Obra e vida severina

O centenário do poeta João Cabral de Mello Neto, que retratou a paisagem rural nordestina


Edição 19 - 07.05.20

Por Ana Weiss

“No canavial tudo se gasta pelo miolo.” É apenas uma estrofe, mas a frase do poema Paisagem com Cupim resume a fonte da obra de João Cabral de Melo Neto. Nenhuma outra matéria-prima foi tão bem sintetizada e revelada (muitas vezes pelo avesso) como a paisagem rural nordestina. Mais precisamente as do sertão pernambucano, onde o poeta, que este ano completaria um século de nascimento, passou o início de uma vida que traria cenários distintos e distantes, mas que jamais tiraram do centro de sua escrita a riqueza natural e a força humana de seu Pernambuco, principal legado do diplomata que influenciou toda a arte brasileira realizada depois da sua.

João Cabral de Melo Neto é considerado uma das mais importantes vozes do Modernismo brasileiro e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Vencedor de dois prêmios Jabuti, do Rainha Sofia e do Camões de Literatura, entre outros, chegou a ser a principal aposta brasileira ao Nobel. Ele peregrinou em vida diplomática, primeiro como embaixador e cônsul (Senegal, Espanha, Portugal), sem abandonar o ofício de desvendar sua terra natal pelas palavras, o que já treinava, criança, ao recontar os cordéis que lhe chegavam às mãos aos trabalhadores do engenho da família, analfabetos dos municípios de São Lourenço da Mata e Moreno.

Apesar do reconhecimento internacional, a data do centenário, 9 de janeiro, passou com pouco alarde. Um poema feito pelo compositor Caetano Veloso, durante um show na Espanha em homenagem ao escritor pernambucano, reproduzido aqui pelo jornal Folha de S.Paulo, talvez tenha sido o ponto alto (ou mais à altura do escritor) das homenagens do dia:

“Cabral ombreia o grou coroado/Sumário confronto sobre a grama/Em frente ao palácio oficial/Alguns toureiros trazem socorro: Vêm de seus versos/Muito econômicos/Nenhum ostenta cores ou cheiros/Nenhum, sensualidade; embora/Aceso tenham o sexo”.

A efeméride acabou sendo mais lembrada pelos críticos à curadoria deste ano da Festa Literária de Paraty, a Flip, que escolheu a poeta norte-americana Elizabeth Bishop como homenageada, frustrando a expectativa de fãs e estudiosos de Cabral, que viram a escolha como oportunidade perdida de revisão do papel definitivo no Modernismo brasileiro da poesia do imortal recifense. A Companhia das Letras, porém, promete para este ano o lançamento de uma edição especial e completa da parte mais importante de sua obra, toda a poesia – Cabral também produziu em prosa. O volume, organizado pelo crítico Antonio Carlos Secchin, deve sair em junho.

João Cabral levava tempo para concluir um poema, às vezes anos – chegou a dez, confessou certa vez. Dizia que escrever, para ele, era difícil e a diplomacia lhe dava tempo para burilar, abandonar e retomar anos depois um trabalho em curso. Quem o conheceu lembra que ele jamais se satisfazia, apenas decidia parar de mexer nos poemas. Por isso é um artifício destorcido cruzar a cronologia de sua obra com sua biografia, já que as datas registradas são apenas do ano em que seus poemas saíram em livro.

Por esse ponto de vista, dos lançamentos, os anos 1950 foram cruciais para a carreira do escritor. São daquela década O Cão sem Plumas e O Rio, em que o Capibaribe é alçado de cenário a personagem, ganhando vida em estrofes que parecem também tentar justificar a mudança para o Rio de Janeiro aos 20 anos: “Sempre pensara em ir caminho do mar/Para bichos e rios nascer já é caminhar/Eu não sei o que os rios têm de homem do mar/Sei que sente o mesmo e exigente chamar”. Para recontar o curso do rio pernambucano, pelo ponto de vista dele próprio, o escritor se debruçou por dias sobre os arquivos de topografia do Itamaraty.

Morte e Vida Severina, publicado na década seguinte, foi musicado por Chico Buarque, encenado por Roberto Freire, filmado por Zelito Viana para o cinema e montado em versão televisiva pela Rede Globo. Leitura obrigatória para dezenas de vestibulares do Brasil e objeto de teses e dissertações, a saga do retirante Severino é de longe a obra mais conhecida de João Cabral de Melo Neto: “E se somos Severinos/Iguais em tudo da vida/Morremos de morte igual, mesma morte severina/Que é a morte que se morre/de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”. O autor não o considerava um bom poema.

Chamado de antissentimentalista, rigoroso e formalista, Cabral – que morreu em 1999, no Rio de Janeiro – pouco falava de si e se diz que vivia uma vida espartana, tendo como vício máximo aspirinas. Vinicius de Moraes era considerado seu contraponto, pela sensualidade emotiva de seu cancioneiro de bon vivant. Muitos falavam em uma rivalidade, contam que o recifense se irritava com o autor de Garota de Ipanema a dedilhar Morte e Vida Severina no violão.

Apesar da discrição e do claro empenho em tratar da coletividade, alguns estudiosos enxergam um autorretrato em Uma Faca Só Lâmina: “Das mais surpreendentes é a vida de tal faca: faca, ou qualquer metáfora, pode ser cultivada/E mais surpreendente ainda é a sua cultura: medra não do que come/Porém do que jejua”. O professor Bráulio Tavares diz que, para o poeta, a inspiração não era um estado d’alma, mas “Uma faca/Entregue inteiramente/À fome das coisas/Que na faca se sente”. Impresso pela primeira vez em 1955, Uma Faca Só Lâmina saiu com dedicatória ao Poetinha, que cantou como ninguém o Rio de Janeiro, cidade onde Cabral se fez escritor, fez família e morreu, mas nunca pôs em verso.

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