A primeira safra das Finanças Verdes

Preocupação com práticas sustentáveis faz deslanchar o mercado brasileiro de green bonds


Edição 22 - 17.11.20

Por Amauri Segalla

Nos últimos anos, a agricultura brasileira consolidou-se como uma das mais sustentáveis do mundo. A adoção de novas tecnologias, a gestão responsável dos recursos naturais e a busca permanente pelo equilíbrio entre produção e preservação tornaram algumas das lavouras do País símbolos internacionais de respeito ao meio ambiente. A revolução verde agora se prepara para dar um passo adiante – transformar a reputação positiva em investimentos rentáveis. A melhor maneira de fazer isso é por meio de green bonds, como são chamados os títulos emitidos para o financiamento de projetos destinados a salvaguardar o planeta, e que necessariamente devem ser auditados por organizações ou empresas independentes.

O mercado como um todo (incluindo emissões feitas por empresas de energia como a CPFL, indústrias de papel como a Klabin e até redes de alimentos como o Burger King) vive uma explosão sem precedentes. Em 2019, os títulos verdes movimentaram no Brasil US$ 1,2 bilhão, quase seis vezes mais que no ano anterior (US$ 209 milhões), segundo dados da certificadora inglesa Climate Bonds Initiative (CBI). No mundo, foram US$ 260 bilhões, 50% acima do montante de 2018. O crescimento é notável, mas o potencial do setor certamente é maior. “Há uma demanda gigantesca por produtos verdes”, diz Thatyanne Gasparotto, diretora da CBI para a América Latina. “Estão faltando emissões.”

Os green bonds são similares aos títulos comuns existentes no mercado financeiro, mas com a diferença de que só podem ser usados para bancar projetos sustentáveis do ponto de vista ambiental. Como seus parentes próximos, eles são negociados na bolsa de valores, corretoras ou outras instituições autorizadas pelo Banco Central. 
Desde 2015 e até agosto de 2020, o Brasil celebrou 50 emissões sustentáveis, que totalizaram US$ 8,1 bilhões. Os dados atualizados, levantados pela empresa de soluções financeiras Sitawi, mostram que a maioria deles está atrelada à exploração de florestas (38%) e à geração de energia renovável (24%). A agricultura descobriu apenas recentemente os incontestáveis benefícios dos green bonds, e seu poder de fogo provavelmente irá desencadear uma tempestade no setor.


Nos últimos meses, inúmeros projetos começaram a germinar, e espera-se que a maioria deles dê frutos no futuro próximo. “É na agricultura que o mercado de finanças verdes tem grande potencial de crescimento, impulsionado pelo uso de tecnologias modernas, práticas sustentáveis e aumento da produtividade”, diz Aline Maldonado Locks, CEO da Produzindo Certo, empresa que conecta produtores e companhias comprometidas com a correta gestão dos recursos naturais. “O Brasil é um país de enorme potencial para o desenvolvimento de green bonds devido à grande quantidade de projetos na área ambiental.”

Uma iniciativa criada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) deverá fomentar os títulos verdes. Em junho, a pasta lançou o Plano de Investimento do Agronegócio Sustentável, que tem por objetivo atrair especialmente investidores estrangeiros para financiar a agropecuária brasileira e, em última análise, fortalecer a imagem de sustentabilidade do país. Em outras palavras: a ideia é capturar bilhões de dólares com o lançamento de títulos atrelados a práticas de conservação ou redução de emissões de carbono.

De olho nesse mercado, a Produzindo Certo associou-se à fintech Traive Finance, especializada no agronegócio, e à Gaia Securitizadora, uma das líderes do mercado de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), para estruturar e colocar na praça, ainda na atual safra, uma inédita operação de finanças verdes. “Com os recursos obtidos, pretendemos formatar um modelo de crédito agrícola inovador para produtores rurais”, afirma Luís Eduardo Lapo, diretor de riscos da Traive. Segundo o executivo, o projeto está na fase de captação de recursos e a ideia é que o dinheiro chegue ao destino – o produtor – antes do final do ano. Estima-se que o programa acumule R$ 100 milhões para financiar até 50 projetos.

 Aline Locks, da Produzindo Certo

A participação da Produzindo Certo não apenas dá credibilidade à iniciativa como torna os processos mais dinâmicos. A empresa, que se originou da ONG Aliança da Terra, conta com 1,5 mil propriedades cadastradas em sua plataforma, todas elas reconhecidas pela produção sustentável em diferentes biomas de 14 estados brasileiros. No total, são 5 milhões de hectares monitorados, incluindo análise da situação socioambiental das fazendas, identificação das ações necessárias para que elas possam se adequar aos parâmetros legais e assistência técnica na execução de medidas sustentáveis. Todos os requisitos, ressalte-se, são indispensáveis para a emissão de títulos verdes. Em razão de sua expertise, a Produzindo Certo mantém parcerias com grandes empresas de diversos setores. Entre outras ações, ajudou a identificar para a operação brasileira, da britânica Unilever, fornecedores de soja que incorporam a proteção do meio ambiente em suas lavouras e qualificou para o GPA, maior grupo de varejo alimentar da América do Sul, pecuaristas da raça bovina Rubia Gallega, cuja carne é fornecida com exclusividade para a corporação.

O mercado brasileiro de green bonds é, de fato, um dos mais promissores do mundo. No final de julho, a alemã Bayer lançou um programa que tem como ideia central remunerar quem é capaz de produzir e, ao mesmo tempo, preservar o planeta. Chamado de Iniciativa Carbono Bayer, o projeto pagará a produtores pela captura de carbono em áreas agrícolas. Por ora, apenas Brasil e Estados Unidos integram a proposta, o que confirma a relevância dos dois países para a agricultura global (a Alemanha, nação origem da Bayer, não foi contemplada por enquanto). No Brasil, a empresa selecionou 500 produtores de soja e milho de 14 estados, o que assegura a presença de diferentes biomas nas análises. Segundo a empresa, os agricultores receberão assistência para a implementação de ações sustentáveis, além do acesso a conteúdos técnicos e acompanhamento permanente das safras pelas equipes da Bayer.

A ideia é medir a quantidade de carbono sequestrada nas lavouras e, a partir daí, pagar aos produtores um valor equivalente ao volume de CO2 removido da atmosfera. Ou seja: a empresa cria uma ponte que encurta a distância entre os produtores brasileiros e o mercado mundial de compra e venda de carbono. A Bayer investirá R$ 5 milhões no programa. “Existe uma pressão muito forte da sociedade para que as empresas ajudem a preservar o meio ambiente”, diz Eduardo Bastos, diretor de Sustentabilidade da divisão agrícola da Bayer no Brasil. “O nosso projeto está sintonizado com esses anseios.”

A Iniciativa Carbono Bayer conta com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que ajudará na medição e análise do carbono capturado no solo. Imagens de satélite e lasers, entre outras técnicas, serão utilizadas na leitura das áreas produtivas. “Um dos nossos desafios é realizar a medição da maneira mais confiável possível”, diz Luís Barioni, pesquisador da Embrapa Agropecuária Informática. E isso, claro, sem aumentar custos, o que tornaria a iniciativa inviável. No primeiro momento, a Bayer selecionou 50 produtores, que darão início imediato ao projeto. Uma das primeiras fazendas escolhidas foi a Nossa Senhora Aparecida, localizada em Água Fria de Goiás (GO). Exportadora de soja para a China e produtora de milho, feijão e trigo, entre outros itens, a unidade é parceira da Bayer há três anos. “A produção sustentável está se tornando um diferencial para os agricultores”, afirma Kaio Fiorese, diretor agrícola da fazenda. “Com o novo projeto, manteremos nosso compromisso com a preservação, mas também seremos remunerados por isso.”

Trata-se de uma grande transformação. Até pouco tempo atrás, a adoção de práticas sustentáveis na produção agrícola era dispendiosa, o que acabava afastando muitos fazendeiros. Com o avanço tecnológico, isso começou a mudar. Ser sustentável, afinal, não precisa necessariamente ser caro. Agora, os agricultores também descobriram que preservar o meio ambiente é, acima de tudo, uma questão comercial. Quem não se preocupar com o tema será excluído do novo tabuleiro econômico global. A sustentabilidade tornou-se uma espécie de mantra do mundo atual, e as empresas que não estiverem atentas ficarão fora do jogo. A Bayer acrescenta um novo elemento a esse cenário. Agora, ser sustentável significará ter dinheiro no bolso. Além de recompensar financeiramente os agricultores pelo sequestro de carbono, a empresa fornecerá créditos para a compra de produtos.

Os títulos verdes são mesmo um caminho sem volta. No início de setembro, o Grupo Ecoagro e a Rizoma Agro fizeram a primeira emissão de green bonds do mundo a partir de novos critérios estabelecidos pela Climate Bond Initiative (CBI) para o setor agrícola. A captação resultou em R$ 25 milhões convertidos em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), títulos de renda fixa lastreados em negócios rurais. Segundo a Rizoma Agro, os recursos serão destinados para a expansão da agricultura regenerativa orgânica, uma das especialidades da empresa, em uma área de 1,2 mil hectares onde são cultivados milho, soja e feijão, entre outros alimentos. “Esse é um marco importante para o agronegócio brasileiro, que agora conta com uma nova fonte de financiamento para projetos de regeneração ambiental”, disse Pedro Paulo Diniz, sócio-fundador da empresa e ex-piloto de Fórmula 1, durante a apresentação do negócio. Criada em 2018, a Rizoma é a maior produtora de grãos e leguminosas orgânicas do Brasil.

Pedro Paulo Diniz, da Rizoma: agricultura pode gerar salto de operações com títulos verdes

A agricultura brasileira deverá receber no futuro próximo uma avalanche de investimentos oriunda dos green bonds. Segundo estimativa feita recentemente por Justine Leigh-Bell, diretora de desenvolvimento da CBI, o mercado nacional tem potencial para captar R$ 700 bilhões em emissões verdes em um período de poucos anos. Sob qualquer ângulo, é sem dúvida muito dinheiro. Para efeito de comparação, isso corresponde a quase metade do PIB do agronegócio brasileiro. De todo modo, o país está atrasado. Segundo os dados mais recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a América Latina e o Caribe respondem por apenas 2% do volume total de recursos movimentados todos os anos por intermédio dos títulos verdes.  Não faz sentido um país como o Brasil, um dos maiores produtores agrícolas do mundo, ficar na lanterna desse mercado. Por isso mesmo, provavelmente os projetos irão deslanchar.

O carimbo da sustentabilidade é inegavelmente um atrativo para investidores. Na Conferência do Clima da ONU, a COP-25, realizada no final do ano passado em Madri, na Espanha, 600 investidores institucionais, que controlam US$ 37 bilhões em ativos, assinaram um compromisso com as metas do Acordo de Paris, que prevê a transição para uma economia de baixo carbono. Nesse contexto, os títulos verdes são a bola da vez. “Para nós, isso não é caridade, mas business”, disse Octavio de Lazari Jr., presidente do Bradesco, em videoconferência recente transmitida pelo jornal O Globo. O executivo foi além. “Se a percepção do investidor estrangeiro sobre o Brasil se tornar melhor, os brasileiros e as empresas brasileiras vão ganhar também.” No mesmo evento, Sergio Rial, presidente do Santander, destacou o tremendo potencial do mercado da sustentabilidade. “O Brasil pode se tornar referência econômica na área”, disse. Em 2015, o Santander estruturou a primeira operação com um emissor brasileiro, com a captação de 500 milhões de euros para um projeto da BRF. No mercado nacional, já participou de dez emissões, que totalizaram R$ 4 bilhões.

O mercado de investimentos ligados a questões ambientais pode até estar no estágio inicial no Brasil, mas a largada foi dada – e já provoca impactos em diversos setores. A B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, prepara uma reformulação do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), principal referência para destacar a atuação sustentável das empresas. Surgido há 15 anos, o ISE é formado atualmente por 36 ações e 30 companhias que, juntas, têm valor de mercado de aproximadamente R$ 1,6 trilhão. Agora, a B3 quer tornar o ISE mais atrativo para os investidores.

Uma das propostas é alterar as métricas de avaliação das empresas, adotando principalmente o conceito ESG (do inglês Environmental, Social and Governance), que consiste em melhores práticas ambientais, sociais e de governança. Apenas no segundo semestre, a indústria global de fundos ESG alcançou US$ 1 trilhão de patrimônio, o que dá a dimensão da força do segmento. Melhor ainda: um levantamento feito pela BlackRock, a maior gestora do mundo, constatou que 94% dos investimentos sustentáveis que seguem os princípios ESG tiveram desempenho melhor do que os seus pares.

Entre as mudanças consideradas pela B3 para inserir o Brasil nesse mercado está a incorporação de relatórios do Carbon Disclosure Project (CDP), entidade sem fins lucrativos que opera um sistema global de divulgação da pegada de carbono das companhias. Ao mesmo tempo, a Bolsa de São Paulo trabalha no desenvolvimento de uma plataforma para a negociação de crédito de carbono, o que certamente dará impulso extra ao mercado brasileiro de green bonds. Como se vê, seja na agricultura, seja nas finanças, o futuro é verde.

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