Um presente sustentável

O meio urbano tem a oportunidade de assumir um pedacinho da conta da preservação de florestas


Edição 22 - 03.12.20

Por Romualdo Venâncio

Gisele Bündchen, que hoje vive na Flórida, nos Estados Unidos, planejava comemorar aqui no Brasil seu aniversário de 40 anos, completados em julho deste ano. A supermodelo viria com a família para a Amazônia, e queria celebrar plantando árvores. O plano da viagem foi frustrado pela pandemia da Covid-19. Já o de plantar árvores foi até ampliado. Em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e a Rede de Sementes do Xingu, Gisele criou a plataforma Viva a Vida para que seus familiares, amigos e quem mais se interessasse em presenteá-la o fizesse com doações para o plantio de mais árvores (R$ 5 por muda). A própria Gisele deu a largada com 40 mil unidades. E sua popularidade, projetada também nas redes sociais, ajudou a passar de 250 mil mudas de espécies nativas que serão plantadas, a partir de 2021, na região das bacias dos rios Xingu e Araguaia. A ação acaba jogando luz sobre outras iniciativas de maiores proporções e realizadas há mais tempo, muitas inclusive com a participação do setor produtivo, e sobre questões estreitamente relacionadas à preservação ambiental, como a agregação de valor para a floresta em pé e o pagamento por serviços ambientais.

A Tree-Nation, por exemplo, contabiliza o plantio de 5 milhões de árvores em 33 países de quatro continentes. A plataforma de reflorestamento criada em 2006, com sede em Barcelona, na Espanha, atua por meio de 70 projetos que têm a participação de 118 mil pessoas físicas e 1,5 mil empresas. Outros 200 projetos com potencial para serem inseridos na plataforma estão em análise. Essa aproximação acontece tanto por iniciativa da Tree-Nation como das organizações responsáveis localmente pelos projetos. O banco de 300 espécies diferentes de árvores oferece opções para reflorestamento em diversos lugares do globo. A cada muda plantada gera-se uma URL, um link específico para o acompanhamento da evolução da árvore e de informações como os níveis de compensação de gás carbônico (CO2). “Procuramos projetos com um impacto significativo para combater as mudanças climáticas, restaurar a biodiversidade e ajudar as comunidades locais”, diz Maxime Renaudin, fundador e diretor da plataforma.

Gisele Bündchen aderiu ao plantio de árvores como presente de aniversário

O combate citado por Maxime é dividido em três partes principais. Uma é a ação direta, com foco na captura de emissões de CO2, característica comum nos projetos situados em áreas tropicais e que incluem espécies de rápido crescimento. Há também a atuação para limitar as causas dessas mudanças, “como o desmatamento e a agricultura moderna”, segundo o fundador da Tree-Nation. Considerando que a modernidade da produção agrícola e pecuária passa, necessariamente, pela preservação ambiental, a expressão “agricultura moderna” nesse contexto é questionável. O terceiro foco de ação é aliviar as consequências das mudanças climáticas, como desertificação, erosão da terra, desnutrição, pobreza e extinção de espécies. O avanço da atuação da plataforma deve-se também à flexibilidade dos projetos, podendo ser adaptados à realidade local, utilizando as técnicas de plantio que mais se adéquem às características de cada região. “É por isso que nossas técnicas variam desde as que imitam animais enterrando sementes até a utilização de drones e outras soluções mais sofisticadas”, afirma Maxime.  

Gente que preserva

O perfil das pessoas responsáveis localmente pelos projetos de reflorestamento é um fator decisivo para que sejam escolhidos e façam parte da plataforma Tree-Nation. “Queremos garantir que a equipe seja profissional, experiente, adepta de boas práticas – como igualdade de gênero – e esteja claramente alinhada à nossa missão”, comenta Maxime. A Associação Ambientalista Copaíba cumpriu esta e as demais exigências e desde o ano passado está na lista de instituições parceiras. A Copaíba é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), sem fins lucrativos, tem sede na cidade de Socorro, no interior de São Paulo, e já soma duas décadas de trabalhos voltados à restauração de matas ciliares em região de Mata Atlântica. Essa conexão é um exemplo de que “uma coisa leva a outra”. Por integrar o movimento Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, a Copaíba foi encontrada pela Ecosia, uma plataforma de busca que promove o plantio de uma árvore a cada busca realizada, e se tornaram parceiras. E foi por meio da Ecosia que a Tree-Nation chegou até a Copaíba. 

Maxime Renaudin, fundador da Tree-Nation, plataforma que já tem 5 milhões de árvores plantadas em 33 países

A ação da Copaíba começou pela bacia do Rio do Peixe, em São Paulo, e depois avançou para o Rio Camanducaia, no sul de Minas Gerais, abrangendo um total de 19 municípios. São quatro linhas de atuação interligadas: educação ambiental, viveiro de mudas nativas, restauração e reflorestamento. “Já produzimos mais de 2 milhões de mudas e plantamos 685 mil, restaurando 450 hectares”, diz Mayra Flores Tavares, coordenadora de Restauração Florestal da Copaíba. Engenheira agrônoma com mestrado em Recursos Florestais pela Esalq-USP, Mayra conta que essa parte de restauração e reflorestamento é feita em parceria com produtores rurais. Por conta da diversidade de perfis de proprietários e das diferentes condições das áreas, a Copaíba faz uma avaliação técnica para formular o projeto mais adequado e indicar espécies que favoreçam os objetivos do produtor. “Ele pode desejar árvores que atraiam mais abelhas, por exemplo”, afirma. A Copaíba conta com cerca de 100 espécies nativas em seu viveiro. Por se tratar de uma recriação de bioma, aumenta a importância de se trabalhar com produtos nativos. “Precisamos saber exatamente o que estamos plantando. Se inserirmos espécies exóticas nesse ambiente, pode haver um desequilíbrio devido à competição pelos espaços das nativas”, explica Mayra.

Grande demanda por parcerias com a Copaíba é para recuperação de áreas de pastagens antigas e das condições das águas, com proteção de nascentes e margens. A organização pode apoiar o produtor com plantio, insumos, mudas e aporte técnico, ou elaborar um projeto de responsabilidade compartilhada. A área mínima é meio hectare, o produtor deve ter como objetivo a formação de floresta e não pode ter multa ambiental. Quando há potencial de conectividade entre os fragmentos florestais, o resultado é ainda mais interessante. “Aumentamos as possibilidades de formação de corredores ecológicos, o que evita a troca genética e aumenta a área para os animais transitarem. Se todo mundo conseguisse preservar em torno dos rios, formaríamos grandes corredores”, diz Mayra.

Mayra Tavares, coordenadora de restauração florestal da Copaíba

Quem não é produtor rural ou nem sequer tem uma propriedade também pode “adotar” uma árvore. “Temos serviço de plantio de mudas como presente de aniversário. As pessoas estão trocando a lista de presentes por uma lista de mudas”, conta Mayra. Essa opção de adoção de árvores tem sido vista como uma oportunidade de compartilhar a responsabilidade pela preservação ambiental com a população urbana, que costuma estar mais na posição de cobrança pela conservação do meio ambiente. É o que pensa Caio Penido, presidente do Instituto Mato-Grossense de Carne (Imac) e proprietário da Agropecuária Água Viva (Cocalinho, MT). “Acho fantásticas essas iniciativas de adoção de florestas, de compartilhar a conta da preservação com a sociedade urbana, que não tem fazenda, não tem terras”, afirma. Para ele, essa relação vai além do plantio de árvores, pode ser para preservação do que já existe, inclusive o excedente dentro das fazendas. “Muita gente se interessa por plantar árvores porque é bacana, dá projeção na mídia, mas pode adotar uma árvore que já está plantada e investir em um sistema de emissão de baixo carbono”, acrescenta o pecuarista, que participou da segunda temporada da série Top Farmers, criada pela PLANT, na categoria Sustentabilidade. 

Thiago Belote, especialista em conservação do WWF-Brasil, também concorda que o custo pela restauração florestal é alto e, por isso, é necessário que a responsabilidade seja compartilhada, até para que existam condições de restaurar os biomas. “A partir da união dos esforços e recursos dos diferentes setores da sociedade, conseguimos dar escala e gerar impacto nas ações de plantio de árvores”, diz. Ele reforça que o engajamento da sociedade em prol do plantio de árvores nativas é o caminho para combater as mudanças climáticas, e ressalta quão benéfico é aproveitar o que já está pronto, identificando as sinergias e propondo soluções para seus desafios. “Dessa forma, o agronegócio é um player importante. E conectar os esforços do setor com as demais iniciativas é fundamental, sobretudo pela importância das florestas e seus serviços ecossistêmicos – disponibilidade hídrica, conservação de solos, polinização – para a agricultura brasileira”, diz. 

Serviços ambientais

O valor de uma árvore em pé ou deitada é uma variável constante na equação de conservação e reflorestamento. Em termos ambientais, ela é mais valiosa em pé, ainda mais diante das intensas discussões sobre sequestro de carbono. Mas no âmbito comercial a conversa tem outro viés. É por isso que Fabíola Zerbini, diretora regional da Tropical Forest Alliance (TFA) para a América Latina, defende que a preservação da floresta passe por uma discussão econômica. Segundo ela, é preciso haver valoração, um modelo de precificação, e dividir os custos entre a sociedade. “Ainda temos uma transição muito longa até que, como sociedade, passemos a entender a importância de manter a floresta em pé, a restauração e como valorar a bioeconomia. Não temos muito tempo para esperar as relações econômicas globais entenderem, se adequarem, precisa ser mais rápido”, comenta.Fabíola Zerbini, diretora regional da TFA para a América Latina

Quando fala em valoração, Fabíola traz como referência o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), tema de um encontro virtual promovido pela TFA no início de agosto que teve a participação de cerca de 60 representantes da iniciativa privada, do governo, de instituições financeiras e de ONGs. “O PSA pode ser um ponto de inflexão, de mudança em direção ao agronegócio verdadeiramente sustentável, já que é um campo de convergência capaz de unir interesses diversos e de trazer resultados significativos em relação à redução da emissão de carbono e do desmatamento”, diz a executiva, destacando o estoque de carbono e de água entre os serviços ambientais. A Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais está no Projeto de Lei nº 3.791/2019, já aprovado pela Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado. Fabíola afirma ser importante o governo entender o serviço ambiental como atividade econômica que pode ser tributada e entrar na nota fiscal, agregando valor inclusive para o Estado. “Outro aspecto relevante é trazer uniformidade para as questões de valoração, o que são serviços ambientais e como eles se conectam com várias definições. É preciso reforçar essa mensagem do público e do privado e das possibilidades da hora de agir, de transformar o discurso em ação, olhar o que é viável e botar mesmo em prática”, acrescenta.

Quanto mais clareza e objetividade nessa conversa, mais fina será a sintonia. Diferenciar serviço ambiental de compensação ao produtor para que não desmate é um exemplo. Claro que se trata de desmatamento dentro da legalidade, na área em que o produtor ainda pode fazer a retirada de árvores sem infringir a lei. O que é ilegal nem se discute, é crime. “A compensação é algo paliativo, para segurar por um tempo, pois o produtor tem um custo para não desmatar, então partes da cadeia se propõem a ajudar o produtor nessa questão”, diz Fabíola. Essa é uma pauta recorrente para Caio Penido, que sempre faz questão de lembrar que o Brasil tem mais de 60% de seu território destinado à preservação e que a importância da nossa biodiversidade para o mundo é o ponto de partida para várias discussões. Sobretudo porque, como diz ele, a principal contribuição da floresta preservada é a regulação do clima mundial, por meio dos serviços ambientais, como a preservação de nascentes, devolução da umidade para o ambiente e o estoque de carbono e da própria biodiversidade. “Precisamos criar valor para a floresta viva. Será difícil preservá-la enquanto um hectare de pecuária ou de soja valer muito mais do que um de floresta, de vegetação nativa. Nossos competidores não têm esse custo”, analisa.

Esse desafio passa pela valoração das áreas preservadas dentro das propriedades, porque, segundo Caio, os serviços ambientais não são contabilizados no preço da propriedade quando alguém vende suas terras. Por outro lado, quem compra precisa mobilizar parte do capital para manter a preservação e arcar com o custo eterno de manutenção dessa biodiversidade, inclusive jurídico, ambiental e de segurança. “Os recursos florestais ajudam a própria fazenda, o setor agropecuário e toda a sociedade. O desafio está em achar resposta para compartilhar esse custo”, afirma. A divisão dessa conta envolve a comunidade global, em especial os concorrentes internacionais do Hemisfério Norte. “A prioridade deles é reduzir a pegada de carbono, então olham para o Brasil como local de preservação, querem pressionar para continuarmos a fornecer comida barata e serviços ambientais de graça. É o colonialismo que precisa ser revertido. Consumidores europeus e norte-americanos desinformados associam tudo a desmatamento ilegal”, comenta. “Mas só quando conseguirmos regularizar o Código Florestal vamos mudar essa história.” 

Viveiro da Copaíba conta com 100 espécies nativas para atender diferentes projetos

O estudo Uma Nova Economia para uma Nova Era: elementos para a construção de uma economia mais eficiente e resiliente para o Brasil, coordenado pelo WRI Brasil, que faz parte do World Resources Institute, e pela iniciativa New Climate Economy, mostra que a efetiva implantação de políticas já existentes e o correto aproveitamento do capital natural do País poderia gerar 2 milhões de empregos e PIB adicional de R$ 2,8 trilhões até 2030. “Adotar uma economia mais verde não é uma ruptura. O Brasil já tem boas práticas que, se incentivadas, podem gerar mais empregos e renda ao mesmo tempo que tornam o País mais justo, resiliente e sustentável”, diz Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil. A pesquisa, conduzida em parceria com especialistas de diversas instituições, como CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), Coppe-UFRJ, CPI (Climate Policy Initiative), Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e PUC-Rio, revelou, por exemplo, que é possível recuperar 12 milhões de hectares de pastagens degradadas nesses dez anos, o que geraria um retorno de investimentos de R$ 19 bilhões e uma arrecadação de R$ 742 milhões em impostos. “A transição para um modelo de baixo carbono é mais que uma opção real de recuperação econômica pós-pandemia: é a melhor opção para o desenvolvimento do País no médio e longo prazos”, afirma Roberto Schaeffer, pesquisador de Economia da Energia da Coppe-UFRJ e um dos autores do trabalho. 

Diante desse cenário, torna-se imprescindível separar o joio do trigo, diferenciar claramente as propriedades que mantêm preservadas as áreas exigidas por lei. “E fomentar o mercado de pagamento por serviço ambiental, crédito de carbono e green bonds. Aí você encontra um cluster de produtores mais valorizados, que servirão de exemplo até para os que ainda não estão devidamente regularizados”, diz Caio Penido, que também é integrante da Liga do Araguaia, movimento pela adoção de práticas de pecuária sustentável no Vale do Araguaia, com objetivo de promover o desenvolvimento econômico e social da região por meio do aumento de produtividade e renda, respeitando a legislação vigente e os limites dos sistemas naturais. 

Árvores no app

Financiadores interessados em investir no plantio de árvores e projetos que fazem isso da maneira mais adequada já podem se encontrar por meio de um aplicativo, e dar “match” para ampliar as ações de reflorestamento e sequestro de CO2. O World Resources Institute (WRI), organização global de pesquisa que abrange mais de 60 países, desenvolveu o app TerraMatch, com base em uma tecnologia já utilizada em nove países da África e da América Latina e que promoveu o cultivo de mais de 2 milhões de árvores em fazendas em florestas. Ainda começando aqui no Brasil, o app já contribui para o cultivo de 300 mil árvores na Amazônia peruana e mais 40 mil em Ruanda, no continente africano. O algoritmo único do sistema TerraMatch combina as preferências dos financiadores, desde a geografia até o tipo de solo, com informações dos projetos, como quem é o proprietário da terra, de que maneira as árvores serão plantadas e restauradas e quanto financiamento será necessário para isso.

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