Famintos por mudanças

O desafio global de acabar com a fome ficou maior... e bem mais complexo


Edição 21 - 02.09.20

Por Amauri Segalla

Em agosto do ano passado, um estudante da ciência da computação perguntou para o americano Bill Gates, fundador da Microsoft, o que mais o preocupava em relação ao futuro da humanidade. O jovem certamente esperava uma resposta que tivesse alguma conexão com tecnologia, área que transformou Gates em um dos grandes mitos da história do capitalismo. Em vez disso, o que ele ouviu foi algo bastante inesperado. “Eu quero saber se teremos condições de alimentar tantas bocas no mundo”, disse Gates. “Ninguém é livre para trabalhar e prosperar se tiver fome. Sem comida, não há esperança.” Em março passado, no auge da crise do coronavírus, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a pandemia poderia comprometer a distribuição de alimentos pelo planeta, levando milhões de pessoas a sofrer com a desnutrição. “Isso é bastante perturbador”, afirmou Macron. No início de julho de 2020, o chinês Qu Dongyu, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgou um relatório que faz um apelo aos governos. “Nossa aspiração é que haja comida para todos”, escreveu Dongyu.  “É preciso ir além da mera produção de alimentos e incluir, entre outros aspectos, seu consumo, qualidade e cultura alimentar, levando em consideração as repercussões ambientais e o desenvolvimento sustentável.”

Por mais que essas declarações tenham sido feitas em períodos e lugares diferentes, elas expressam uma única preocupação: a segurança alimentar do planeta. O fato de um empresário proeminente, um político que lidera uma das nações mais ricas do mundo e um acadêmico que chefia uma organização global manifestarem a mesma inquietação revela por que o assunto deve ser debatido com seriedade. Poucas questões são tão urgentes quanto a que envolve a necessidade mais básica de todo ser humano: alimentar-se dignamente. Ao mesmo tempo, poucas vezes o mundo se viu diante de tantos desafios para produzir, distribuir e fazer a comida chegar aos pratos de cidadãos de qualquer canto do mundo. Para saciar a fome do planeta, será preciso domar as mudanças climáticas, superar guerras comerciais, controlar distúrbios políticos, driblar o protecionismo, diversificar as culturas, incentivar a produção local, acelerar a produtividade, equilibrar os estoques, vencer pragas e doenças, investir em inovação, derrotar vírus assassinos como o que causa a Covid-19 e eventualmente outros que surgirem pelo caminho – e, ufa, tudo isso ocorre ao mesmo tempo que a população cresce num ritmo assombroso e as pessoas comem cada vez mais.

O informe O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo, divulgado em meados de julho pela FAO, trouxe preocupações adicionais para um problema latente. Segundo o documento, a insegurança alimentar vem aumentando no Brasil e no mundo. Entre 2014 e 2016, 37,5 milhões de brasileiros viviam algum tipo de vulnerabilidade no que diz respeito à obtenção do mínimo desejado de alimentos. Entre 2017 e 2019, o número saltou para 43,1 milhões de pessoas. De acordo com dados da entidade, 14,5% da população brasileira não tem acesso a uma dieta saudável, sendo que alguns grupos estão ainda mais expostos. A anemia entre mulheres, por exemplo, aumentou, passando de 25,3% para 27,2% no período avaliado. Desde 2015, o planeta produziu, sempre conforme o relatório da FAO, 60 milhões de novos famintos. “Cinco anos depois que o mundo se comprometeu a acabar com a fome, a insegurança alimentar e todas as formas de desnutrição, ainda estamos fora do caminho para atingir este objetivo até 2030”, alertou o organismo internacional.

“Eu quero saber se teremos condições de alimentar tantas bocas no mundo. Ninguém é livre para trabalhar e prosperar se tiver fome. Sem comida, não há esperança.” Bill Gates

Como se vê, não será fácil garantir a segurança alimentar para as futuras gerações. Os especialistas alertam que, cada passo que for dado agora ou cada ação que deixar de ser feita causará impactos nos próximos anos, para o bem ou para o mal. “Se nada for feito, faltará comida”, disse Qu Dongyu, da FAO. “É preciso preparar o mundo hoje para que ele seja saudável amanhã.” A corrida já começou e será uma maratona com obstáculos. Enquanto o mundo produz mais do que o suficiente para alimentar a população do planeta, aumentos de preços no curto prazo associados a estresses climáticos poderão ter impacto significativo no bem-estar de 705 milhões das pessoas mais pobres do mundo, segundo projeções feitas pela FAO. A cadeia alimentar do planeta está sob pressão e é preocupante o fato de que o cenário tende a piorar. Em 2050, a população global deverá se aproximar dos 10 bilhões de pessoas – atualmente são 7 bilhões. De acordo com a FAO, cada uma delas comerá, em média, 12% a mais do que em 2000, incluindo duas vezes mais carne e aves. Isso representará um aumento explosivo de 70% no consumo de alimentos na primeira metade do século 21, crescimento jamais experimentado na história da humanidade.

O sistema alimentar global enfrenta um evidente desequilíbrio. Segundo estudo publicado recentemente pela consultoria McKinsey, o mundo é altamente dependente de apenas quatro grãos: arroz, trigo, milho e soja, que representam quase a metade das calorias de uma dieta global típica. A elevada concentração geográfica da produção também é um fator de risco. Cerca de 60% da produção global de alimentos ocorre apenas em cinco países – Argentina, Brasil, China, Estados Unidos e Índia –, sendo que essa participação tem aumentado ao longo dos anos. Mesmo dentro dos países, a concentração é uma tendência marcante. No Brasil, Mato Grosso deverá responder por 28% da produção nacional de grãos na safra 2020. No início do século, a participação estava em torno de 20%. Na Índia, 88% da colheita de trigo vem de apenas cinco regiões diferentes, e nos Estados Unidos cinco estados do Centro-Oeste são responsáveis por 61% da produção de milho. Quanto maior a concentração, mais vulnerável um sistema se torna, pois fica sujeito a acontecimentos muitas vezes incontroláveis, como secas e inundações. “Significa que eventos climáticos extremos nessas regiões podem afetar grande parte da produção global”, diz o estudo da Mckinsey.

O levantamento também aponta para outros desafios. Os países que mais dependem da importação de grãos são justamente os que apresentam um crescimento demográfico elevado ou que possuem população numerosa. Se houver um choque severo de produção de soja no Brasil, a China irá sofrer e, numa situação extrema, o fantasma da fome poderá assombrar o país da Muralha. Em abril, dos 16,3 milhões de toneladas de soja exportadas por brasileiros, 75% tiveram a nação asiática como destino, o que de certa forma escancara o desequilíbrio da cadeia global de alimentos. De um lado, está um país que é grande produtor de um grão específico e, de outro, um comprador que depende excessivamente de um único fornecedor. Do ponto de vista dos produtores brasileiros, isso não é um problema: não há, afinal, como evitar que um cliente compre muito. No aspecto mais amplo, porém, o desequilíbrio pode impor dificuldades.

“Significa que eventos climáticos extremos nessas regiões podem afetar grande parte da produção global”. Consultoria McKinsey

Singapura e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, importam 90% de seus alimentos. Isso é bastante arriscado. O que seus governantes poderiam fazer se grandes conflitos internacionais ou um evento imprevisível como um novo vírus altamente contagioso afetassem a distribuição de alimentos no planeta? Eles ficariam de mãos atadas. Na pandemia da Covid-19, Singapura viu seus estoques de alimentos perigosamente caírem, mas o fato de o vírus ter sido controlado com certa rapidez na Ásia não agravou a situação. Segundo especialistas, países com uma ampla variedade de fornecedores, tanto nacionais quanto estrangeiros, estão em melhor posição para resistir a interrupções abruptas nos ciclos alimentares – a busca da diversidade de parceiros, portanto, deveria ser uma prioridade principalmente para nações com baixa produção de grãos.

A maneira como o coronavírus afetou as relações comerciais e as transações de mercadorias entre os países mostrou como a segurança alimentar está entrelaçada com todos os grandes vetores da sociedade, em especial as áreas de saúde e economia. O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, atualmente coordenador da GVAgro, da Fundação Getulio Vargas, diz que a Covid-19 teve impacto relativamente pequeno na produção. “O maior efeito se deu na distribuição”, diz Rodrigues. Ele cita como exemplo países caribenhos, que viram as importações de alimentos cessarem com a falta de recursos provocada pela queda drástica do fluxo de turistas. “Não faltou comida porque havia estoque e porque os países vizinhos ajudaram”, afirma o ex-ministro.

Rodrigues gosta de colocar a discussão sobre segurança alimentar em uma perspectiva histórica. Segundo ele, a preocupação dos governos em alimentar adequadamente a população se intensificou após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os habitantes de diversos países começaram a passar fome após a interrupção das cadeias de abastecimento. O resultado desse processo foi o incentivo à produção interna de alimentos. “Para estimular a agricultura local, os governos criaram medidas protecionistas e passaram a conceder subsídios. Eles perceberam que a segurança alimentar era um assunto estratégico”, afirma Rodrigues. Aos poucos, o tema se espalhou para outros países “até os subsídios se tornarem um problema e contaminarem todo o comércio global”.

“A pandemia resgatou vigorosamente os debates sobre segurança alimentar e, por consequência, valorizou a importância da agricultura.” Ex-ministro Roberto Rodrigues

Organizações internacionais como o antigo Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt, na sigla em inglês) – que mais tarde daria origem à Organização Mundial do Comércio (OMC) –surgiram para arbitrar discussões que ocorriam nesse período. Nas décadas seguintes, a preocupação com a falta de alimentos se tornou secundária em boa parte do planeta. A produção global superava a demanda e os problemas pareciam restritos a questões regionais. No final do século passado, o assunto retornou com força por iniciativa da Organização das Nações Unidas. “A fome em países da África, Ásia e até Europa Oriental provocou migração em massa para nações ricas”, diz Rodrigues. “A ONU descobriu então que fome leva a guerras e que sem comida não há paz.”

Pesquisador e professor de agronegócio global do Insper, Marcos Jank acrescenta que movimentos políticos e sociais recentes são fruto de tragédias alimentares. “Em 2010, a falta de comida gerou protestos e desencadeou a Primavera Árabe”, afirma. Para Jank, a crise do coronavírus é de outra natureza. “Nas crises de 2008 e 2010, safras ruins diminuíram a produção, o que subiu os preços das commodities agrícolas e levou ao desabastecimento em alguns países”, diz. “Agora é diferente. Os mercados estão abastecidos e permanecem em níveis elevados.”

Apesar de ser uma crise diferente, a Covid-19 inflamou as preocupações sobre o tema. “A pandemia resgatou vigorosamente os debates sobre segurança alimentar e, por consequência, valorizou a importância da agricultura”, diz o ex-ministro Roberto Rodrigues. “Muita gente que não dava o devido valor à agricultura percebeu que a produção não pode parar porque, sem ela, haverá desabastecimento e fome.” Um estudo da consultoria PwC, chamado Impactos da Covid-19 no Agronegócio Brasileiro, mostrou como o coronavírus deverá desequilibrar a oferta e o consumo de comida. “O desemprego e a queda de renda da população podem dificultar o acesso a alimentos”, diz Fábio Pereira, sócio da PwC e um dos autores do estudo. Segundo ele, provavelmente surgirão novas barreiras sanitárias e regulatórias para evitar a propagação de doenças. “Não só os governos, mas as pessoas darão mais importância à origem dos alimentos e à forma como são manejados e produzidos”, diz o executivo. Pereira também destaca que, enquanto nações exportadoras restringiram embarques para garantir a oferta interna de alimentos, outros países sofreram com a falta de mão de obra para aumentar a produção local – o que só confirma como eventos de alcance global podem afetar a segurança alimentar do planeta.

“Segurança alimentar não diz respeito apenas à desnutrição, mas também à má alimentação”. Yuval Harari

Uma das maneiras de reduzir os riscos de acontecimentos inesperados sobre a distribuição de alimentos no mundo é manter um controle rigoroso dos níveis de estoque. De acordo com dados da consultoria McKinsey, apesar de os estoques atuais de grãos permanecerem altos, eles são insuficientes para suportar eventuais cataclismas. Com o agravamento das mudanças climáticas e outros fatores impactantes para agricultura, a probabilidade de um choque de 15% na produção dobra até 2030. Se isso acontecer, não significa que os alimentos vão acabar do dia para a noite, mas acima de tudo que deverão aumentar de preço. Valores elevados, nem é preciso dizer, impedem pobres de comprar comida, o que provocará efeitos colaterais desastrosos. Para a McKinsey, choques econômicos na agricultura podem levar a “distúrbios sociais e políticos generalizados, conflitos globais e aumento do terrorismo”. Daí a importância de organismos internacionais, governos e empresas se unirem para criar medidas capazes de evitar que tragédias dessa magnitude ocorram. Uma das ideias defendidas pela McKinsey é manter grandes quantidades de estoques em épocas de preços baixos e liberá-los quando os valores subirem, criando assim uma margem de segurança. Com base na produção anual de 3,5 bilhões de toneladas, estima-se que os custos anuais para aumentar os estoques globais – e garantir compensações no caso de falhas de colheita – seriam de até US$ 11 bilhões.

A inovação tecnológica tem papel fundamental no combate à insegurança alimentar. Um dos 48 cientistas que participaram do estudo A inovação Pode Acelerar a Transição para um Sistema Alimentar Sustentável, publicado na revista científica Nature Food, o brasileiro Maurício Lopes, ex-presidente da Embrapa, diz que a pesquisa investigou 75 tecnologias emergentes que são capazes de transformar os sistemas alimentares. “Já estamos familiarizados com algumas delas, como drones, impressão 3D e agricultura vertical”, diz Lopes. “Outras exigem maior imaginação, como cereais fixadores de nitrogênio que não precisam de fertilizantes sintéticos ou rações para animais produzidas a partir de dejetos humanos.” Otimista por natureza, Lopes enxerga um horizonte promissor. “Apesar de todos esses desafios, o estudo mostra que seremos capazes de produzir o conhecimento que nos ajudará a diversificar, especializar e garantir nutrição e segurança aos alimentos que o mundo necessitará no futuro.”

Nesse contexto, diz o especialista, as startups são vitais, justamente porque elas possuem a ousadia necessária para revolucionar o sistema produtivo global. Sem uma readequação da cadeia alimentar global, faltará comida para muitos enquanto outros milhões de cidadãos comerão em excesso, o que levará a doenças que poderão sufocar os sistemas de saúde. “Segurança alimentar não diz respeito apenas à desnutrição mas também à má alimentação”, afirmou em entrevista recente o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do best-seller Uma Breve História da Humanidade. Ele lembra que, no século 21, pela primeira vez morrem mais pessoas por obesidade do que por violência provocada pela ação humana. “O açúcar é hoje mais perigoso do que a pólvora”, disse. Os números confirmam sua teoria. Atualmente, 2,1 bilhões de pessoas têm excesso de peso, enquanto 850 milhões sofrem com a desnutrição. Por ano, a fome e a desnutrição combinadas matam cerca de 1 milhão de indivíduos, enquanto a obesidade ceifa 3 milhões de vidas. A obesidade, portanto, é três vezes mais letal do que a falta de comida.

Um dos grandes pensadores da atualidade, Harari prossegue: “Ainda há milhões de pessoas pobres no mundo que sofrem de desnutrição, mas as fomes em massa estão se tornando raras”. O especialista destaca que a humanidade produz tanta comida e consegue transportá-la tão rapidamente e de forma tão barata que já não existe o que ele chama de “fome natural no mundo”, provocada por grandes catástrofes como terremotos, secas ou inundações. “Há apenas fome de origem política”, diz. “Se as pessoas ainda morrem de fome na Síria, no Sudão ou na Coreia do Norte, é apenas porque os governos assim o desejam.”

É justo acrescentar que o desperdício também tem sua parcela de culpa na fome do planeta. O mundo cultiva comida suficiente para alimentar 9 bilhões de pessoas, mas um terço dos alimentos são perdidos pela ação direta de pragas ou pela colheita, processamento, armazenamento e transporte inadequados ou simplesmente porque jogamos fora jantares não consumidos. Combater esses males é obrigação das empresas, dos governos e de todo o conjunto da sociedade, sob o risco de as gerações atuais deixarem um legado perigoso para o futuro.

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