O Bom, o Mau e o Feio

Coluna AGRONOMÍDIA - Por Ricardo Campo


16.11.20

Ricardo Campo é coordenador de inovação da Raízen e gestor do Pulse hub. É técnico em artes gráficas pelo Senai Fundação Zerrenner, graduado em Propaganda e Marketing pela Universidade Mackenzie, especialista em Marketing de Varejo pelo Senac e possui MBA em Marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Admira a coragem dos empreendedores rurais e sua trajetória no agro também inclui a atuação nos times de marketing da DSM/Tortuga e do Rabobank Brasil.

A cena não é incomum. Ambiente árido, tensão no ar, olhares fixos e corpos pareados. Os desafiantes se encaram frente a frente, esperando pelo melhor momento ou um deslize para sacarem seus argumentos e começarem a troca de disparos. Nessa peleja quase que frequente, o debate polarizado entre produção agrícola e sustentabilidade segue ganhando contornos de Spaghetti Western.

“Faroeste espaguete” ou “Bang-bang à italiana” foi como ficaram conhecidos os filmes de Western produzidos na Itália, com clara referência aos filmes americanos do gênero. Um dos mais famosos e aclamados filmes desse período formam a “A trilogia dos dólares”*: Por um punhado de dólares (1964), Por uns dólares a mais (1965) e Três homens em conflito, ou do original em inglês, “The Good, the Bad and the Ugly” (1966).

Na opinião pública, na mídia e nas redes sociais há uma pressão genuína e crescente por mais e melhores práticas de produção sustentável para garantir o que precisamos no presente sem comprometer as gerações do futuro. E a voz das massas deixa claro o tom da mensagem: não é só possível e viável produzir assim, é mais do que necessário.

Com uma pandemia que nos colocou em isolamento e reflexão, o agro seguiu forte alimentando o mundo, mas esse período trouxe para a mesa a discussão de como o desequilíbrio ambiental e social podem limitar aquilo que desejamos para quando tudo isso passar.

De um lado os produtores e os empreendedores rurais que sabem o real valor da Terra e de seus recursos naturais. Do outro, as velhas práticas daqueles que ainda insistem na visão de curto prazo e ganho ilimitado, prejudicando o equilíbrio de um setor que evoluiu com profissionalismo, gestão e tecnologia.

Com mais de 15 milhões de produtores rurais em nosso país (Censo Agropecuário 2017), e por tudo o que essa atividade representa para famílias e comunidades inteiras, é de se concluir que nesse enredo há muito mais mocinhos do que vilões.

Mas, com uma imagem formada na grande maioria por quem desconhece a essência dos negócios do campo e, em partes, pela falta da organização setorial para um marketing capaz de desmistificar o que é verdade e o que não é, o agronegócio está na mira do grande público.

Se você já comeu hoje, abaixe sua arma.

“Agradeça a um produtor rural três vezes ao dia”. Nesse ditado americano está a síntese da importância da produção rural ao nosso cotidiano como provedora de alimentos para, pelo menos, nosso café da manhã, almoço e jantar. Se incluirmos aqui as fibras das roupas que vestimos e os biocombustíveis que usamos para nos movimentar, essa gratidão tenderia a ser maior ainda.

Porém, como em toda obra cinematográfica, há quem aplauda e há quem critique. Entre eles, infelizmente, alguns “forasteiros” que, por um punhado de likes e por uns seguidores a mais, seguem disseminando a desinformação, atirando fake news sobre um dos segmentos mais importantes da economia brasileira.

Fatos reais e temas delicados devem sim ser trazidos à tona e discutidos como forma de melhorar a atuação de players do agro e mobilizar lideranças mundiais para ações concretas que resolvam a causa raiz dos problemas. E aqui um destaque para a série documental Rotten (“Podre” em inglês), produzida pela Netflix, que aponta questões sensíveis e expõe situações de cadeias produtivas globais com o objetivo de propor maior consciência sobre a produção e consumo dos alimentos.

Comida e produção audiovisual é uma combinação que sempre gera boa audiência e nem tudo é amargo no final. Na mesma plataforma de streaming, ao procurar pelo tema “Food” é possível encontrar pelo menos uns cinquenta títulos entre filmes, séries de culinária, reality shows e outros conteúdos positivos sobre alimentação. Se em frente à TV comemos com os olhos, por que não tentar abrir a cabeça para algumas novas receitas e alimentar também a mente?

A comida do futuro é um desafio no presente.

Concebido em 1957 por John Davis e Ray Goldberg, pesquisadores da Universidade de Harvard, o conceito de agribusiness envolve a produção, processamento e distribuição de produtos agropecuários. É um sistema complexo que inclui o mercado de insumos, a atividade dentro das fazendas, operações de armazenagem e logística, processamento, atacado e varejo, em fluxos de transação que chegam até o consumidor final.

Por algumas práticas questionáveis, o agronegócio passou a carregar estigmas que destoam do seu significado original. Mas, nessa história que mescla contos de ficção e vida real, o roteiro pode ser reescrito para um final surpreendente. Até mesmo um dos “pais” do conceito já entendeu que o mundo mudou e ampliou sua visão sobre o tema.

Na sua obra mais recente de 2018, Goldberg compartilha ideias e outras provocações em “Food Citizenship: Food System Advocates in an Era of Distrust, ou, em tradução livre, “Cidadania alimentar: defensores do sistema alimentar em uma era de desconfiança”.

O livro destaca como os consumidores estão mais conscientes de suas escolhas agroalimentares, passaram a demandar alimentos mais saudáveis e sustentáveis, exigindo uma postura diferente das empresas do agro para uma atuação mais inclusiva e interconectada, numa transição de meros agentes econômicos para responsáveis pela estabilidade e futuro do planeta.

Três temas em conflito, um caminho para a solução.

 Produção agropecuária, um mundo em mudança e a sustentabilidade. O que num primeiro momento pode até parecer um trajeto tortuoso, na verdade é um caminho sem volta para continuarmos produzindo alimentos, fibras e bioenergia. E nesse ponto a tecnologia é chave para a integração de agentes e interesses, trazendo para o agro um novo olhar de quem acredita em mudança e na resolução de problemas.

Agfoodtechs, as startups com foco em agro e alimentação, começam a abrir fronteira para um mercado totalmente novo e que gera oportunidades para quem é do campo ou para quem é da cidade e quer empreender em outros ares. Com novos entrantes, chegam também novos consumidores e há uma chance de se comunicar mais e melhor com quem está disposto a fazer diferente.

Startup, esse bicho estranho que desafia o mercado com espírito jovem, inquieto e conectado, tem ajudado a trazer novos investimentos para o setor e também a aumentar a transparência em toda a cadeia produtiva.

Com soluções para rastreabilidade, agricultura de precisão, melhor uso dos recursos naturais, redução do nível de aplicação de insumos químicos, desenvolvimento de defensivos e fertilizantes biológicos, fazendas urbanas e verticais, agricultura regenerativa, bem-estar animal e proteínas alternativas. E não para por aí.

Carne que não é carne, leite que não é leite. Inteligência artificial e algoritmos para identificar as melhores matérias-primas para um produto final que pode surpreender em termos de textura e sabor. Tecnologia como a da Notco, startup chilena de produtos veganos que já recebeu aportes de grandes investidores, entre eles Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon.

O desafio é escalar para um ponto ótimo, atingindo uma base massiva de consumidores e com preços acessíveis. O mesmo se aplica às novas tecnologias para o campo que precisam se provar viáveis e atingir um número expressivo de clientes, incluindo grandes e pequenos produtores, num ambiente onde há pouca margem para testar e arriscar.

E o que esperar como cenas dos próximos capítulos? Luzes, câmera e muita ação! O bom é que há expectativa de um “novo” normal pós-pandemia com empresas e consumidores muito mais engajados. O mau é saber que ainda tem gente interessada em prosperar às custas de comprometer as futuras gerações. O feio é ficar sem fazer nada e apenas torcer pelo insucesso do equilíbrio entre agronegócio e sustentabilidade.

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* A “Trilogia dos dólares” é sucesso cult até hoje. Os três filmes são estrelados por Clint Eastwood, dirigidos por Sergio Leone e com trilhas de Ennio Morricone, maestro que recebeu um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra e entrou para o Grammy Hall of Fame pelo trabalho no filme “Três homens em conflito”.   

 

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