Uma nova região vitivinícola demarcada

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


09.05.20

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

A Campanha Gaúcha é a mais nova região vitivinícola demarcada do Brasil. O registo de Indicação Geográfica (IG), concedido há pouco pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) à Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, vem numa hora difícil para o enoturismo – com suas atividades dramaticamente reduzidas por causa da pandemia do coronavírus -, mas é a consagração de mais de uma década de trabalho em busca deste reconhecimento. A Indicação de Procedência (IP) do INPI deve certificar a tipicidade dos vinhos de 17 vinícolas espalhadas por onze municípios em uma faixa de mais de 44 mil Km2 nas fronteiras do Brasil com o Uruguai e a Argentina.

Segunda maior região produtora de vinhos finos do Brasil, atrás apenas da Serra Gaúcha, a Campanha – na metade meridional do Rio Grande do Sul – cultiva mais de dois mil hectares de vinhedos. Deles, saem 35% das uvas viníferas brasileiras e 25% do vinho fino nacional. Em pleno Paralelo 31 (o mesmo onde se localizam tradicionais regiões vinícolas da Austrália, África do Sul ou Chile), a Campanha Gaúcha abriga atualmente cerca de 20 projetos vitivinícolas, distribuídos em um arco entre os municípios de Candiota e Itaqui.

Os números impressionam – mas o terroir do bioma Pampa, por onde se esparramam esses vinhedos, mais ainda. Com topografia suavemente ondulada, elevações de no máximo 300 metros, solos pedregosos, invernos rigorosos e verões muito secos, além de excelente insolação, a Campanha se credencia como uma das mais promissoras regiões vitivinícolas da América do Sul. Ideal para a produção de vinhos tintos mais encorpados, elaborados com uvas Cabernet Sauvignon, Tannat ou Touriga Nacional, a Campanha também tem revelado pendor para a elaboração de brancos menos ácidos e mais estruturados que os da Serra à base de Chardonnay e Sauvignon Blanc, e de espumantes frescos.

Se os vinhos da Serra Gaúcha lembram um pouco o estilo Velho Mundo, a produção da Campanha tem mais a cara do Novo Mundo. Uva emblemática? Ao contrário da Serra, que elegeu a Merlot, a Campanha ainda não se decidiu entre Cabernet Sauvignon e Tannat. Mas, pela proximidade com o Uruguai – o terroir preferido da casta francesa Tannat -, tudo indica que esta última acabará levando vantagem nessa disputa.

Mais antiga do que se imagina, a atividade vitivinícola chegou à região no século 17, bem antes portanto de a imigração italiana desembarcar na Serra Gaúcha (na segunda metade do século 19), pelas mãos de padres jesuítas espanhóis. Em 1888, já havia até uma vinícola estabelecida na Campanha – a Quinta do Seival, erguida por um empreendedor espanhol. Depois, a atividade entrou em declínio.

Foi a partir do início da década de 1970, no entanto, com a instalação de projetos norte-americano (Almadén) e japonês (Santa Colina) em Sant’Ana do Livramento que a vitivinicultura ganhou impulso na chamada “Fronteira da Paz”. A atividade se consolidou a partir de 2000 com a migração de tradicionais vinícolas da Serra, como Salton, Nova Aliança e Miolo, para municípios da região, em busca de clima mais favorável à vinha e terras planas propícias à mecanização.

O enoturismo também começa a se consolidar na região. Chama a atenção, por exemplo, o roteiro enoturístico batizado de Ferradura dos Vinhedos. Concebido a partir de um estudo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) – que oferece um curso superior de enologia, em Dom Pedrito –, o percurso em forma de ferradura contempla visitas a vinhedos das empresas Salton, Nova Aliança, Almadén e Cordilheira de Santana. De quebra, ainda brinda o turista com a bela vista de lugares como o Cerro Palomas, o Cerro da Cruz, olivais, e com passagens por locais históricos da Revolução Farroupilha.

Passada a pandemia, os produtores e estabelecimentos da região esperam retomar as suas atividades – dentro, naturalmente, das regras da “nova normalidade “ – e a volta dos turistas. A safra 2020 – considerada a melhor de todos os tempos no estado – já poderá ser degustada com o selo de Indicação de Procedência (IP).

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