Insumos para um novo ano

O agronegócio tem muito a colher e mais ainda a semear em 2021


Edição 23 - 17.01.21

Por Romualdo Venâncio

É praticamente impossível falar sobre perspectivas para 2021 no agronegócio – e em qualquer atividade econômica dentro e fora do Brasil – sem antes passar pela retrospectiva da Covid-19. Desde aquele momento inicial da pandemia, ainda muito duvidoso e inseguro, até a real expectativa pelo início da vacinação, que ainda traz dúvidas e inseguranças, muita coisa aconteceu. E no caso do agro, aconteceu bem rápido. 

As cadeias agropecuárias rapidamente se estruturaram para garantir a segurança sanitária, das pessoas e dos produtos, e apertaram o passo do avanço tecnológico, principalmente com a digitalização, para manter o ritmo de suas atividades de forma sustentável. Como resultado, a sociedade continuou a ser abastecida com alimentos, fibras e energia. 

Ficou mais evidente a relação entre a qualidade da comida e a saúde da população, e o papel do agronegócio nessa história. Com medo da contaminação pelo coronavírus, as pessoas quiseram saber mais sobre a origem dos alimentos, como são produzidos, processados e transportados. Se além da responsabilidade que tem nesse trajeto todo, o agro passar a contar à sociedade a sua versão da cadeia, de forma clara e direta, pode até estabelecer conexões mais robustas e duradouras com os consumidores. A informação será um dos insumos mais importantes da produção agropecuária em 2021, tanto que a comunicação já entrou na lista de prioridades do setor. 

De maneira geral, o setor espera ainda preços elevados para as commodities, sobretudo grãos como soja e milho, tanto pela valorização do dólar frente ao real, relação atrativa para quem exporta, quanto pela crescente demanda internacional por proteína animal. As importações de carne suína pela China, por exemplo, podem seguir em alta por mais de um ano, enquanto o país recompõe seu plantel, quase todo dizimado pela Peste Suína Africana. Esse cenário sustenta a perspectiva de aumento de área plantada e o maior investimento em insumos, inclusive de forma antecipada. Entre janeiro e julho de 2020, quase 20,4 milhões de toneladas de fertilizantes já haviam sido entregues no mercado nacional, volume 15% maior do que o registrado em igual período de 2019, segundo dados da Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos). 

Outro sinal de que a produção agropecuária deve seguir aquecida é o aumento de contratações de crédito rural. De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada), nos primeiros quatro meses da safra 2020/2021 (julho a outubro), o volume de concessões era de R$ 93 bilhões, 20,6% maior do que no mesmo período da temporada anterior. 

A lista de desafios para o agro em 2021 também não é pequena, vai desde questões como preservação e sustentabilidade, cada vez mais relevantes, até o entendimento sobre a relação do Brasil com o novo governo dos Estados Unidos. Há ainda discussões referentes à carga tributária, tema espinhoso por natureza que ficou ainda mais pesado após uma medida do governo paulista que limita isenções do ICMS em diversos segmentos, com impactos diretos sobre os insumos agropecuários. Setores como saúde e alimentação animal, e outros que têm grande parte do parque industrial instalado no estado de São Paulo, já calculam os efeitos negativos e o que fazer a respeito. 

Conversamos com representantes de importantes segmentos de insumos agropecuários para entender melhor as perspectivas para o novo ano e saber como estão se preparando para superar os desafios e aproveitar o que há de melhor nesse momento.

Paradoxos da alimentação animal

As exportações brasileiras de carne suína em 2020 devem passar de 1 milhão de toneladas. O faturamento acumulado já havia superado os US$ 2 bilhões em novembro. Esta é a primeira vez que o setor alcança tais resultados, divulgados pela ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal). A previsão é que sejam ainda melhores em 2021. A notícia é animadora também para a indústria de nutrição animal, que alimenta esses suínos, as aves, os bovinos – leite e corte –, os peixes e outras cadeias de proteína animal. 

Dados do Sindirações (Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal) mostram que o setor de nutrição animal já havia crescido 5,2% nos primeiros seis meses de 2020. Dois fatores foram determinantes para esse desempenho. O primeiro é a grande demanda chinesa por carne suína, consequência do baque causado pela peste suína africana na potência asiática. “A doença praticamente dizimou o rebanho de suínos da China, então esse cenário se manterá por algum tempo. Mas eles estão trabalhando, profissionalizando o que era subsistência, dentro de um ano e meio devem se recuperar”, diz Ariovaldo Zani, vice-presidente executivo do Sindirações. O outro fator é o auxílio emergencial disponibilizado pelo governo federal aqui no Brasil por conta da Covid-19, que estimulou o consumo e aqueceu o mercado.  

Segundo Zani, a expectativa é de encerrar o ano com crescimento de 5%, pois o segundo semestre costuma ser mais fraco para o setor de nutrição animal, embora ainda conte com o reforço por conta das festas de final de ano. Mas passando o réveillon, começam as preocupações. “Pode ser que não tenha mais auxílio emergencial no primeiro trimestre de 2021, e não haverá uma geração gigantesca de empregos, então o consumo doméstico de proteína animal deve diminuir”, afirma e executivo.  

As indústrias de alimentação animal terão bons desafios em 2021 para equilibrar produção, faturamento e lucratividade. Da mesma forma que o cenário cambial, com o real desvalorizado frente ao dólar e ao euro, favorece quem exporta proteína animal, também estimula a venda de soja e milho, principais ingredientes das rações, para o mercado externo. E onera parte da matéria-prima. “Há vitaminas, enzimas e outros suprimentos que não fabricamos, vêm da Ásia, Índia, Estados Unidos, Europa, e pagamos em dólar”, comenta Zani, que acrescenta: “Por causa da pandemia, essas fábricas de química fina diminuíram o ritmo de produção, o fornecimento foi menor, então chegou muito mais caro”.

Em 2021, o pessoal da nutrição animal ficará ainda mais com um olho no crescimento da demanda e outro na elevação do custo de produção. “Embora o setor vá muito bem, é preciso fazer a distinção de que o custo é muito alto. É um paradoxo”, avalia Zani. Ele comenta haver certa tranquilidade em relação ao abastecimento de milho, pelo menos para o primeiro trimestre do ano, mas o preço será menor para os agricultores. 

No caso da soja, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério da Economia, derrubou a cobrança de impostos de importação para grão, farelo e óleo, até 15 de janeiro. “Há muito tempo eu dizia que temia que o Brasil viesse a importar farelo de soja produzidos com grãos que a gente exportou. Na época, diziam que eu estava paranoico, porque o setor estava crescendo, ampliando área plantada, mas hoje está aí a importação de soja”, comenta Zani. O Brasil é o maior exportador mundial de soja.

Como para os demais setores de insumos agropecuários com grande concentração no estado de São Paulo, a questão tributária também será uma preocupação central em 2021. Sobretudo pela entrada em vigor, a partir de janeiro, do Decreto 65.254/2020, medida tomada pelo governo paulista que aumenta o impacto do ICMS sobre diversos segmentos. “São Paulo reúne praticamente um quarto de toda a cadeia produtiva brasileira de alimentação animal e produziu 11% dos mais de 77 milhões de toneladas de rações do Brasil em 2019”, acrescenta Zani. “Essas empresas podem perder competitividade em relação às demais localizadas fora do estado.” 

 

Produção de rações – Estimativa do primeiro semestre 2020
Setor Produção 2020 Comparação com 2019 (milhões ton.) (%)
Frango de corte 17,50 5,0
Poedeiras 3,50 7,0
Suínos 8,40 4,5
Bovinos de leite 2,80 5,0
Bovinos de corte 2,30 6,9
Cães e Gatos 1,40 5,5
Equinos 0,30 3,5
Aquacultura 0,76 11,5
Outros 0,24 0,0
Total geral 37,2 5,2
Fonte: Sindirações

Tecnologia e comunicação proativa 

O mercado de defensivos agrícolas foi impactado por fatores como câmbio e clima. A valorização do dólar frente ao real tornou os custos de produção mais elevados, ao mesmo tempo em que aumentou a margem de rentabilidade dos agricultores, principalmente no caso das commodities destinadas à exportação. No caso das variações climáticas, o alongamento da estiagem em várias regiões levou os produtores a ajustarem tanto a aquisição de insumos quanto o manejo para aproveitar melhor as janelas de plantio.

No entanto, em termos gerais, a expectativa é de estabilidade no balanço final dos negócios com defensivos. De acordo com o estudo Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro 2021, elaborado pelo Rabobank, esse mercado chegar a US$ 13,7 bilhões em 2020. O documento diz que, para 2021, os preços dos defensivos continuarão a ser influenciados pelos preços das commodities e pela relação cambial. Esses indicadores são essenciais no planejamento dos agricultores e das cadeias produtivas em todas as safras, mas há outros temas ganhando espaço na agenda de prioridades do setor. 

Um desses temas é a comunicação, área considerada como desafiadora para grande parte dos segmentos do agronegócio brasileiro, e por diferentes razões. “Ainda precisamos apresentar o que a tecnologia faz de bom e o que nós fazemos, inclusive dentro de controle regulatório, segurança e preservação”, diz Christian Lohbauer, presidente da CropLife Brasil, associação criada em outubro de 2019 e que reúne os principais representantes de quatro áreas da produção agrícola sustentável – germoplasma (mudas e sementes), biotecnologia, defensivos químicos e produtos biológicos.  

Lohbauer afirma ser muito importante para o setor falar claramente com a sociedade, até porque os defensivos têm tomado o lugar dos alimentos transgênicos frente à pressão dos consumidores. Esse desafio da comunicação passa tanto pelo conteúdo quanto pela forma como as mensagens são entregues ao público de maneira geral. “Ainda não encontramos uma solução, mas a conscientização de que há essa dificuldade já é um começo”, diz. “Passamos a trabalhar com diferentes interlocutores e falando de um jeito diferente”, acrescenta o dirigente, referindo-se a um programa de entrevistas veiculado no Portal Uol. A conversa conduzida pelo jornalista Zeca Camargo teve a participação do próprio Lohbauer e da toxicologista Cristiana Corrêa, para falarem sobre a relação dos defensivos com produção agrícola, qualidade e segurança de alimentos, evolução das pesquisas científicas. “Não é mais só falar de ciência, é de segurança alimentar”, diz o presidente da CropLife Brasil.

Esse assunto ficou ainda mais palpitante com o evento da Covid-19, que intensificou a preocupação global com a segurança dos alimentos, os riscos de contaminação, entre outros pontos. Nesse ponto, informar sobre evolução tecnológica é um grande desafio. “Estamos tentando comunicar que um fabricante de defensivos agrícolas é uma indústria de tecnologia, com investimentos gigantes em pesquisa para descobrir novas técnicas, não só novas moléculas”, comenta Christian. 

Exemplo da evolução tecnológica e do amadurecimento na relação com a segurança dos alimentos e a sustentabilidade é o avanço do uso de insumos biológicos na produção agrícola, inclusive com o investimento de grandes indústrias de defensivos químicos nesse segmento. Não por acaso, o mercado nacional de biodefensivos faturou R$ 675 milhões em 2019, resultado 15% maior do que no ano anterior. Em maio de 2020, o próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) lançou o Programa Nacional de Bioinsumos. A tendência é de que esse movimento continue crescendo. 

“A grande sacada foi a integração dessas tecnologias para que possam ser usadas da maneira mais interessante em cada situação”, comenta Lohbauer, que deixa também um alerta: “Criou-se a ideia de que tudo o é bio é bom. E não é bem assim, pois o biológico é um organismo vivo, se for usado de maneira errada pode influenciar o ambiente”.

Genética em dobro 

Quando a Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial) fechou o relatório de vendas de sêmen de 2019, com mais de 18,5 milhões de doses comercializadas – entre gado de corte e de leite – e aumento de 18% sobre o ano anterior, o presidente da entidade, Márcio Nery, cravou que em 2020 seria possível praticamente dobrar esse crescimento. “Nossa perspectiva é chegarmos a 25 milhões de doses. Eu já havia comentado isso em janeiro deste ano, e olha que tenho acertado bastante”, diz o dirigente. O Relatório Index Asbia é produzido em parceria com o Cepea (Centro de Estudos Avançados de Economia Aplicada), da Esalq-USP.

Se de fato essa meta for alcançada, representará evolução de 35% sobre os resultados de 2019. A segurança de Nery em relação a essa expectativa vem de uma combinação de fatores, entre eles sua experiência de 20 anos no setor, e dos números contabilizados ente janeiro e setembro de 2020. Nesse período, as vendas de sêmen chegaram a quase 17 milhões de dose, volume 30% maior que o registrado no mesmo período do ano anterior. “A pecuária de corte avança com muito vigor e a de leite vem crescendo bem a cada trimestre. E os últimos três meses serão ainda mais fortes, pois com o atraso das chuvas as estações de monta também serão estendidas”, explica Nery. 

O presidente da Asbia acredita que a tendência para 2021 é o setor da carne bovina continuar forte, com demanda elevada por fêmeas Nelore para reposição. Como a raça zebuína é predominante no rebanho nacional, pressupõe-se um mercado aquecido. “Segundo o Cepea, já estamos com 16% das vacas de corte inseminadas. Se pegar nossos concorrentes, como Austrália, Estados Unidos, Uruguai e Argentina, não chegam a 8%, em média. Podemos chegar a 25% no corte e 20% no leite em quatro anos, e isso não é o limite”, destaca Nery. O dirigente ressalta outros indicadores que reforçam o otimismo para o setor de genética bovina. “Temos um fluxo de novos entrantes no negócio, o que é confirmado pela venda de botijões [de nitrogênio]”, diz. “A adesão à tecnologia é crescente, inclusive inseminação artificial em tempo fixo e sêmen sexado.”

Para Nery, quanto mais os produtores compreenderem os benefícios do uso de sêmen bovino, maior será o crescimento do setor de genética e a eficiência da pecuária como um todo. “A genética representa entre 1% e 2% do custo total da atividade. É um insumo barato, permanente e cumulativo”, explica. “E quando investe em genética, em sêmen, acaba trabalhando melhor fatores como sanidade, nutrição, fertilidade, e isso contribui para reduzir custo.” É tudo uma questão de se adaptar à tecnologia. E se depender da agilidade com que o agronegócio respondeu ao cenário de pandemia da Covid-19, muito mais porteiras devem se abrir para as inovações tecnológicas. 

Como a maioria dos segmentos agropecuários, a indústria de genética bovina rapidamente adotou protocolos sanitários de proteção e passou a compartilhar conhecimento técnico sobre a situação, além de mensagens positivas. Grandes desafios vieram da logística. “Quando tudo começou a fechar, em março, a Asbia conseguiu um documento de livre trânsito para os profissionais do setor, para que pudessem prosseguir quando fossem parados em barreiras sanitárias”, diz Nery, destacando que a logística foi o maior desafio naquele momento. “Os postos de combustíveis estavam fechados, não tínhamos hospedagem nem transporte dos produtos, travou exportação. Só a partir de julho é que começou a clarear um pouco.”

Vendas de sêmen (Jan/Set)

Ano Doses Ano Doses Variação

2020 16.696.269 2019 12.837.333 30,1%

Outros dados do período entre janeiro e fevereiro de 2020

  • 4.146 – Número de municípios brasileiros que utilizaram inseminação artificial (75% do total)
  • 42% – Aumento das vendas de sêmen – corte*
  • 18% – Aumento das vendas de sêmen – leite*
  • 9,8 milhões – produção de doses de sêmen – corte
  • 7,5 milhões – produção de doses de sêmen – leite
    *na comparação com o mesmo período de 2019

Insumo mecânico e digital 

O presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), João Carlos Marchesan, fala com entusiasmo sobre as expectativas do setor para 2021, ainda que a Covid-19 represente um grande risco à saúde da população e ao próprio agronegócio. “A perspectiva para o ano que vem é a mesma deste ano”, afirma. Essa certeza é sustentada pelas ações emergenciais para conter o avanço do coronavírus no setor e pelos resultados no campo. O agro não parou, nunca para, e segundo o dirigente mostrou muita competência. 

Marchesan avalia que o cenário otimista é sustentado por aumento de área plantada e de produção e pela fórmula dos “quatro cês” que favorecem o agricultor: câmbio, crédito, clima e commodity. No caso dos produtores que exportam commodities e acabam sendo beneficiados pela desvalorização do real frente ao dólar. “Maior parte da safra de 2020 já estava fechada, agora estão negociando a de 2021 e a de 2022”, comenta. O câmbio como está favorece também a exportação de máquinas agrícolas. “Em torno de 40% do que as indústrias da Abimaq produzem é exportado”, diz. “E sempre há a chance de abrirmos novos mercados, temos trabalhado para isso.”  

No mercado interno, o horizonte é bem amplo. Marchesan afirma que 50% da frota nacional de máquinas já tem entre 10 a 12 anos. “Estão tecnologicamente defasadas, e o agro precisa de produtividade”, comenta o dirigente, destacando a importância da Agricultura 4.0. “Precisamos da inclusão digital no setor de forma que o agricultor possa monitorar em tempo real toda a produção no campo.” 

Foi esse avanço na digitalização que ajudou a indústria de máquinas agrícolas e diversos outros segmentos do agro a superarem o cancelamento de grande parte das feiras agropecuárias. Não é difícil imaginar a aflição, para dizer o mínimo, de organizadores e expositores de um evento como a Agrishow (a Abimaq é uma das realizadoras), por exemplo, que em 2019, ao completar 25 anos de existência, atraiu quase 160 mil visitantes a Ribeirão Preto (SP) e registrou volume de negócios próximo de R$ 3 bilhões. Foi preciso encontrar rever conceitos. “As empresas que estão digitalizadas têm investido para manter o produtor conectado, como foi o Agrishow Experience”, comenta Marchesan, sobre o novo formato do evento, totalmente digital, que reuniu mais de 20 horas de conteúdo ao vivo e gravado. 

O otimismo que substituiu a apreensão com a chegada da Covid também é sustentado pelas condições para os agricultores investirem. “Os recursos do Moderfrota, que deveriam durar até junho do ano que vem acabaram em outubro. O agricultor está capitalizado, vendo o quanto está retornando para ele, investindo em insumos, em máquinas”, avalia o presidente da Abimaq. 

A opinião de Marchesan é reforçada por Alexandre Bernardes de Miranda, vice-presidente da Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores). Segundo o dirigente, mesmo que os recursos do Moderfrota tenham se esgotado, os produtores não ficaram desamparados. “A ministra Tereza Cristina [Agricultura] vem atuando junto ao Ministério da Economia para não desassistir os agricultores. O BNDES, inclusive, havia disponibilizado outra opção de crédito agrícola para assistir os produtores, mesmo com juros um pouco acima do Moderfrota”, explica Miranda. “O governo está olhando essa questão com bons olhos, porque o agro é pujante.”

De acordo com a Anfavea, o agro também tem impulsionado o segmento de máquinas rodoviária, para o desenvolvimento de questões logísticas. Os desafios, de maneira geral, ficam por conta dos altos custos de matéria-prima, com os reajustes para o aço – e aí questão cambial tem efeito contrário.

 

Máquinas agrícolas e rodoviárias 

Ano – Vendas internas – Exportação – Produção
Jan-Nov – (unidades) – (unidades) – (unidades)

2020 – 42.071 – 8.042 – 42.952

2019 – 40.514 – 11.924 – 50.838
Fonte: Anfavea

Futuro bem embalado

Costuma-se dizer que o segmento de papelão ondulado é um bom termômetro do setor de alimentos, por ser a matéria-prima que protege 75% de tudo quanto é produto embalado no mundo, segundo a Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO). Essa relação ficou ainda mais explícita durante o isolamento provocado pela Covid-19, com tanta gente optando pelo comércio on-line e recebendo suas compras em casa. “O e-commerce no Brasil representava pouco mais de 5% das vendas totais do varejo e subiu para 12% durante a pandemia”, diz Gabriela Michelucci, presidente da ABPO. O segmento de delivery de comida teve grande participação nessa mudança de hábito do consumidor final. “A entrega da alimentação também disparou, por conta dos restaurantes fechados e do aumento de refeições sendo transportadas direto para a casa das pessoas, demandando mais embalagens de papel”, acrescenta a executiva.

O desempenho do setor de embalagens também foi registrado em várias ondas no primeiro semestre de 2020. Gabriela conta que a partir do crescimento de 5,8% nos dois primeiros meses do ano, o setor já projetava evolução de 2,6% para 2020. O início da pandemia, em março, e o receio do desabastecimento geraram alta de 11%, que foi seguida por uma queda de 2,4% em abril e outra redução, de 12,5%, em maio. “Mas na segunda quinzena de junho já iniciamos a retomada”, diz a presidente da ABPO. Com a entrega de embalagens para os segmentos de alimentos, fármacos, higiene e limpeza, higiene pessoal, produtos descartáveis, e-commerce, e a retomada da indústria de bens duráveis e semiduráveis, o setor de papelão ondulado produziu mais de 1,76 milhões de toneladas no primeiro semestre, volume 2,1% maior do que nos seis primeiros meses de 2019. 

Esse movimento continuou na segunda metade do ano, chegando a 15,4% de aumento em setembro na entrega de caixas, acessórios e chapas de papelão ondulado, comparado ao mesmo mês de 2019. “A projeção da Fundação Getúlio Vargas é de que o crescimento em 2020 passe de 5%. Com a expectativa de que continue assim em 2021, pelo menos até o primeiro trimestre”, comenta Gabriela. Como consequência, a evolução da demanda trouxe um alargamento no prazo de entrega. “Os prazos que costumavam ser de 7 a 30 dias se estenderam. A previsão de regularização nas entregas é de médio prazo, a depender de como seguirá a economia, principalmente em função do término do auxílio emergencial”, diz a executiva. Este será o grande desafio do setor para 2021.

Gabriela destaca haver muitas oportunidades de ganhar mais espaço no agronegócio, sobretudo pela capacidade de o setor ofertar embalagens customizadas, atendendo às necessidades de cada produto. “Ainda há registros de perdas importantes de safras pelo acondicionamento inadequado de frutas e legumes, e o segmento está pronto para acondicionar de gengibre à uva”, afirma. Ela comenta que a indústria de papelão ondulado já atende toda a exportação brasileira de frutas, produtos que vão de um continente a outro, atravessando oceanos, e chegam intactos e protegidos para o consumidor. 

Outro fator que favorece a evolução do setor é a questão da sustentabilidade, pois o papelão ondulado é um material 100% reciclável e 100% produzido a partir de fontes de matérias-primas renováveis. “A maior vantagem das embalagens de papel, papel cartão e papelão ondulado é sua rápida decomposição na natureza, em relação aos demais materiais de embalagens”, diz Gabriela sobre em relação à tendência global de reduzir a utilização de material plástico. A executiva chama a atenção também para a relevância da reciclagem do papelão ondulado. “O Brasil figura entre os principais países recicladores do mundo, com 4,1 milhões de toneladas retornando ao processo produtivo, segundo a associação Indústria Brasileira das Árvores (Ibá).”

Mais prevenção para a saúde animal

A indústria de saúde animal espera fechar 2020 com faturamento entre 7% e 9% maior do que no ano anterior, quando somou R$ 6,5 bilhões. Se confirmado, esse resultado ficaria próximo dos últimos três anos, conforme dados do Sindan (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal): 9,4% em 2019, 9,6% em 2018 e 8,5% em 2017. Mas olhando além desses números, este é um ano muito diferente, a começar pelos impactos da Covid-19, que já influenciam as estratégias para 2021. A revisão do portfólio de produtos por parte das indústrias é um exemplo. 

Ao final da terceira rodada da pesquisa Termômetro da Indústria de Saúde Animal, realizada pelo Sindan, cerca de 60% das empresas consultadas confirmaram a possibilidade de enxugar o portfólio devido ao aumento de custos durante a pandemia. Emílio Salani, vice-presidente executivo da entidade, esclarece não se tratar, necessariamente, da retirada de produtos, pode ser um ajuste na variedade de opções, por exemplo. “Cada uma tem um peso na lucratividade, no custo de produção, logística e tipo de embalagem. Pode ser que um determinado produto, disponível com 50 ml e 100 ml, passe a ser oferecido em apenas uma das opções”, diz o dirigente, lembrando que dificilmente as indústrias se desfazem do portfólio, por ser um dos seus grandes ativos. 

Outro desafio significativo para o setor de saúde animal está na campanha nacional de vacinação contra febre aftosa. No início de setembro, o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) definiu mais quatro estados como áreas livres de aftosa sem vacinação – Acre, Paraná, Rio Grande do Sul e Roraima –, além de regiões do Amazonas e de Mato Grosso. Essa condição, que precisa ser reconhecida pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e é pleiteada também por outros estados, fortalece a pecuária brasileira frente ao mercado internacional, mas para a indústria de saúde animal também significa queda de faturamento. O segmento de bovinos representa mais da metade dos negócios do setor. Segundo Salani, a indústria veterinária pode faturar R$ 3,5 bilhões com bovinos, em 2020, sendo R$ 240 milhões só de vacinas. 

Salani afirma que o Sindan não se opõe ao avanço desse processo, mas pede precauções. “Nos avisem com um ano de antecedência sobre as mudanças, porque nosso ciclo de produção da vacina é de oito a dez meses”, diz. O dirigente ressalta ainda a importância dos procedimentos para a retirada da vacinação. “O processo de validação dura dois anos, e se acontece alguma coisa você tem 90 dias para resolver, ou pode até perder o título de livre de aftosa com vacinação”, alerta. 

Outro tema que entra na pauta do planejamento para 2021 é o Decreto nº 65.254/2020. A medida entra em vigor no dia 1º de janeiro e vai impactar todos os setores de insumos agropecuários, porque limita isenções do ICMS para várias operações. No caso da indústria veterinária, pode pesar ainda mais porque, segundo Salani, entre 70% e 80% dos laboratórios estão em terras paulistas, inclusive os dez maiores. “Entendemos que foi uma facada essa mudança em São Paulo. A lei é complexa porque tira uma série de isenções e atinge diversos produtos”, comenta. “Isso pode gerar evasão de empresas do estado. Estamos levantando informações de faturamento e número de funcionários das empresas para termos dados mais exatos sobre os impactos financeiros.”

Termômetro da Indústria de Saúde Animal

Esses dados são um recorte da pesquisa feita pelo Sindan com suas associadas e reflete o comportamento dessas empresas após um período de 120 de isolamento por causa da Covid-19.

  • 22,9% não registrou caso da doença 
  • 22,9% continuava sem visitar clientes
  • 68,6% havia retornado parcialmente ao trabalho
  • 77,1% permanecia em home office
  • 40,0% continuavam com dificuldades para importar insumos
  • 22,9% superaram totalmente as dificuldades para importar insumos
  • 74,3% teve aumento nos custos de insumos
  • 60% considera reduzir portfólio de produtos (maior parte por aumento de custos)
  • 48,6% atingirão o planejamento do ano
  • 42,9% terão o planejamento impactado negativamente pela crise
    Fonte: Sindan

Sementes de conhecimento

Um dos comentários mais citados durante a pandemia da Covid-19 foi “isso vai ficar”. Para o setor de sementes, o avanço da digitalização e a preocupação da sociedade com a qualidade e a rastreabilidade dos alimentos são fatores que permanecerão e que já provocam outras mudanças permanentes. “O home office é hoje uma prática que veio para ficar”, comenta José Américo Pierre Rodrigues, presidente da Abrasem (Associação Brasileira de Sementes e Mudas), quando fala sobre os impactos desse período. 

Em termos de negócios, o mercado “girou” normalmente, diz Américo, acrescentando que só no início da pandemia houve um pouco mais de dificuldade. “Mas contamos com forte apoio do comitê de crise instalado no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) para solucionar problemas pontuais.” Segundo o dirigente, houve uma adaptação muito rápida da maioria das atividades para as plataformas digitais, tanto as comerciais quanto de treinamento, ações dos comitês técnicos e eventos. 

Com os canais de comunicação digital, a Abrasem ganhou até mais potência no trabalho de prevenção e combate ao comércio de sementes piratas, um problema sério do setor que mostramos na edição 19 da PLANT. Segundo a Abrasem, o prejuízo no segmento nacional de sementes por causa da pirataria passa de R$ 2,4 bilhões por ano, praticamente 10% do faturamento previsto para o setor em 2020. Os mercados mais atingidos acabam sendo os mais representativos, como os de sementes de soja e milho, estimados em R$ 11,2 bilhões e R$ 8,0 bilhões, respectivamente. 

O maior envolvimento com as ferramentas digitais também foi primordial para a transformação no setor de hortifrúti, sobretudo para os pequenos produtores, que corriam o risco de reduzir o investimento em sementes e outros insumos. O fechamento de escolas e restaurantes impactou fortemente esse grupo de agricultores. Os médios e grandes, que fornecem para supermercados, viram a demanda aumentar, porque as pessoas passaram a preparar suas refeições em casa.

Vieram então as inovações que certamente vão permanecer em 2021 e nos próximos anos. “Os pequenos produtores tiveram de se reinventar, desenvolver novos canais, compras locais, vendas pelo WhatsApp com entrega na porta. Essa proximidade, que parece algo muito pequeno, acabou se tornando uma ótima saída. Tirou o atravessador, inclusive”, afirma Paulo Koch, presidente da Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (ABCSEM). 

Por conta dessas adequações, o próprio o segmento de sementes de HF passou a se comunicar mais diretamente com o consumidor final. “Trabalhamos com um bem intermediário, então para fazermos o negócio girar temos de gerar demanda na outra ponta da cadeia. Para fazer o mercado crescer, não posso lidar apenas com o produtor agrícola”, avalia Koch. E essa relação com o consumidor final é determinante para transformar desafios em oportunidades, pois ele ficou mais exigente em relação à rastreabilidade dos alimentos e ao que esses produtos representam para sua saúde.

Tudo isso está bastante ligado ao poder aquisitivo da população, pois como explica Koch, o público da classe A já consome produtos premium que atendem bem às exigências por qualidade e origem; as classes C, D e E acabam optando muito mais pelo fator preço; a maior novidade nessa demanda vem mais da classe média. De qualquer forma, o presidente da ABCSEM aposta que o consumo de hortaliças, por exemplo, continuará tendo volumes altos nas classes A, B e C, inclusive pela contribuição desse alimento do ponto de vista imunológico.

Se do lado do hortifrúti a conscientização das pessoas quanto aos benefícios de uma alimentação mais saudável é um potencial estímulo, do lado das principais commodities é a manutenção dos preços dos grãos em patamares elevados que vai incentivar o aumento de área plantada nas próximas safras. Foi exatamente por isso que ocorreu a antecipação da compra de sementes em 2020, deixando a oferta do insumo bem ajustada.  

Mas para Américo, presidente da Abrasem, é preciso superar o desafio do “marco regulatório” do setor para manter o crescimento com mais solidez. Segundo o dirigente, a legislação do setor deveria acompanhar a evolução que a indústria de sementes promoveu ao longo dos anos. “Necessitamos de uma visão, por parte dos órgãos reguladores, mais moderna, simplificando essas legislações e normas, priorizando a qualidade final do produto, melhorando as ferramentas para se combater a pirataria, priorizando o respeito à propriedade intelectual”, diz o dirigente.

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