Vinhos em tempos de crise

Como resiliência e conhecimento ajudaram a vitivinicultura a enfrentar os piores desafios


Edição 22 - 15.12.20

Por Suzana Barelli

A videira é uma sobrevivente. Com registros de sua existência há mais de 7 mil anos, a vinha enfrentou as mais adversidades sem perder o poder de encantar ou de tornar mais felizes aqueles que se deixam inebriar com seus frutos. Nos tempos modernos, sua pior adversidade foi a filoxera, um pequeninho e feroz inseto que quase dizimou as plantas no continente europeu no século XIX. Ele chegou França em 1862 e, para as videiras, pareceu até mais letal do que Covid-19 atual.

Foram mais de dez anos de pesquisas para os cientistas encontrarem uma maneira de vencê-lo. Corriam contra o tempo, já que a filoxera começou no Languedoc, no sul da França, foi se espalhando e acabando com os vinhedos de toda a Europa. A salvação veio nos porta-enxertos feitos com vinhas labrusca, espécie mais resistente, de origem americana, e que não é atacada pelo inseto. A ideia de plantar a em uma raiz americana (o enxerto) foi uma descoberta dos estudiosos da universidade de Montpelier, em 1874.

Atualmente, porta-enxertos americanos são a base para as espécies sobreviverem na maioria dos vinhedos – a principal exceção são terrenos muito arenosos, onde o animal não consegue atuar. Por alguma razão, as raízes das vinhas americanas são resistentes ao pulgão. “A videira não sobreviveria sozinha. Precisou da ajuda de uma espécie inferior para, juntas, vencerem”, explica Felipe Campos, professor da escola The School Brasil.

Para a videira, a Covid não é um inimigo. Não traz perigo às plantas, por mais que obrigue muitos cuidados para os agricultores nos vinhedos e, principalmente, na vinícola. Pior para ela são as geadas, que acontecendo em ritmo mais feroz nos últimos tempos. “Tem duas coisas que apavoram os enólogos na época da brotação: as geadas e as chuvas de pedra”, afirma o produtor chileno Mario Geisse.

No final de agosto deste ano, por exemplo, uma geada chegou a destruir alguns brotos, de variedades precoces, na Serra Gaúcha. Na década passada, regiões clássicas francesas, como Borgonha, Bordeaux e Champanhe, perderam grande parte de sua safra pelo mesmo problema. Os anos de 2016 e 2017 foram, particularmente terríveis para a Borgonha – e para os consumidores dos seus vinhos. Com a queda da produção e a lei de oferta e procura, o resultado imediato foi um aumento de preço dos vinhos destas safras.

Com as previsões do tempo mais eficientes, muitos produtores vêm conseguindo restringir o impacto das geadas. Manter as plantas mais molhadas, colocar aquecedores entre as fileiras dos vinhedos são algumas ações possíveis para evitar que as geadas atinjam os vinhedos e matem as plantas. São, no entanto, opções caras, que necessitam de grande consumo de água e que o trabalho noturno dos agricultores.

Muito diferente do que a geada de 1956 em Bordeaux. Forte e inesperada, ela teve uma consequência que mudou para sempre o perfil dos vinhos bordaleses. Com os vinhedos destruídos, seus produtores decidiram apostar apenas naquelas variedades bem adaptadas à região. Assim, a , que hoje brilha na Argentina, mas que tinha dificuldade de amadurecer em Bordeaux, perdeu lugar para a , hoje a variedade tinta mais plantada nesta região e que faz um par perfeito com a Cabernet Sauvignon.

Outro medo das videiras são os incêndios, como os que os vinhedos australianos sofreram neste início ano e os Estados Unidos, no último mês de agosto. Depois de as encomendas chinesas reduzirem drasticamente – a proximidade geográfica transforma a China em principal destino para o vinho australiano, os australianos viram os seus vinhedos arder em chamas. Além da destruição das vinhas, que precisam ser replantadas, é preciso ter paciência. A videira só começa a dar frutos três ou quatro anos depois de plantada. Mas, nos primeiros anos, uvas ainda não têm a complexidade desejada. A qualidade das uvas aumenta conforme as safras.

A fumaça dos incêndios tem reflexos até no vinho. “As uvas absorvem os aromas de queimado, mesmo que a queimada seja a quilômetros do vinhedo”, destaca Geisse. O resultado é que os vinhos de regiões vizinhas aos incêndios ganham uma complexidade de aromas, nem sempre agradável.

Mas há uma exceção. No norte da França nasce um champanhe batizado de Grande Sendrée, rótulo premium da Drappier. O nome é uma referência a um incêndio no vilarejo de Urville, em 1838. Passado o fogo, os vinhedos foram replantados sobre as cinzas (cendrée, em francês) e suas uvas ganharam uma complexidade única, sem as notas queimadas.

As videiras temem mais o fogo do que os terremotos. Em geral, os tremores de terra são terríveis para as vinícolas. Tanques e barricas cheias de líquido não resistem e, não raro, estouram, fazendo jorrar todo o vinho em estoque, com grandes prejuízos financeiros. O último grande terremoto no Chile, que aconteceu há anos, acabou com os estoques de vinho e com muitas construções, ainda em adobe, no de Colchagua. “Mas a safra seguinte aconteceu sem problemas nas vinhas”, lembra Geisse.

As videiras sobrevivem até às guerras, uma adversidade humana e não da natureza. A Segunda Guerra Mundial escolheu muitos vinhedos europeus como campo de batalha. Com o avanço dos alemães pelo norte da França, os viticultores trataram de preservar os seus bens mais preciosos. São inúmeras as histórias de produtores que esconderam seus vinhos dos alemães, como narram os autores e Petie Kladstrup, no livro Vinho & Guerra.

Os franceses foram hábeis em erguer paredes falsas nas adegas e deixar as teias de aranha escondê-los, entre outras artimanhas, para evitar que o alemão descobrisse suas riquezas. Não conseguiram proteger os vinhedos, mas, passada as batalhas, as videiras foram replantadas e voltaram a produzir. O ano de 1945, que marca o guerra, é tido como uma das melhores safras do século passado. Como se para abençoar a paz, no ano em que o armistício foi assinado.

Dos fenômenos naturais, o mais difícil para a planta são as mudanças climáticas. As videiras, no entanto, começam a aprender que podem se mover para novas zonas, em geral terrenos mais altos ou em regiões mais frias. “São as novas fronteiras do vinho”, resume Dirceu Vianna Júnior, o primeiro (e até hoje único) Master of Wine brasileiro, um dos títulos mais cobiçados do mundo do vinho. Um exemplo é que atualmente os espumantes da fria Inglaterra competem em qualidade – e em preço – com os champanhes franceses. A explicação é que o clima um pouco mais quente permite que as uvas amadureçam em vinhedos no sul da Inglaterra, o que era impensável décadas atrás.

O sucesso dos vinhos da vizinha Argentina também se baseia em subir a montanha, no caso a Cordilheira dos Andes. Entre os vinhedos mais promissores estão aqueles plantados a 1.500 metros do nível do mar, na região de Gualtallary, ao sul da cidade de Mendoza. “Os produtores procuram zonas mais frescas, para que a uva consiga amadurecer devagar”, explica Vianna.

Além disso, os viticultores estão indo atrás de variedades mais resistentes aos novos climas. A saga da família espanhola Torres em busca de variedades autóctones e mais resistentes é tão rica que acaba de virar filme. É o documentário Recuperando ”, dirigido por Klaas de Jong, que será lançado ainda este ano. A história começa com a pesquisa da vinícola para encontrar variedades autóctones espanholas na região do . Como a vinha é uma planta muito resistente, muitas sobreviveram em bosques e quintais das casas por dezenas de anos, mesmo sem cuidados e cultivo.

A forma de encontrá-las foi colocar anúncios em jornais locais, perguntando quem tinha variedades plantadas e queria conhecer a sua origem. Receberam inúmeros telefonemas e cartas. Quando identificada como uma variedade desconhecida, vinhas foram tratadas dos vírus e plantadas em vinhedos da própria Torres. Atualmente, duas variedades já são reconhecidas e estão disponíveis para qualquer produtor que queira cultivá-las. Foram batizadas de e de e já dão origem a alguns vinhos. São uma das melhores provas da resistência das videiras à adversidade da natureza e do homem.

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