Top Farmers – Episódio 8: Touros lapidados como jóias

Geraldo Martins - Top Farmer Pecuária de Corte 2017


Edição 6 - 11.10.17

Geraldo Martins, presidente da Agro-Pecuária CFM, garante que cada reprodutor Nelore vendido pela empresa traz resultados não só para quem compra o animal, mas também para toda a cadeia produtiva da carne.

Por Romualdo Venâncio | Fotos Ferdinando Ramos

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Geraldo Toledo Martins, presidente da Agro-Pecuária CFM, recebeu a reportagem do projeto TOP FARMERS no Recinto Anísio Haddad, em São José do Rio Preto (SP), poucas horas antes dos primeiros lances do Megaleilão CFM, um dos momentos mais importantes no calendário pecuário da empresa. Já em sua 19ª edição, o evento é a consolidação de um longo trabalho de melhoramento com o gado Nelore. “É a apresentação ao mercado de nosso produto final, que levou tanto tempo para ser preparado”, descreveu o executivo, ansioso pelo início das negociações.

A expectativa era mais do que justificável. Estavam à venda no remate cerca de 25% dos 2 mil reprodutores que a CFM oferta anualmente. Após sete horas de leilão, 453 animais haviam sido arrematados pelo preço médio de R$ 10,1 mil, com faturamento total de R$ 4,57 milhões. A cotação mais alta do dia chegou a R$ 39,2 mil, um lance da Fazenda 7 Voltas (Ribas do Rio Pardo, MS) por 49% da posse de CFM Duque, o melhor touro da safra 2015 da empresa. Prestes a completar 2 anos de idade, o animal já saiu do evento contratado pela central CRI Genética.

“Nosso programa agrega qualidade ao produto, tanto para o pecuarista como para toda a cadeia”

A valorização desses reprodutores resulta, principalmente, de algumas características fundamentais do programa de seleção genética do rebanho CFM, que vem sendo realizado e aprimorado há quase 40 anos. Uma delas é a confiabilidade, pois o processo envolve mais de 30 mil cabeças, das quais 12 mil são matrizes, e reúne mais de 467 mil informações de animais desmamados. “No máximo 30% dos machos que nascem em nossas fazendas se tornam touros”, diz Martins, destacando a pressão de seleção.

Outro diferencial está na criação e na preparação desses animais em condições de cerrado, para que estejam aptos a trabalhar a campo, cobrindo vacas em sistemas de produção de carne bovina a pasto. “É o que levou a CFM a ser a maior vendedora de touros do Brasil”, afirma José Bento Sterman Ferraz, professor de genética e melhoramento animal da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP (Pirassununga, SP), responsável pelo programa genético da empresa. “A CFM já produziu 40 mil touros e certamente há no Brasil mais de 2 milhões de vacas com sua genética.”

A avaliação é baseada em características diretamente relacionadas a ganhos econômicos, ou seja, que garantam retorno financeiro aos clientes. Os critérios de seleção priorizam a produção de carne: peso à desmama, peso aos 18 meses, perímetro escrotal – que entra como característica reprodutiva – e musculosidade. Ferraz e o também professor da USP Joanir Eller entraram em 1994 nesse projeto da CFM, que é na verdade uma parceria público-privada. A universidade tinha o conhecimento sobre melhoramento genético, mas necessitava de um grande aparato em termos de hardware e software para realizar as análises e as interpretações dos resultados, o que foi providenciado pela empresa. “O trabalho com a CFM nos projetou no mercado”, reconhece Ferraz.

ORIGEM DA SELEÇÃO

A Agro-Pecuária CFM pertence ao grupo inglês Vestey, que iniciou suas atividades no Brasil em 1908, na indústria frigorífica. Originalmente, é uma empresa de produção de carne bovina. “A companhia surgiu a partir do Frigorífico Anglo, que tinha várias plantas no País”, conta Martins. Nas fazendas do grupo, os animais eram trabalhados desde a cria até a terminação. Depois seguiam para o abate nas unidades industriais, de onde a carne processada era exportada. A evolução na pecuária era limitada pela escassez no mercado de reprodutores que aumentassem o desempenho dos rebanhos, os chamados touros melhoradores.

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De maneira geral, a seleção desses animais ainda era muito subjetiva, feita com base na avaliação visual dos machos destinados ao abate. “Esse critério não atendia nossas necessidades. Então, na década de 1980, a empresa iniciou um programa de seleção de touros para atender sua própria demanda, buscando aumentar e acelerar o ganho de peso do gado”, diz o presidente da CFM. Com esses atributos, seria possível terminar mais rapidamente os animais e oferecer um produto final melhor ao frigorífico e ao consumidor. Os desafios estavam apenas começando.

“Se o profissional, seja em que nível for, sentir que não está agregando algo, ele não consegue estar feliz”

Todo o trabalho de avaliação e seleção do rebanho foi estruturado com base nas medidas reais do gado, mas as equipes que trabalhavam nas fazendas não estavam acostumadas com tais procedimentos. “Foi preciso um grande esforço para convencer os campeiros de que, a partir daquele momento, passariam a medir os animais, e não apenas observá-los”, lembra Martins. Alguns pontos, como conformação, precocidade e musculatura, ainda eram avaliados visualmente.

Um passo fundamental nesse processo foi o controle mais rigoroso do rebanho. “Todos os animais foram identificados com um número e cadastrados em um banco de dados.” Com mais organização e mais informação, o cenário mudou. Sabia-se quem era a mãe do animal, em que data ele nasceu e quando desmamou, que peso tinha nessas duas etapas e ao completar 18 meses. Com os primeiros resultados, sobretudo no período da desmama, veio uma nova etapa de superação.

Havia dúvidas entre os peões quando os dados da avaliação não correspondiam à aparência dos bezerros. “Eles chegavam a argumentar que determinado animal era muito mais bonito do que aquele outro mais bem classificado”, observa Martins, que continua: “A diferença é que o mais bonito era filho de uma vaca mais velha, que produzia mais leite, enquanto o outro era mais novo e filho de uma novilha”. Em outras palavras, foi preciso esclarecer a diferença entre a influência da carga genética e a do ambiente, para que a comparação ocorresse apenas entre animais criados sob as mesmas condições.

EVOLUÇÃO EM CADEIA

A apuração dos dados também ajudou a identificar as melhores matrizes da CFM, com base no que elas produziam. Todo ano, as fêmeas que se destacavam eram levadas para a Fazenda São Francisco, em Magda (SP), onde se formou um grupo de elite. “Começamos a levar nosso pessoal para lá na fase da desmama, para verem o que estavam produzindo. Foi assim que passaram a entender o sucesso do programa”, comenta Martins.

No final dos anos 1980, a empresa buscou o apoio de consultores da Nova Zelândia, que contribuíram para aprimorar a seleção, identificando os melhores acasalamentos que aperfeiçoassem a produção de carne. Já na década de 1990, essa consultoria passou a ser feita por profissionais brasileiros até que tivesse início a parceria com a USP. “Ao vermos que o programa dava certo, decidimos compartilhar o material genético com o mercado”, diz o presidente da CFM. A empresa passou de consumidora a fornecedora de touros. “Se era importante para nós, também poderia ser para muita gente.”

O programa de seleção foi ampliado para melhor atender os clientes, um grupo restrito a princípio. Segundo Martins, eram pecuaristas com uma visão mais ampla e avançada, que enxergavam um pouco além e certamente aproveitariam ao máximo a qualidade daqueles reprodutores. Alguns se tornaram compradores assíduos e todo ano estavam ali para novas aquisições, o que aumentou a importância da pecuária nos negócios da empresa e levou à venda em leilões. “Com o aumento da demanda, houve quem lamentasse o fato de não ter sido o primeiro na escolha de determinados animais”, relata Martins. “Já nos leilões, são os pecuaristas que decidem quem vai levar o touro e por quanto.”

“Há no Brasil mais de 2 milhões de vacas com a genética da CFM”

A evolução do processo de melhoramento genético e a organização do crescente banco de dados elevaram o programa de seleção do Nelore CFM a outro patamar. O projeto foi o primeiro da raça zebuína aprovado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para emissão do Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip). “É o reconhecimento de que nosso programa agrega qualidade ao produto, tanto para o pecuarista como para toda a cadeia, aprimorando o rebanho brasileiro”, analisa Martins.

Os animais dos programas aprovados para emissão do Ceip não necessitam ter registro de raça, pois o mercado os reconhece pela qualidade. No entanto, Martins afirma que as duas coisas podem – e devem – se complementar, apesar da diferença na filosofia de trabalho. No caso do Ceip, não há grande preocupação com as características raciais, pois a prioridade está nos índices relacionados à produtividade, que agreguem resultado financeiro. “Mas há produtores de touros que trabalham com avaliação genética, têm Ceip e registro. Esse é o ponto ótimo da coisa”, afirma o executivo.

Foto aérea: Tiago Alves

O Ceip também fortalece os negócios da CFM com a venda de sêmen. Entre a produção para uso próprio ou para comercialização, já foram coletados mais de 1,5 milhão de doses de sêmen de seus reprodutores. Nessa área, o grande destaque da empresa foi CFM Backup, que morreu no ano passado com 15 anos. O touro pertencia a um condomínio formado pela central CRV Lagoa com os criadores Ricardo de Castro Merola, João Roberto Françolin e Pedro Novis e a Iporanga Agropecuária. CFM Backup foi recordista de produção com quase 1 milhão de doses e mais de 450 mil produtos nascidos.

TRAJETÓRIA FIRME

O rebanho da CFM está concentrado principalmente em Ma­to Grosso do Sul, nas cidades de Aquidauana e Dois Irmãos do Buriti, ambas a pouco mais de 100 quilômetros da capital, Campo Grande. Além da Fazenda São Francisco, em São Paulo, há mais uma propriedade no oeste da Bahia, ainda em desenvolvimento. A pecuária representa 10% dos negócios da empresa, que tem o cultivo de cana-de-açúcar, iniciado em 1970, como principal área de atuação. A partir de 2011, a CFM passou a investir também no plantio de eucalipto – já são 10 mil hectares em MS. O faturamento total da empresa é de R$ 300 milhões por ano.

A aposta em inovação foi determinante para o crescimento da companhia. “Nossa produção de cana, por exemplo, tem embarcada toda tecnologia disponível no mercado”, destaca Martins, cuja trajetória na empresa também segue dessa forma. “Se o profissional, seja em que nível for, sentir que não está agregando algo, ele não consegue estar feliz”, acrescenta.

“Antes de qualquer coisa, fui contratado para dar lucro”

O executivo, que está há 26 anos na CFM, diz já ter recebido propostas de outros grupos, mas em vez de mudar de empresa escolheu mudar a empresa em que estava. É assim que tem sido desde a sua contratação. Martins entrou na CFM em 1991, pouco tempo depois de se formar engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Lavras (Ufla). Sua missão era mudar o quadro de baixa rentabilidade da produção de laranjas, pois tinha bastante conhecimento no ramo.

Filho de sitiantes, conviveu com a atividade durante a infância e a adolescência e se aprofundou no tema no período da faculdade. “Em menos de um ano, acabei com a citricultura da empresa”, conta Martins, que logo emenda a justificativa: “Os pomares eram muito velhos, com baixa produtividade. Uma renovação exigiria grandes investimentos e os resultados demorariam a aparecer. A melhor saída era substituir tudo por cana”. A quem questionasse o fato de recomendar o fim do setor que lhe gerou o emprego, tinha a resposta na ponta da língua: “Antes de qualquer coisa, fui contratado para dar lucro”. A sugestão de Martins foi aceita e os pomares deram lugar a canaviais. Essa visão em relação aos negócios da empresa e a opinião firme, sempre bem argumentada, foram essenciais para que Martins chegasse à presidência da CFM. Mais que isso, é o primeiro brasileiro no cargo, até então ocupado exclusivamente por executivos britânicos.

 

GERALDO TOLEDO MARTINS

49 anos, casado, dois filhos

Natural de Barretos (SP), é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Lavras-MG (Ufla) e está há 26 anos na empresa

Cargo: presidente da CFM

Negócios: cana-de-açúcar, eucalipto e pecuária

Faturamento: R$ 300 milhões por ano – pecuária representa 10%

Rebanho: 30 mil animais Nelore

Produção: 2 mil touros por ano

Hobbies e outras atividades: todo tipo de trabalho manual, como eletricidade, mecânica
e marcenaria. Possui uma oficina completa em casa.

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