O ovo ou a galinha?

Coluna A REVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS - Por Marco Ripoli


23.10.20

Marco Lorenzzo Cunali Ripoli, Ph.D. é Engenheiro Agrônomo e Mestre em Máquinas Agrícolas pela ESALQ-USP e Doutor em Energia na Agricultura pela UNESP, executivo, disruptor, multiempreendedor, inovador e mentor. Proprietário da BIOENERGY Consultoria e investidor em empresas.  Acesse www.marcoripoli.com

Não pude deixar de assistir ao vídeo da aula proferida pelo professor Xico Graziano, em que ele fala sobre o dilema civilizatório que vivemos, de forma clara e objetiva, relacionando o dilema “o que veio antes? O ovo ou a galinha?” ao paralelo entre o agro e a população.

O conteúdo trata de um documentário recém realizado por importante emissora inglesa sobre o avanço da agricultura e pecuária sobre áreas naturais e os problemas ecológicos que isso poderia trazer, porém não informava que toda esta expansão está ocorrendo por conta da demanda por alimentos no mundo.  Desta forma, ressalto dois pontos iniciais para conhecimento:

A Expansão demográfica que levou a Terra a atingir seu primeiro bilhão de habitantes por volta de 1804 e dobrou sua população em 1927 (em 123 anos).  Daí a cada aproximados 50 anos ela dobrando de tamanho, atingindo 4 bilhões em 1974 e 8 bilhões em 2024.

A demanda mundial por cereais, que em 1965 era de aproximadamente 1 milhão de toneladas para trigo, 0,7 para arroz e 0,5 para cereais secundários, em 2030 atingirá valores como 2,8 milhões de toneladas para trigo, 2 milhões para arroz e 1,5 milhões para cereais secundários.

Quando se compara ambas as curvas fica clara a dependência existente entre elas.  Pode parecer obvio, mas o aumento da população provoca um aumento na demanda de alimentos!  “É aí que a agricultura vai reagir”, diz o professor.

Outros pontos relevantes como o aumento da área agricultável per capita, que nos últimos 60 anos até 2030 com o crescimento populacional se nota uma queda expressiva na área per capita.  Em 1960, era necessário 1,1 hectare de área plantada para alimentar uma pessoa. Em 2030 cairá para 0,3 hectares.  Isso só foi possível graças aos resultados obtidos com a aplicação de novas tecnologias, proporcionando aumento da produtividade e sua área.

O crescimento por região no mundo visto que na Ásia é o continente mais populoso, alcançando seu ápice em 2050-2060 e daí começar a reduzir seu número de habitantes.  Já a África apresenta um forte crescimento contínuo até 2100 e não será no século atual que atingirá sua população máxima. Apesar das demais regiões com populações estabilizadas é importante se atentar as duas curvas iniciais, pois a demanda continuar crescendo e cada vez mais por alimentos mais nobres (ex. carnes e frutas).

A disponibilidade de áreas agricultáveis no mundo evidencia que o Brasil é quem desponta com a maior quantidade, seguido dos Estados Unidos, Rússia, tendo Índia e China com potencial zero de crescimento de sua agricultura.  Diante deste cenário, a agricultura do Brasil, graças ao seu potencial de crescimento será pressionada, para atender a demanda mundial seja por expansão e/ou aplicação de novas tecnologias.

Por fim a ocupação do território nacional brasileiro:  30,2% ocupado pela agropecuária, 66,3% ocupado por áreas verdes (vegetação protegida e preservada) e 3,5% e áreas de infraestrutura e outros.  Na agropecuária, dos seus 30,2%, pastagens nativas concentram 8%, pastagens plantadas 13,2%, lavouras 7,8% e florestas plantadas 1,2%.  Isto tudo para dizer que parte destas pastagens de baixa produtividade e plantadas serão (e já estão) convertidas a áreas de produção de alimentos.

A agricultura cresce pela demanda da população… quem cresce primeiro é a humanidade e esta demanda alimentos e no Brasil esta expansão se dará ainda pelos próximos 10-15 anos e em todo o mundo por voltar de 2035 a agricultura em todo o mundo atinja um patamar de estabilidade em área, porém continuará crescendo devido a sua tecnologia aplicada.

A solução do dilema civilizatório está na intensificação da agricultura e não o recuo dela!

O Agro não para!

Fonte: Embrapa, FAO e ONU.