Rótulo vende vinho?

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


09.12.20

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

Diante da enorme oferta de vinhos nas prateleiras dos supermercados e lojas especializadas o consumidor pouco familiarizado com o universo de Baco às vezes se vê completamente perdido. Que vinho levar para casa? Mesmo que limite sua escolha a um país, a uma região, a uma uva ou a uma faixa de preço, ainda assim restarão muitas opções para confundi-lo.

O impasse, não raramente, acaba sendo solucionado pelo…rótulo. Ok, ninguém bebe rótulo. Mas um rótulo bem desenhado, com as informações que o consumidor procura, bonito e charmoso, pode, sim, sacramentar a decisão de compra. Quem – em dúvida entre duas garrafas semelhantes – já não comprou um vinho pelo rótulo?

Todavia, nem todos os produtores dedicam a seus rótulos a mesma atenção que dispensam às rolhas, às garrafas e ao vinho em si. Com muita frequência, bons vinhos são comercializados em embalagens adequadas – mas com rótulos sofríveis. Graficamente pobres, com nomes esquisitos, ou enfeitados demais, acabam não conquistando a simpatia dos compradores.

Ora, o rótulo é o cartão de visitas do vinho. Esta primeira impressão tem de ser a melhor possível. Precisa capturar a atenção do consumidor indeciso em meio à uma multidão de garrafas. Então, se quem faz vinho sabe da importância comercial do rótulo, por que tantas vinícolas ainda descuidam deste item? Mesmo entre as que investem em rótulos caros, impressos em bom papel, por vezes eles têm pouco a ver com a vinícola, com o estilo do vinho ou com a personalidade de quem vai bebê-lo.

Até os anos 1990, era muito comum que vinhos brasileiros ostentassem em seus rótulos nomes estrangeiros, brasões de nobreza, castelos medievais. Ora, nunca tivemos Idade Média no Brasil. Não possuímos a tradição vinícola milenar da Europa. Nossa vitivinicultura ainda é adolescente. Felizmente, este conceito caiu em desuso. Mas persistem rótulos conservadores, ou, ao contrário, modernosos – que muitas vezes colidem com o estilo dos vinhos.

Atualmente, há uma aposta em rótulos irreverentes, ilustrados por fotografias ousadas e até por cartuns – de olho no público jovem. O mercado do vinho mudou. A idade média dos bebedores baixou. Esta estratégia não está errada. A questão é: para quem se quer vender o vinho? Se o público-alvo são os consumidores mais tradicionalistas, rótulos engraçadinhos não funcionarão. Da mesma forma, se o objetivo é seduzir o público jovem e descolado, rótulos caretas podem travar as vendas. Os rótulos precisam falar a língua do público a que o vinho se destina.

Particularmente, me agradam bastante os rótulos mais descontraídos que tenho visto. Acho que ajudam a dessacralizar a imagem do vinho sem cair no enopopulismo de alguns influencers moderninhos. São simpáticos, bonitinhos, divertidos; convidam a beber sem pompa e circunstância. Mas, para se conseguir este resultado, é preciso investir em bons designers gráficos. A linha que separa a irreverência da vulgaridade é muito tênue.

O mundo moderno é essencialmente visual. A visão é nosso principal sentido. No caso do vinho, o primeiro contato com o produto acontece por meio do rótulo. Então, que ele seja atraente, informativo e sugestivo.

É fundamental que o rótulo comunique visualmente a essência do que vai dentro da garrafa. Um vinho ligeiro com um rótulo empolado é algo tão fake quanto um vinhozinho convencional envolto por um rótulo vanguardista. Rótulo é peça importante do marketing vinícola. Mas tem de ser honesto e não deve subestimar a inteligência alheia. O consumidor pode até ser indeciso – mas não é bobo.