada em mercados agrícolas e que atende clientes em 41 países. “Estou muito impressionado com o que ele tem conseguido em termos de longevidade e produtividade com o sistema de Meiosi e a rotação de culturas”, comenta Nastari.

Os números justificam bem a boa impressão. Na safra passada, Perina comemorou a melhor produtividade de seus canaviais ao conseguir colher 111 toneladas por hectare. Considerando os últimos quatro anos, a média foi próxima de 100 toneladas por hectare — a média nacional não chega a 80. “Alcançamos esse resultado em um ambiente de média fertilidade, pois não se trata de uma fazenda com terras de excelente qualidade”, afirma o produtor/agrônomo. No passado, lembra, com um canavial bem mais novo, a produtividade média da propriedade ficava entre 85 e 88 toneladas por hectare.

MULTIPLICAÇÃO SEM MILAGRES

Associado ao sistema de Meiosi, Perina vem trabalhando com a utilização de mudas pré-brotadas (MPB), que apresentam padrões elevados de qualidade e sanidade. Cada uma dessas mudas vai gerar uma touceira, e os colmos dessa cana se tornam uma nova muda. Ou seja, cria-se um estoque de “sementes” disponível no próprio local para a implantação dos canaviais. Na prática, esse viveiro é plantado em uma linha entre as áreas ocupadas com amendoim, que darão espaço para 10 ou 20 futuras ruas de cana, cultivadas a partir das mudas obtidas ali. As vantagens da utilização de MPB passam por maior produtividade, controle sanitário, melhor padronização da produção, praticidade no manejo das lavouras e redução de custo. “O desenvolvimento dessas mudas é a grande evolução dos últimos anos no cultivo da cana”, afirma Perina.

“Ano a ano procuramos administrar cada um dos talhões dentro de um novo modelo de utilização de insumos”

A satisfação do fazendeiro é baseada nos resultados práticos. Ao eliminar a necessidade de transporte das mudas, há uma redução de até 35% nos custos de produção, o que envolve consumo de combustível, mão de obra, desgaste dos veículos, entre outros itens. Essa economia pode ter um incremento de mais 20% com o aumento da produtividade, algo que vem acontecendo rapidamente. Há quatro anos, quando começou a utilizar a tecnologia de MPB, o fator de multiplicação era de uma linha para sete. “A rigor, usávamos duas linhas, mas passamos para uma porque a quantidade de mudas era suficiente”, diz Perina. Assim que se tornou possível trabalhar com uma linha para dez, o agricultor resolveu ganhar também no espaçamento. “Deixávamos uma distância de 50 centímetros entre as mudas e passamos para 65 a 70, dependendo da variedade.”

Agora, assim que o amendoim é colhido, cada linha de mudas pré-brotadas dá origem a outras 20, sendo dez de cada lado. “É um rendimento impressionante”, comemora Perina, que viu esse potencial ser dobrado. “Recentemente realizamos um dia de campo na fazenda e constatamos que algumas mudas apresentaram fator de multiplicação de uma linha para 40.” O ganho é também qualitativo, pois é possível selecionar a variedade de muda de acordo com as características de cada área. “Consigo planejar o desenvolvimento da forma de plantio de maneira muito mais completa, certo de que a cana cultivada é de fato a ideal para aquele tipo de solo. Diferentemente do que acontecia no passado, quando corríamos o risco de utilizar uma variedade que não permitia aproveitar o melhor potencial oferecido pelo solo.”COMPROMISSO COM O COLETIVO

Assim como a cana que produz, Perina é um especialista em multiplicar tempo. Apesar de toda a atenção que tem com a atividade agrícola da família, ele dedica apenas entre 25% e 30% de sua jornada à propriedade. Em geral, os finais de semana. “É quando coloco tudo em dia”, comenta, tranquilo. Na gestão da rotina, afirma, seu trunfo é contar com uma equipe eficiente. “Nosso técnico agrícola mora na fazenda e cuida de todo o quadro funcional, gerencia as planilhas de todas as operações e sempre conversamos sobre o que é melhor a ser feito e quando deve ser feito.” Além do pessoal que está no dia a dia da Belo Horizonte, há o suporte dos técnicos da cooperativa da região.

É nesse ponto que a prosa toma o rumo de uma parte importantíssima da agenda e do currículo de Perina. Quando questionado sobre seu envolvimento com entidades do setor, o fazendeiro respira um pouco mais fundo. Pode ser por causa de sua paixão pela representatividade classista ou porque sabe que o assunto vai longe e precisará mesmo de mais fôlego. E então se empolga. Para se ter ideia, Perina é presidente do Sindicato Rural de Jaboticabal – caminhando para um segundo mandato; é diretor da cooperativa de crédito Sicoob/Coopcredi de Guariba (SP), instituição que já presidiu; é vice-presidente da Central de Cooperativas de Crédito do Estado de São Paulo, e por conta disso acaba tendo eventuais participações nas reuniões da Central de Cooperativas dentro da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), em Brasília.

“Buscamos produtividade acima de 100 toneladas de cana por hectare. E estamos nesse patamar”

Achou muito? Mesmo os cargos que já não ocupa mais ainda ganham sua atenção. Perina presidiu a Associação de Fornecedores de Cana de Guariba (Socicana) e a Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana). “Sempre me coloco à disposição do atual presidente da Orplana, Eduardo Vasconcellos Romão, para participar de alguns fóruns nacionais e internacionais, o que é muito satisfatório para mim”, comenta. Pelo menos duas vezes por mês ele vai a Brasília representando a entidade. Somando todas essas atribuições, o agricultor mantém uma rotina de dois a três dias em sua cidade, dois a três dias fora – em geral na capital federal – e os fins de semana cuidando da fazenda.O interesse em trabalhar pelo coletivo surgiu desde quando passou a administrar a fazenda de sua família. Bastou o incentivo certo, vindo de um admirado professor, para que entrasse de corpo e alma. “Conheço o Ismael Perina há muitos anos”, conta Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas, uma das grandes inspirações do agricultor. “Foi meu aluno de Cooperativismo na faculdade. E seu primeiro trabalho profissional também foi comigo, quando conseguimos que o governo instituísse o pagamento de cana pelo teor de sacarose e montei o Departamento Técnico da Socicana em Guariba, para monitorar a instalação dos sistemas de medição da sacarose nas usinas da região. Ismael, muito jovem ainda, chefiava então a validação do novo modelo em uma das usinas.”

Se hoje Perina é – ou continua a ser – uma personalidade tão solicitada, tal condição é resultado do prestígio conquistado ao longo de quase 40 anos dedicados ao setor sucroenergético. “Acompanhei a trajetória profissional e institucional de Ismael no cooperativismo e no associativismo, que foi sempre marcada por seriedade, interesse pela inovação e dedicação às causas da classe rural, em especial os produtores de cana-de-açúcar. Desprendido e tolerante, é um líder democrático e moderno, e todos que o conhecem esperam que assuma cargos e funções cada vez mais destacados, pelo bem da categoria que representa tão bem”, acrescenta Roberto Rodrigues.

“O desenvolvimento da tecnologia da muda pré-brotada é a grande evolução desses últimos anos, pois intensifica a produtividade com alto grau de sanidade da cana” 

Exemplo claro da consideração que o setor tem por Perina foi a indicação de seu nome para presidir a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Açúcar e do Álcool, órgão ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O período de dois anos que passou à frente da Câmara Setorial, entre 2014 e 2016, foi muito importante para conhecer melhor certas dificuldades. “Quando há troca de governo, troca de pessoas, começa tudo de novo. Essa falta de sequência é uma das coisas mais danosas para o Brasil, pois o País perde recursos, investimentos e potencial.” O aprendizado só fortaleceu o conceito que traz desde o princípio dessa jornada: “Minha grande vontade é ver a melhoria do todo, pois ganhamos individual e coletivamente”.

 

Saiba quem são os Top Partners, parceiros de Ismael Perina Júnior na Fazenda Belo Horizonte

 

Ismael Perina Júnior

ISMAEL PERINA JUNIOR

58 anos, casado

Diretor da Fazenda Belo Horizonte (Jaboticabal, SP)

Faturamento 2016: R$ 6 milhões
Divisão do faturamento: 90% cana e 10% amendoim (essa divisão varia conforme o cenário de oportunidades e a definição da área de reforma dos canaviais)
Área total da empresa em São Paulo: 670 hectares
Área para plantio de cana: 600 hectares
Produção:
• Cana – 60 mil toneladas por ano (entregue para a Usina São Martinho)
• Amendoim – 10,8 mil sacas de 25 kg por ano (270 toneladas entregues para a Coplana – Cooperativa Agroindustrial)
Hobbies: viajar, ouvir música caipira, assistir a esportes na TV (principalmente tênis e vôlei)
Outras atividades: presidente do Sindicato Rural de Jaboticabal, diretor da cooperativa de crédito Sicoob/Coopcredi de Guariba (SP) e vice-presidente da Central de Cooperativas de Crédito do Estado de São Paulo.