A tradição dos encourados

O fotógrafo Ricardo Prado percorre o sertão do Nordeste para registrar vaqueiros e suas armaduras


Edição 8 - 05.06.20

Por Catarina Guedes

O projeto já dura três anos — não tem prazo muito definido para terminar. Sempre que pode Ricardo Prado, fotógrafo mineiro radicado em Salvador, adentra um dos mais áridos e poéticos territórios brasileiros, o sertão, para resgatar um herói: o vaqueiro. Não o cowboy ou o garoto que derruba o gado por esporte em arenas multipatrocinadas, mas uma espécie de cavaleiro cruzado, guardião de um sertão imaginário e profundo, que resiste ao sol inclemente, às rudezas do mato e, principalmente, ao tempo e suas grandes novidades tecnológicas.

Prado se atém aos encourados, o vaqueiro de chapéu, gibão, jaleco, peitoral, luva e perneira, conjunto que remete às armaduras medievais e difere em adereços — e pelo modo de trabalhar o couro — de uma região para outra. Já registrou os encourados na Bahia e em Pernambuco. Agora se prepara percorrer o Piauí e o Rio Grande do Norte. O trabalho deve culminar em um livro e uma exposição. Sua ideia é comparar as regiões, mostrando como há diferenças tanto na indumentária como no jeito de montar e derrubar o gado, em virtude das características ambientais e culturais. Sua pretensão, ressalta, não é documental, mas, lírica.

O branco acinzentado do nelore, o vermelho e o púrpura das flores e frutos da caatinga e do cerrado e o ocre, quase onipresente, estão lá, esmaecidos pela técnica, para não roubar a cena do sertanejo, que o sol ofusca de cores. O centro das atenções são o vaqueiro, seu cavalo e a peleja do dia a dia.

Algumas das referências mais evidentes no trabalho do fotógrafo são as obras literárias de Guimarães Rosa e de Euclides da Cunha, mas é a poesia do músico e compositor Elomar Figueira Mello que o conduz em sua busca. “Elomar fala que existem três sertões. Um é o clássico, o outro é o histórico-geográfico e o terceiro, onde ele é o menestrel, é o sertão profundo. O sertão inventado, das histórias e tradições orais e escritas, das artes e do imaginário popular. É nele que capto um personagem real e presente ainda hoje, e tento remetê-lo ao vaqueiro antigo, heroico, que existia naquele sertão grandioso, de Cunha e de Rosa”, discorre.

NOVA EPIFANIA

A ideia do projeto Vaqueiros Encourados surgiu em 2015, quando Ricardo Prado estava concluindo as fotos para o livro Epifania, lançado naquele mesmo ano, sobre a romaria em Bom Jesus da Lapa, no Oeste da Bahia, uma das maiores do país. Prado conta que descia a gruta da Lapa, quando deparou com um grupo de cerca de 50 homens paramentados em couro, que seguiriam para uma missa do vaqueiro, em uma localidade próxima dali. “Decidi acompanhá-los de carro e fiz as primeiras fotos”, relembra.

Os vaqueiros encourados são os que se embrenham no mato. Ao contrário do dos pampas, o gaúcho de influência ibérica e indígena, que trabalha sobre pastagens abertas e amenas, o encourado encara a caatinga fechada, conduzindo o gado e recuperando os que desgarram do rebanho. A paisagem é de espinhos, galhos retorcidos e plantas venenosas, o que torna mandatória a armadura de couro.

O ofício de vaqueiro foi reconhecido como profissão pela Lei n° 12.870, de 15 de outubro de 2013. Em alguns estados, como a Bahia, é tido como Patrimônio Cultural.  Essa função surgiu após a chegada dos portugueses, que trouxeram para a colônia as primeiras reses. O aumento da população bovina e a exploração da pecuária como atividade econômica começaram a causar problemas aos produtores de cana-de-açúcar, cujas plantações eram hegemônicas nas áreas do litoral nordestino. A solução foi adentrar o território brasileiro, o que contribuiu para a expansão das fronteiras do país e para o processo de ocupação do interior. Quanto mais avançavam na caatinga, seguindo os cursos dos rios, mais os paramentos de proteção eram necessários para proteger os homens que conduziam o gado.

“No Nordeste, o vaqueiro tem de se aproximar muito do gado. Ele pula no chifre ou derruba pelo rabo, seja para curar uma bicheira ou para pegar um bezerro desgarrado e amarrar. Engraçado que, quando ele derruba, é como se estivesse desmoralizando o boi, que fica um tempo parado ali, meio humilhado”, ilustra o fotógrafo.

Depois de fotografar em Bom Jesus da Lapa, Ricardo descobriu uma região de Pernambuco em que há muita “pega de boi”, com movimento forte de vaqueiros, não apenas dos profissionais, mas também de jovens que adotaram a vaquejada como esporte radical da região. “Tem gente que não trabalha como vaqueiro, mas se veste como tal e entra no mato para pegar boi por esporte. De certa forma, estão ajudando a preservar a cultura do vaqueiro encourado.  Hoje em dia, o gado não é mais tão selvagem. A molecada encara o mato fechado em cima do cavalo pela emoção de enfrentar uma fera”, explica.

Sobre a controversa prática da vaquejada, Prado não é taxativo nem pela manutenção nem pelo fim da tradição. “Sou absolutamente contra maus tratos de animais sob qualquer circunstância. Inclusive na atividade econômica, se não leva em consideração formas dignas de abate do gado. O mesmo vale para as modalidades de entretenimento com animais. De uma maneira geral, um vaqueiro não maltrata animal. Os que tenho fotografado não fazem parte de vaquejada de arena. Mesmo essas pegas de boi esportivas que vi em Pernambuco são bem diferentes dos rodeios e vaquejadas, porque não têm público. Nem têm como ter, porque são realizadas no meio da caatinga.  Mas é muito delicado esse tema.  Há prós e contras e um mercado grande. Muita gente depende disso para viver”, conclui.

Reportagem publicada na edição 08 da revista PLANT PROJECT – Março de 2018

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