Uma liderança curiosa

A pecuarista Teka Vendramini quebra paradigmas na fazenda e na representatividade do agronegócio


Edição 20 - 16.06.20

Por Romualdo Venâncio

Quando Teresa Vendramini foi eleita presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), no dia 10 de fevereiro deste ano, nem ela imaginava a real dimensão e o impacto desse feito. Já havia sido uma grande surpresa sua indicação para concorrer a tal cargo na centenária entidade, que nunca havia sido ocupado por uma mulher. A quebra de paradigma tornou mais sonora a voz da representatividade feminina, que, com justiça, vem ganhando cada vez mais espaço na agropecuária mundial. Na linha dos antecessores de Teresa estão nomes de grandes lideranças do agronegócio, representantes do setor que têm uma relação de longa data com a Rural – como é mais conhecida a SRB – e que ocuparam cadeiras importantes em diferentes instâncias governamentais. Comparativamente, sua entrada para esse seleto clube é algo bem recente.

Para Teka, como ela mesma prefere ser chamada, essa eleição foi uma ampliação exponencial de seu ingresso na instituição em 2017, quando foi convidada a fazer parte da diretoria presidida por Marcelo Vieira, como responsável pelo Departamento de Pecuária. Até então, apenas homens haviam sido diretores na SRB. “Conheci a Rural há três anos, participei de algumas reuniões, gostei muito e me associei. Aí alguém me disse que o Marcelo queria me convidar para integrar sua diretoria. O fato de ser a primeira mulher a compor a diretoria da entidade me atraiu, assim como a possibilidade de montar um departamento de pecuária. A Rural é um celeiro de ideias e tem um posicionamento temático que o Brasil sempre quer saber”, conta. A SRB é também realizadora, em parceria com outras grandes entidades e a Datagro, do GAF, o Global Agribusiness Forum, que este ano acontece entre os dias 9 e 10 de novembro e tem como tema “Segurança Alimentar e Sustentabilidade”.

Por mais surpreendente que possa ser ou parecer a rápida ascensão de Teka dentro da Rural, essa conquista não veio ao acaso, reflete o que a dirigente já vinha semeando e cultivando como pecuarista, tanto dentro quanto fora da porteira. E tudo começa com outra significativa mudança em sua vida e pela também expressiva necessidade de aprendizado. Há cerca de 15 anos, por conta de uma divisão societária de sua família, que tem raízes no agronegócio, Teka se tornou dona da Fazenda Jacutinga, localizada em Flórida Paulista, no interior de São Paulo, a menos de 12 quilômetros de Adamantina, cidade onde nasceu, e a pouco mais de 120 quilômetros de Mato Grosso do Sul. A propriedade de 80 anos, que já teve café, grãos e gado de corte, não passava por um bom momento produtivo. “Cheguei sozinha para tomar conta de tudo, precisava torná-la eficiente”, conta.

Teka tem fortes laços com essa propriedade, pois era o lugar onde costumava passar férias. “Desde pequenininha via meus avós e meus pais trabalhando muito. Meu avô carpindo, minha avó levando a marmita para ele na roça. Tudo foi conquistado com muito trabalho”, afirma. Depois, já distante dali, morando na capital paulista, passou a levar sua filha, a Fernanda, que hoje tem 38 anos e é formada em administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Mas estar à frente do negócio é algo bem diferente, ainda mais quando não se tem formação na área. Teka é socióloga política, formada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP). “Quando saí do interior e pensei em fazer faculdade, já tinha ouvido falar da FespSP, por onde passaram nomes como Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso”, comenta. A sociologia foi essencial para a presidente da Rural no papel que conquistou como liderança do setor, mas naquele momento em que assumiu a Fazenda Jacutinga, o que ela precisava urgentemente era de outros conhecimentos.

Formação em pecuária

Diante do desafio enfrentado por dez entre dez pecuaristas, que é tornar a fazenda eficiente e lucrativa, Teka Vendramini tratou logo de buscar informação. Ela diz ter ajudado o fato de que, naturalmente, as mulheres ouvem e questionam mais. Além disso é uma curiosa de carteirinha, está sempre buscando aprender. “Fiz vários cursos na Embrapa Gado de Corte. Depois procurei também a Esalq-USP”, lembra. E há dez anos a produtora conta com a assessoria técnica do agrônomo esalqueano Arlindo Freato, especialista em nutrição e manejo de pastagem. “Ele me ensinou quão importante é o pasto para o gado, que se eu alimentasse bem meus animais eles seriam mais saudáveis e produtivos”, afirma Teka.

Quanto mais entendia sobre a melhor e mais eficiente estrutura para criar um bom gado de corte, mais a pecuarista ganhava tranquilidade nas tomadas de decisão. Escolheu investir em reprodutores zebuínos da raça Tabapuã, adquiridos na região próxima à fazenda, e a partir daí foi formando o rebanho que queria. “Meu Tabapuã era pesado e precoce, e isso vinha como consequência do pasto bem cuidado e do tratamento sanitário feito com muita cautela, respeitando os animais. Também plantei muitas árvores pelo pasto, formando bosques com sombra para o gado”, descreve. Após cinco anos desse processo, Teka deu outro passo importante para aprimorar o rebanho. Começou a inseminar suas vacas com sêmen de touros Angus, uma raça taurina de origem britânica que somaria com o zebu para potencializar os ganhos em produtividade e qualidade de carne.

Os índices de eficiência aumentaram tanto na fazenda quanto no frigorífico, e o interesse em seu trabalho cresceu ainda mais. A fama de seu plantel começou a correr pelo mercado. “Uma vez um conhecido comentou comigo sobre uma mulher que estava vendendo garrotes com menos de 2 anos e mais de 500 quilos. Quando entenderam que eu era a tal mulher, passaram a querer saber mais sobre meus animais e meu manejo. Hoje, por exemplo, tenho água encanada em quase todos os pastos e faço adubação dessas áreas”, diz Teka. “Acho que cheguei à presidência da Rural, e a outros lugares, por conta dessa experiência. É isso que me dá condições de fazer o que faço, pois esses 15 anos de pecuária têm sido uma busca permanente por conhecimento”, acrescenta.

Liderança por empatia

Se por um lado a dirigente se enche de orgulho ao falar da evolução do rebanho e do seu trabalho como pecuarista, fruto desse constante aprendizado; por outro, prefere a discrição quando questionada sobre números de sua atividade, como o tamanho da propriedade, a quantidade de animais, faturamento, rendimento. Essa postura diz muito sobre a popularidade que vem conquistando não só no agronegócio. É comum vê-la priorizar as conquistas coletivas em vez das suas. Principalmente quando se trata das mulheres que constroem a história da agropecuária brasileira, como as que começou a conhecer no período dos cursos. “Encontrei algumas produtoras que passaram a me convidar para falar com seus grupos”, comenta. “Fiquei surpresa. Nem sabia bem o que dizer àquelas mulheres.” Era só impressão, havia muito a ser dito.

O fato de ter uma história para contar e uma maneira tão peculiar de fazê-lo acabou gerando uma forte identificação com aquele público ansioso também por representatividade. Em 2017, Teka rodou o País para fazer 15 palestras e no dia 16 de outubro recebeu na sede da Rural, no centro velho da cidade de São Paulo, mais de 200 mulheres de diversas partes do Brasil, entre pecuaristas, agricultoras, pesquisadoras, professoras, empresárias e estudantes, para o Encontro de Lideranças Femininas do Agronegócio, organizado por ela. No dia seguinte, participou da segunda edição do Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, também em São Paulo, para mediar a plenária Inovação, ética e valores – A mulher do agro, os desafios e dilemas de uma era globalizada. E foi um marco em sua trajetória.

A socióloga, pecuarista e dirigente de associação de produtores e produtoras ganhou mais projeção. No dia 8 de março de 2018, ela apareceu entre as dez líderes femininas de diferentes áreas profissionais retratadas no livro Mulher Alfa – Liderança que inspira, escrito por Cristiana Xavier de Brito e publicado pela Letramento Editora e Livraria. A obra foi lançada propositalmente no Dia Internacional da Mulher e, como descreve o site da editora, sem a pretensão de ser um manual, mas sim “um retrato da mulher brasileira contemporânea e uma homenagem à sua autenticidade, criatividade e resiliência para liderar sua vida pessoal e profissional”. Como era de se esperar, a agenda foi ficando cada vez mais concorrida, tanto que Teka Vendramini deixou de contabilizar o número de viagens para fazer palestras em 2018. “Era muita coisa. E um fator muito interessante é que passei a ser chamada também pelos homens”, afirma.

As andanças por tantos e tão diferentes lugares do Brasil, diante de uma diversidade enorme de pessoas, garantiram a Teka a continuidade de seu processo de aprendizagem. Mais que isso, trouxeram uma redescoberta de todo esse ambiente, segundo ela. “Tenho encontrado mulheres muito valorosas, com histórias até mais difíceis do que a minha, e que foram superando”, diz. “Uma palavra que sempre levo para esses encontros é ‘coragem’, porque se você não tem coragem não vai a lugar algum.” Para a presidente da Rural, boa parte da proximidade com essas produtoras vem das semelhanças entre as situações vividas ao assumirem sozinhas a gestão de uma fazenda, ainda que por motivos diferentes. Mas destaca que agora a situação é outra, pois há uma nova geração de mulheres assumindo o agronegócio. Segundo Teka, é uma moçada diferente, formada nas principais faculdades ligadas ao agro e que não vem para ser coadjuvante. “E eu estou esperando a chegada delas”, diz.

Desafio inusitado

A ideia inicial para a entrevista com Teka Vendramini era de que ela recebesse a reportagem da PLANT PROJECT na Fazenda Jacutinga, no ambiente que deu origem à sua trajetória como pecuarista e se tornou seu habitat. No meio do processo de alinhamento das agendas surgiu a quarentena provocada pelo coronavírus. Frente à gravidade dessa situação, a um problema tão sério, substituir a conversa no campo por uma ligação telefônica foi a menor das complicações. Principalmente pela generosidade e pela atenção da produtora com a redação da revista, pois, como não poderia deixar de ser, passou a ser muito mais solicitada, tanto pelo setor produtivo quanto pela mídia.

A presidente da Rural não tinha dúvidas de que sua gestão seria desafiadora, e se preparou para isso. Foi com essa expectativa que compôs sua diretoria, por exemplo. “Tive grande preocupação de contar apenas com gente que estivesse disposta a trabalhar muito. Não tem ninguém passeando nesse grupo”, comenta. Mas um desafio desse tamanho, uma pandemia, não estava na perspectiva de ninguém. “Não temos bola de cristal para saber o que vai acontecer, mas já percebemos que é uma crise muito séria de saúde e de economia”, avalia. Ela entende que o agronegócio também vai sentir o baque dessa crise, pois o setor vem num movimento crescente, com exportações fortes, mas deve ser um dos segmentos menos impactados. “Até porque o mundo precisa de comida.”

A rotina ficou mais puxada. Teka procura estar atenta ao que acontece em relação a essa pandemia, no Brasil e no mundo, e analisar o que a Rural pode fazer para contribuir. E faz questão de ressaltar que esse é um trabalho coletivo, que conta com toda a equipe da entidade. Ela também se desdobra para atender às solicitações de imprensa, com entradas ao vivo, e participar de debates sobre o tema, inclusive nas agora tão frequentes lives. Tudo isso sem deixar de lado a organização da fazenda, que também exige atenção redobrada. “Os cuidados dentro de uma fazenda não são diferentes daqueles necessários dentro de uma casa”, compara. “E a porteira é a porta de nossa casa, então só entra quem precisa entrar”, acrescenta a pecuarista, em uma clara referência ao acesso mais restrito à propriedade durante esse período. O zelo com a segurança de sua equipe no dia a dia é rigoroso, vai desde questões de higiene e arrumação até a limpeza de tratores. O frasco de álcool em gel se tornou acessório obrigatório junto às tralhas que os peões carregam em seus cavalos. “E se percebermos que algum funcionário apresenta alguma sensação diferente, algum sintoma, temos que cuidar dele”, afirma Teka, com o tom agregador que parece acompanhá-la o tempo todo.

Foco em ser humana

Teka Vendramini tem motivos de sobra para afirmar que vive um novo momento em sua vida. Ter se tornado um exemplo e uma liderança para as mulheres do agronegócio foi uma grande e intensa transformação. Até mesmo porque ela também ganhou novas referências femininas para admirar, a exemplo de Carmelinda Rainato Missassi. “Conheci dona Carmelinda no ano passado, em Novo Progresso, no Pará. Ela chegou na cidade com o marido e três crianças pequenas e só tinham um pedaço de terra. Morou embaixo de barraco de lona, lavou roupa no rio, lutou ao lado do marido. Hoje são referência na região em produtividade e genética”, conta a presidente da Rural. “Na minha opinião, dona Carmelinda representa todas as mulheres do agronegócio brasileiro que chegaram antes de mim e lutaram em uma época infinitamente mais difícil.”

É esse respeito que tem também pela história de sua avó, Chiquinha Andrade Vendramini. “Sempre ao lado do meu avô, uma grande parceira”, comenta. E por outras mulheres que, segundo Teka, são de alguma maneira “duras na queda”. Essa lista ainda traz Margaret Thatcher, que em 1979 se tornou a primeira-ministra da Grã-Bretanha, posição que só havia sido ocupada por homens. Thatcher ganhou o apelido de “Dama de Ferro”, devido ao pulso firme e às medidas tomadas por ela para combater a recessão econômica daquele período. Já na história mais recente, outra referência é a quase xará Tereza Cristina, ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que tem enfrentado grandes desafios para promover o desenvolvimento do agronegócio brasileiro, dentro e fora do País.

Teka tem um jeito muito carismático, é daquelas pessoas que dá vontade de não acabar a conversa. Tem uma animação natural e é atenciosa, se compromete totalmente com o que está fazendo a cada momento e não perde o foco da prosa. Percebe-se logo que isso tudo é de sua personalidade, mas quanto mais fala sobre si mesma, mais evidente fica essa composição. “Gosto de tranquilidade, do meu tempo de estar em casa, de comer, de dormir. E gosto de ser produtiva, de arrumar minha casa, a fazenda”, diz. As preferências culturais acompanham e complementam esse perfil. “Adoro cinema! Principalmente filmes históricos, que eu chamo de filmes de verdade. Gosto muito de ler. Estou lendo agora o livro Os Presidentes, do Rodrigo Vizeu. E gosto muito de ouvir música, e ouço de tudo”, conta, como se quisesse mostrar sua playlist, que tem samba e Mercedita. Mas, certamente, se tem algo que entusiasma Teka hoje em dia é o prazer da companhia de seus netos, Antonio, de 3 anos, e Joaquim, com 4. Dá para sentir no tom da voz.

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