A força das letras ESG na transformação do campo

A sigla ESG, para as melhores práticas ambientais e sociais - Por Livia Andrade


Edição 24 - 03.04.21

A sigla em inglês ESG para as melhores práticas ambientais, sociais e de governança é o novo parâmetro para atração de investimentos e um indicador efetivo de mudanças rumo à agricultura de baixo carbono

O início de 2021 marca um capítulo importante da história recente. Além das vacinas, que trazem a perspectiva de que o fim da pandemia do coronavírus não está mais tão distante, a posse do democrata Joe Biden na maior potência do planeta sinaliza uma guinada da política ambiental global. Uma das primeiras atitudes do presidente americano foi voltar ao Acordo de Paris, um pacto em que mais de 190 nações do mundo se comprometem a implementar uma série de medidas para conter as emissões de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera e, consequentemente, o aquecimento global. O peso do compromisso oficial dos Estados Unidos se espalha para além dos canais diplomáticos. No mundo dos negócios, tal direcionamento fortalece a temática de ESG, sigla em inglês para melhores práticas ambientais, sociais e de governança. Essas três letrinhas definem um conjunto de critérios, que tem sido o parâmetro adotado por investidores na hora de decidir se vão ou não aportar recursos nos títulos de uma determinada empresa. “O universo ESG é uma evolução da agenda de desenvolvimento sustentável, que começou pelo viés ambiental, evoluiu para o social até que caiu a ficha que, sem o braço econômico, fica difícil fazer acontecer”, explica Rodrigo Lima, diretor da Agroicone, empresa de pesquisa aplicada em agronegócio. Pelo lado econômico chega-se ao viés financeiro, ao crédito necessário para impulsionar projetos socioambientais – em todos os setores e, é claro, no agronegócio. “O que está acontecendo é que os fundos de pensão, estes fundos globais, estão dizendo para as empresas: ‘ou vocês adotam políticas [na direção de contenção] de mudanças climáticas ou vão ficar sem financiamento’”, diz Lima. “Por isso enxergo toda discussão sobre ESG como uma evolução do desenvolvimento sustentável, que tem um potencial de mudança mais profundo do que tinha há dez anos, porque tem o viés financeiro puxando a agenda”, complementa o diretor da Agroicone.

Prova disso é o posicionamento de grandes gestoras globais de ativos como a BlackRock e a Aviva. A primeira, que se destaca em qualquer lista dos maiores investidores privados do mundo, tem cobrado das empresas de seu portfólio a apresentação de planejamento de como seus negócios vão se tornar carbono neutro, além de pressionar as companhias para um aumento da diversidade étnica e de gênero nos conselhos e na força de trabalho. Na mesma toada, a Aviva, também uma potência do setor, comunicou que irá desinvestir em empresas que não tenham um plano robusto de transição para uma economia de baixo carbono. No mercado doméstico, a XP, maior corretora do País, anunciou a decisão de incorporar a análise ESG em suas recomendações de investimentos.

Muda de Planta em quebra cabeça branco

POTENCIAL BILIONÁRIO

Sob o guarda-chuva dos princípios ESG, há uma série de títulos, que têm sido denominados pela mídia como títulos verdes, embora tenham outras classificações. Os famosos green bonds sinalizam para o investidor que seus recursos vão para projetos que terão um impacto ambiental positivo. Os títulos sociais, por sua vez, indicam que os aportes serão destinados à melhoria de habitação e renda das pessoas. Já os títulos de sustentabilidade englobam tanto o âmbito ambiental quanto o social. E o sustainability-linked está vinculado a indicadores de desempenho, como o comprometimento de redução de GEE. Têm ainda os títulos ODS, atrelados aos Objetos de Desenvolvimento Sustentável da agenda 2030 das Organizações das Nações Unidas (ONU) e os títulos de transição, que estão relacionados a metas criadas para empresas carbono-intensivas migrarem para uma atividade de baixo carbono. Especificamente no agro, uma nova modalidade são os CRAs (Certificados de Recebíveis Agrícolas) Verdes, também atrelados a compromissos ambientais por parte dos emissores.

O fato é que o mercado de capitais pode, sim, injetar bilhões em investimentos na economia nacional – e o agro, como mais pujante setor, deve ser amplamente recompensado. “Só em títulos verdes, mapeamos R$ 700 bilhões em oportunidades para o Brasil até 2030 na agricultura, no setor florestal, de energia e infraestrutura”, diz Leisa de Souza, coordenadora de Agricultura da Climate Bonds Initiative (CBI) no Brasil. A ONG britânica foi a primeira a desenvolver critérios de rotulagem para os green bonds e também certifica quais empresas estão aptas a emitir esses títulos.

Muda de Planta enrolada em notas de dolar

“O universo ESG é uma evolução da agenda de desenvolvimento sustentável, que começou pelo viés ambiental, evoluiu para o social até que caiu a ficha que, sem o braço econômico, fica difícil fazer acontecer”
Rodrigo Lima, diretor da Agroicone

Desde 2019, a CBI e o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) vinham conversando e, no ano passado, lançaram o Plano de Investimento para Agricultura Sustentável. “Queremos ser protagonistas dessa nova tendência. Daí a importância de se fortalecer esse mercado de finanças verdes no Brasil, que é uma potência agroambiental, comprometida com a sustentabilidade”, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, na ocasião. A parceria entre Mapa e CBI resultou num relatório que aponta as oportunidades de curto prazo que já existem no País e poderiam ser rotuladas como verdes. “Dentro do agro, os segmentos com mais potencial de captação são o de biocombustíveis e as tecnologias já contempladas pelo Plano ABC [Agricultura de Baixo Carbono], como Integração Lavoura- Pecuária-Floresta”, diz a coordenadora da CBI.

Para não ocorrer de uma empresa ser verde no marketing e poluente na prática, a CBI adota critérios rígidos baseados no escopo do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que vão além do cumprimento do Código Florestal. “Estamos falando de desmatamento zero e a nossa data de corte é janeiro de 2010”, diz Leisa. A partir dessa data, o máximo permitido de derrubada de árvores para ajuste de área para o preparo de solo é um hectare. A exigência é uma demanda do investidor, que quer seus recursos destinados a aumentar a produtividade e a eficiência em propriedades rurais que preservam o meio ambiente.

Mas esta é a régua da CBI. A outra forma de emitir títulos verdes é por meio de opinião de segunda parte, que é dada por consultorias que têm sua própria metodologia e seguem as diretrizes da Associação Internacional de Mercados de Capitais (ICMA). “Podem ter empresas que considerem que é possível [o desmatamento legal], mas dentro da certificação da CBI, estamos falando em desmatamento zero”, explica Leisa.

SEGMENTO EM CONSTRUÇÃO

O mercado de títulos ESG é algo novo, que está em fase de lapidação. Prova disso é que as entidades europeias de supervisão, como a Esma – a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do continente, iniciaram consultas no ano passado para aperfeiçoar a forma de divulgação ESG das empresas, a fim de reforçar a proteção dos investidores. Hoje, há muitos ratings ESG com conclusões diferentes, o que causa confusão.

Outra problemática é que muitas organizações têm criado modelos para esse universo de finanças verdes. Nesse sentido, a Agroicone tem trazido à tona a necessidade de se definir o que é ESG na agropecuária brasileira. “Isso é fundamental para o Brasil não ficar refém da taxonomia europeia, que é crítica a biocombustíveis e a florestas plantadas”, diz Lima. No entanto, o diretor ressalta que tal definição tem que ser construída “conversando com quem é dono da grana lá fora”.

Não restam dúvidas, no entanto, de que as emissões de títulos de dívida com lastro verde ou com garantias ao investidor de que o projeto contempla melhores práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) vieram para ficar. A porta de entrada mais fácil de ser comprovada é pelo viés das energias renováveis. Nesse nicho, BRF, Suzano e Klabin foram as primeiras a ingressar nesse mercado. Segundo a coordenadora de Agricultura da CBI, desde 2015 foram emitidos US$ 6,8 bilhões em títulos verdes no Brasil no escopo do uso da terra, que é onde entram os setores florestal e agro.

O apetite pelos bonds atrelados a parâmetros ESG ficou evidente na estreia da produtora de commodities agrícolas Amaggi no mercado internacional de capital no início deste ano. A empresa planejou levantar US$ 500 milhões com a venda de títulos de sustentabilidade – papéis vinculados ao financiamento de projetos de gestão ambiental relacionados a uso do solo e recursos naturais, biodiversidade, mitigação das mudanças climáticas, desenvolvimento socioeconômico e segurança alimentar – com vencimento em 2028 a uma taxa de 5,25%. “A procura foi seis vezes superior à esperada, por isso elevamos o volume da emissão para US$ 750 milhões, pois tínhamos envergadura para acomodar a demanda”, diz Juliana de Lavor Lopes, diretora de Sustentabilidade da Amaggi. E detalhe: um terço da procura foi de fundos ESG de longo prazo.

Na pecuária, o interesse também se mostra alto. No final de fevereiro passado, a Marfrig, uma das maiores empresas processadoras de proteína animal do mundo, levantou US$ 30 milhões em um título do tipo sustainability-linked. Os recursos serão destinados à busca de uma cadeia de fornecimento livre de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. “Esse investimento vai impulsionar uma série de ações que buscam equilibrar produção e preservação, sempre com a perspectiva de inclusão dos pecuaristas”, afirmou, em nota, Paulo Pianez, diretor de Sustentabilidade e Comunicações da Marfrig.

“Queremos ser protagonistas dessa nova tendência. Daí a importância de se fortalecer esse mercado de finanças verdes no Brasil, que é uma potência agroambiental, comprometida com a sustentabilidade”
Tereza Cristina, ministra da Agricultura

CRÉDITO MAIS COMPETITIVO

Segundo estimativa da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a agropecuária brasileira precisaria de R$ 900 bilhões em financiamento. No entanto, o montante previsto para o próximo Plano Safra 2020/21 é de R$ 236,3 bilhões, 6% superior ao ciclo anterior, mas muito aquém da demanda. Nesse contexto, o mercado de títulos ESG é uma importante ferramenta para atrair investimento internacional para o agronegócio brasileiro.

De acordo com os dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), apenas 21% de todo o crédito acessado pela cadeia da soja no estado tem algum tipo de comprometimento socioambiental. “Só estamos arranhando a superfície. Mas com uma eventual mudança na política de equalização de juros do crédito rural federal e uma escassez de crédito subsidiado, as empresas vão ter que ir ao mercado”, diz José Pugas, head de ESG e Agro na JGP Crédito. “E a única forma de conseguir crédito competitivo de médio e longo prazo no Brasil hoje é através de ESG”, acrescenta.

Quanto maior for a pontuação ESG de uma empresa, maior será a chance de ter vantagens do ponto de vista financeiro. As benesses podem ser uma taxa de juros menor e/ou um prazo para pagamento maior. No entanto, nem sempre um título sob o guarda-chuva ESG apresenta tais atrativos. “Os green bonds nem sempre têm, mas, mesmo que não haja um diferencial de preço, há um ganho reputacional e o acesso a novos investidores”, explica Leisa.

Normalmente, as emissões que costumam ter melhores taxas são as de títulos sustainability-linked, em que o emissor se compromete a implementar metas de sustentabilidade para pagar menos no final. De qualquer forma, os papéis ESG costumam atrair não só o investidor habitual, mas o de impacto, aquele interessado em financiar projetos que tenham efeitos socioambientais positivos. Por causa dessa finalidade, ele estaria disposto a ter um retorno financeiro menor.

“Só em títulos verdes, mapeamos R$ 700 bilhões em oportunidades para o Brasil até 2030 na agricultura, no setor florestal, de energia e infraestrutura”
Leisa de Souza, coordenadora de Agricultura da Climate Bonds Initiative CBI) no Brasil.

DESAFIOS PELA FRENTE

As empresas nacionais têm muito a amadurecer no mercado de capitais. “É algo em nascimento no Brasil, se compararmos com outros países desenvolvidos”, diz Fabiana Alves, diretora executiva de clientes corporativos do Rabobank. “Até pouco tempo, tínhamos taxas de juros e remuneração de renda fixa tão altas que não havia incentivo para o mercado de capitais”, explica.

O ingresso nesse novo universo, no entanto, não é tão simples, está atrelado à profissionalização da gestão. “No agro, há muitas empresas familiares que não têm uma governança à altura do mercado de capitais, mas recentemente isso vem evoluindo”, explica Fabiana, que entrou no Rabobank pelo braço de consultoria que auxilia os clientes na implantação de uma administração empresarial.

Quando o assunto é títulos verdes, o custo de estruturação desses papéis inviabiliza o acesso de produtor pessoa física. “O ticket médio no mercado interno está girando em torno de R$ 200 milhões”, diz a coordenadora da CBI. Uma opção para esse público seria o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) pulverizado, ou seja, atrelado a uma carteira de crédito de diversos devedores.

Esse modelo começou a sair do papel no início de março passado graças ao CRA Verde.Tech, modelo desenvolvido, em parceria, por três empresas com expertises complementares: a Produzindo Certo, especializada no diagnóstico socioambiental e na transformação de cadeias produtivas; a Traive Finance, fintech voltada para soluções financeiras tecnológicas para o mercado agro; e a Gaia Impacto, uma das maiores securitizadoras do Brasil. Com ele, sete produtores de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul levantaram R$ 63 milhões em uma inédita operação de CRA Verde pulverizada. Os recursos serão utilizados como uma alternativa – mais barata e vantajosa – ao crédito agrícola tradicional. Em média, eles obtiveram taxas de 10% ao ano, já computando todos os custos adicionais envolvidos em operações de crédito, que podem chegar a 15% ao ano.

Os esforços socioambientais dos produtores (cujas fazendas somam juntas mais de 78 mil hectares) foram valorizados pelo CRA Verde.Tech, que tem potencial de atrair até R$ 6 bilhões nos próximos anos, segundo Fabricio Pezente, CEO da Traive. “O modelo de negócios e a tecnologia utilizada nessa operação abrem inúmeras possibilidades de replicarmos essa mesma estrutura com volumes ainda mais expressivos, beneficiando mais produtores e investidores conscientes”, afirma. “Desde o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, houve um despertar de consciência dentro da empresa em relação à responsabilidade que o nosso investimento tem sobre externalidades para a população”, diz José Pugas, head de ESG e Agro na gestora de recursos JGP Crédito. No final do ano passado, a JGP foi selecionada pela Rede Integração Lavoura-Pecuária- Floresta (ILPF) – uma parceria público-privada que congrega Embrapa, John Deere, Syngenta, Cocamar, Ceptis, Soesp, Bradesco e IABS – para ser a gestora do fundo Saff, sigla em inglês para financiamento facilitado para agricultura sustentável, o primeiro fundo ESG a ser lançado pela JGP.

Endossado pelo The Global Innovation Lab for Climate Finance, mais conhecido como Climate Lab, o projeto piloto do Saff terá US$ 62 milhões (aproximadamente R$ 350 milhões) para financiar os produtores que adotem a ILPF. Mas o valor pode chegar a US$ 1,4 bilhão (R$ 7,9 bilhões) até 2026, montante que, se confirmado, será superior aos R$ 3,4 bilhões recebidos pelo Fundo Amazônia até 2019.

Além do Saff, a JGP está estruturando outros cinco fundos voltados para o crédito ESG no agro. Hoje, o setor agropecuário domina o portfólio ESG da gestora. “A JGP tem como estratégia zerar o impacto ambiental no que se refere às mudanças climáticas e, dentro das cadeias produtivas, o agronegócio é a única com capacidade de ser carbono positivo, ou seja, capturar mais carbono do que emite”, acrescenta Pugas.

“O mundo demanda que o Brasil garanta a sua sustentabilidade. E toda a cadeia do agronegócio precisa colocar o assunto como prioridade estratégica para preservar o que a gente chama lá fora de ‘licença para operar’”
Fabiana Alves, diretora executiva de clientes corporativos do Rabobank

Imagem de lampada com Plantas

QUALIFICAÇÃO ESG

Apesar de não haver uma padronização global quanto às metodologias usadas nos ratings ESG, é para isso que os investidores olham no momento de decidir se vão ou não aportar recurso em determinada empresa. Além dos aspectos ambientais, hoje muito focados em avaliar riscos climáticos à carteira de investimentos, os relatórios ESG contemplam governança e aspecto social. Neste último quesito, há muitas empresas do agro antenadas com o 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda 2030 da ONU, que é a “Igualdade de Gênero” e também com o empoderamento de populações vulneráveis. Companhias como a fabricante de máquinas agrícolas John Deere têm metas definidas para aumentar a diversidade. Seu compromisso é atingir 30% de mulheres e 25% denegros no quadro de funcionários no Brasil até 2025. A Corteva é outra gigante com forte atuação nessa área. Em 2019, 51% dos estagiários contratados eram negros e as mulheres já representavam 50% da liderança na área comercial.

No âmbito de governança, as companhias do agro também têm se destacado. A Ihara, empresa brasileira com capital japonês focada em pesquisa e desenvolvimento de defensivos agrícolas, é um bom exemplo. Desde 2018, ela vem sendo reconhecida pelo Mapa com o selo “Mais Integridade”, que é dado às empresas que se destacam por suas práticas de sustentabilidade, de governança, bem como iniciativas para mitigação de práticas de fraude, suborno e corrupção. Outra companhia em evidência é a UPL, uma das maiores fornecedoras de soluções agrícolas do mundo, que – no ano passado – foi classificada em primeiro lugar no setor agro pela gestão de riscos ambientais, sociais e de governança no ranking da Sustainalytics, uma das líderes globais em rating ESG. Na ocasião, Jai Shroff, CEO da UPL, atribuiu a conquista “ao compromisso inequívoco com a sustentabilidade, impulsionado pela visão OpenAg [de inovação aberta]”.

Por sinal, esse conceito tem sido algo recorrente entre as empresas do agro. Inclusive, no último mês, a Bayer promoveu um encontro virtual global sobre como a inovação aberta e um ambiente colaborativo podem ajudar na construção de um futuro cada vez mais sustentável. A revista PLANT PROJECT teve oportunidade de conversar com Bob Reiter, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Divisão Agrícola da Bayer, que destacou “a tecnologia e a inovação como chaves para ofertar alimentos em abundância, com segurança alimentar e, ao mesmo tempo, equilibrar isso com os imperativos da sustentabilidade ambiental”. Reiter frisou a importância das ferramentas digitais para ajudar o agricultor no manejo da propriedade, de forma que ela sequestre mais carbono do que emita. “Os brasileiros são os melhores do mundo em manter carbono no solo”, salienta.

ECONOMIA REPAGINADA

Com o tema em alta, há uma verdadeira competição entre as instituições financeiras para ver quem consegue estruturar a primeira ferramenta para o comércio de crédito de carbono.“O Rabobank está com esforços para criar o primeiro banco de carbono, ou seja, estruturar o comércio de carbono globalmente”, diz a diretora do Rabobank. Hoje, existe o mercado de carbono voluntário e regulado, que certifica e gera créditos. “Mas ter um projeto aprovado é uma trajetória longa e custosa por envolver diversas verificações/ auditorias e processos de aplicação da metodologia até as verificações e validações”, explica Renata Fragoso Potenza, coordenadora da área de clima cadeias agropecuárias do Imaflora.

As discussões estão a todo vapor. Nos Estados Unidos, senadores democratas apresentaram um projeto de lei que estabeleceria protocolos certificados pelo Departamento de Agricultura Americano (USDA) para os fazendeiros desenvolverem projetos de agricultura de baixo carbono e receberem por isso. Paralelamente, há uma série de iniciativas de empresas do agro. Uma delas é o programa piloto da Bayer, anunciado no ano passado, que irá pagar aos agricultores pela captura de CO2 em áreas agrícolas do Brasil e dos Estados Unidos. Em solo nacional, foram selecionados 500 produtores que receberão pagamentos em dinheiro ou em créditos para a compra de produtos na plataforma Bayer PLUS.

Nessa direção, companhias como Nestlé e Danone firmaram parcerias com startups e institutos para mensurar o impacto da adoção de determinados pacotes tecnológicos na redução das emissões de GEE. A finalidade é ter subsídios para montar projetos de compra de crédito de carbono dentro da própria cadeia. Nesse contexto, uma novata que tem sido bastante acionada é a ReNature, nome que remete à regeneração da natureza. “Apoiamos as grandes corporações dando assessoria para ajudá-las a identificar quem são os agricultores pioneiros na cadeia de suprimentos deles para aplicar as práticas regenerativas”, diz Felipe Villela, fundador da ReNature e empreendedor que figura na lista da Forbes dos 30 brasileiros de destaque em 2020. “Damos assistência técnica e fazemos mensuração de impacto, medição de carbono no solo, do aumento da biodiversidade e da rentabilidade por hectare”, complementa.

O fato é que a agenda ESG e os projetos de transição para uma economia de baixo carbono são muito mais do quealgo politicamente correto e bacana. “É uma questão de sustentabilidade do negócio, da economia do País, que é dependente das exportações do agronegócio e dos clientes lá fora”, diz Fabiana. “O mundo demanda que o Brasil garanta a sua sustentabilidade. E toda a cadeia do agronegócio precisa colocar o assunto como prioridade estratégica para preservar o que a gente chama lá fora de ‘licença para operar’”, finaliza a diretora do Rabobank.

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